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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Espaço para o Lixo

 Publicado no Diário Popular de 04 de julho de 2012
O mundo é grande ou pequeno? Grande, se você passar cerca de 16 horas dentro de um ônibus para viajar de Pelotas a São Paulo. Eita, mundão de Deus. Pequeno, se passeando pelo centro de São Paulo, para repetir o exemplo, você, assim do nada, topar com um amigo de infância, um professor do primário ou um parente distante. Nossa! Que mundo pequeno. Mas o fato é que no planeta Terra, com pouco mais de 510 milhões de km², já está faltando espaço. Pelo menos para o lixo.
      Pelotas acaba de inaugurar o serviço de transferência do lixo produzido na cidade. Diariamente, quatro caminhões bitrens farão oito viagens, conforme o noticiado, carregados com toneladas de lixo para um depósito em Candiota. O aterro sanitário pelotense está saturado, problema comum a muitas metrópoles. Aprendi que nada, produto algum, se deprecia ao valor zero. Qualquer material, qualquer sucata, se existe e ocupa espaço, tem algum valor ou gera algum valor, positivo ou negativo. Esse lixo, por exemplo. Não é barato aos cofres públicos esse processo de transporte e tratamento. Entretanto, não é capricho, mas necessidade.
    Receio que não seja só para o lixo que produzimos que falta espaço. Neste mundão está faltando espaço, também, para os ciclistas, para os carros, para os caminhões (agora serão mais quatro bitrens, com 40 toneladas cada, na rodovia). De novo fico imaginando o benefício de uma estrada de fero ligando a unidade de transbordo de Pelotas até o aterro de Candiota. Vagões lacrados carregados de lixo em um transporte limpo e seguro, para si e para os usuários da BR. Mas, de novo, estou querendo demais.
    A Conferência Rio+20, que busca alternativas para o desenvolvimento sustentável do planeta, frustrou muita gente em seu texto final. Não atendeu às expectativas dos países mais pobres que cobram medidas a curto e médio prazo e acusam os países mais ricos de causarem maiores danos ao meio ambiente. Os mais ricos, por sua vez, dizem: “- Relaxem, vamos poluir só mais um pouquinho e depois a gente para. Prometo!”.
     Mas a perigosa verdade é que além de espaço, na Terra já está faltando água potável e ar fresco, faltam florestas, falta conscientização. O planeta não é uma fonte inesgotável de recursos, como alguns pensam. É finito. Previsões e teorias apocalípticas à parte, o fim do mundo é inevitável, ou, pelo menos, o fim da vida no planeta. Por favor, não se assuste, amigo leitor, pois diferentemente do que brada o doidivanas na praça, o fim não está próximo, mas sim a alguns bilhões de anos. Mas antecipar pra quê?! Portanto, separe o lixo e deixe pra lavar a calçada com água da chuva. Apague as lâmpadas da sala vazia, caminhe, ande de bicicleta, plante, recicle, enfim... cuide do seu planeta.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ganhe uma Pizza


  
Siga nosso blog e concorra. É só seguir por e-mail ou, se preferir, clicar em Participar Deste Site na barra lateral e pronto, você já está concorrendo, e receberá um e-mail como esse:

Amigo(a) Seguidor(a):
Obrigado por acompanhar o blog. Você já está concorrendo a um jantar, com direito a acompanhante, na Cantina D’Itália. O ganhador escolherá de um a quatro dentre os vários sabores de pizza que a casa oferece. O sorteio será feito através de sites especializados de Sorteio Online. Cada seguidor receberá um número para concorrer, por ordem de adesão. Não poderão participar pessoas com o sobrenome Raatz, Pons, Alam e Satte, porque pizza de marmelada não tem. Em caso de o ganhador não poder retirar o prêmio, ele poderá transferi-lo para um amigo, mediante comunicação ao moderador do Blog.
As inscrições encerram-se no dia 04 de agosto, e o sorteio será realizado no dia 05 de agosto. O ganhador terá 30 dias para aproveitar o seu prêmio, que é:
01 pizza (pode escolher até 4 sabores)
01 Jarra de Vinho JP; ou duas cervejas; ou 02 refrigerantes médios.
Boa sorte para
01 – Adalberto Batista Silva.
02 - Daniela Bernardi
03 - Família Caldeira Ribeiro
04 - João Carlos Rosenthal 
05 - Laura Paranhos
06 - Regina Lima
07 - Taciane Brussa
08 - Glaci Moraes Machado
09 - Lisiane Costa
10 - Lavínia Valin
11 - Celso Luis Martins


Beatles em Concerto



Imaginei-me jornalista. Eu estava no camarim com os músicos que há pouco deixaram o palco. Fiz a primeira pergunta:
                - A maioria dos músicos que fazem, ou que já fizeram, um trabalho semelhante a esse que vocês apresentaram hoje, ancorado na obra dos Beatles, quando perguntada sobre o que a motivou a realizá-lo, responde que era um sonho antigo. Pergunto a vocês: de onde veio essa vontade, quando surgiu a ideia de fazer com concerto com músicas da banda mais famosa do mundo?
                - Bem, esse era um sonho antigo (muitos risos), - responde o simpaticíssimo Ayres Potthoff (mestre da flauta e Diretor Executivo da Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro, com apresentações por toda a Europa), – coisa de fã que somos dos caras. Eu, pessoalmente, acho que toda escola de música, faculdade ou técnica, deveria ter uma cadeira só de Beatles, por tudo que a obra deles representou, e ainda representa, para a música no mundo todo. Percebemos que nós três tínhamos este pensamento afim, aí foi só arregaçar as mangas e elaborar o projeto. Daniel fez a maioria dos arranjos e o público tem adorado.
 Ayres Potthoff
                - Qual foi o critério para a escolha do repertório? Vocês seguiram algum padrão ou simplesmente deixaram a paixão falar mais alto e optaram pelas canções preferidas de vocês?
                - Escolher o repertório foi o mais difícil, - falou Daniel Wolff (exímio instrumentista. Doutor em violão do Brasil, Wolf, que já recebeu três indicações ao Grammy Awards, arrebatou diversos prêmios internacionais com apresentações no mundo todo, inclusive no famoso Carnegie Hall, de Nova Iorque), – pois a discografia é repleta de sucessos e preciosidades. Porém, tínhamos que resumir toda essa história em pouco mais de uma hora de concerto, sem deixar de mostrar a grandiosidade do trabalho dos caras. Optamos pela fase menos roqueira da banda, incluímos algumas canções que gostamos pessoalmente e outras que nos falam algo sobe a trajetória dos Beatles.
Daniel Wolff

                Depois de mais algumas perguntas, eu finalizo:
                - Pedro Osório foi a primeira cidade do interior a receber o Beatles em Concerto. Algum motivo particular para essa escolha? Vocês pretendem iniciar uma turnê pelo interior do estado?
                - Tenho um carinho muito grande pela cidade e por seu povo, pois já estive aqui em outras oportunidades, - diz Wolff – inclusive com o Rodrigo (Alquati, que completa o trio. Rodrigo é violoncelista premiado, solista em diversas orquestras do RS. É o mais calado dos três músicos, mas quando toca o cello é como ouvir uma orquestra de anjos). Mas o que pesou, de fato, foi termos sido convidados pelo nosso anfitrião, o querido Santana. Aliás, sempre que estive aqui foi a convite dele, essa pessoa maravilhosa que nos proporciona cultura pela cultura (Santana, cidadão de Pedro Osório, já trouxe à cidade artistas como Elomar, Turíbio Santos, Xangai, Pereira da Viola, entre outros, simplesmente porque é um amante da boa música). – Não sei se faremos turnê pelo Estado, mas, com certeza, voltaremos a Pedro Osório. Espero que em breve.
 Rodrigo Alquati
                Não sou jornalista e essa entrevista nunca aconteceu. Mas o concerto, sim, foi bem real, apesar de que ouvi-los tocando é quase como um sonho. Beatles em Concerto esteve em Pedro Osório no último dia 16 e fez parte da comemoração de aniversário do Santana, nosso embaixador cultural. O aniversário foi dele, mas todos nós ganhamos o presente.


 

Doação e Voto

 Publicado no Diário Oficial de 02 de julho de 2012
Quando morava em Porto Alegre, por algum tempo eu fiz doações, em dinheiro, para uma creche que abrigava crianças carentes. A escola agendava a doação por telefone e um motoboy passava, mensalmente, para recolher os vinte reais mediante entrega de um recibo com o nome e CNPJ da escola. A cada contato por telefone a moça me convidava para ir conhecer a creche e o trabalho que lá realizavam. Nunca fui, porém imaginava que meu dinheiro estava sendo bem utilizado, amenizando os problemas enfrentados por crianças em dificuldades.
        É mais ou menos o que o governo faz com o Bolsa Família: distribui dinheiro (do contribuinte) às famílias carentes, de baixa ou nenhuma renda, e imagina – sem ter certeza - que desse modo está contribuindo para um futuro melhor para essas pessoas.
      Alguns críticos desse sistema dizem que esta alternativa de auxílio acaba valorizando a pobreza e acomodando o beneficiado, pois, em tese, este deixa de lutar por educação e emprego melhores. O governo não fiscaliza eficientemente a contrapartida – como frequência escolar, uma das condições para receber a Bolsa. Outros opositores ainda acusam o programa, que nasceu na esfera da educação e que depois foi transferido para a do social, de armadilha para captar de votos. Mas é inegável que, apesar de suas falhas e deficiências, o Bolsa Família é considerado por governos do mundo todo como uma importante inovação nos programas de combate à miséria, sendo, inclusive, adotado por muitos países, alguns até do chamado primeiro mundo.                         
       Após a grande depressão de 1929, que arrasou a economia norteamaricana e que, de quebra, afetou muitos países ao redor do planeta – inclusive o Brasil, que exportava muito café para os EUA - o presidente Roosevelt adotou severas medidas para salvar o que restou das finanças do país. Preocupado com as crianças cujas famílias perderam tudo o que tinham (algumas ficaram órfãs devido ao grande número de suicídios), o governo criou um programa para incentivar as adoções. Famílias que conseguiram salvar algum patrimônio e que não tinham filhos recebiam uma ajuda financeira do governo para adotarem essas crianças. Dessa forma ficava garantido o sustento dessas novas famílias e evitava-se a proliferação de sem-tetos. Para certificar-se dos resultados do programa, autoridades faziam visitas periódicas a essas famílias para ver como seus novos membros estavam sendo tratados.
      Pode-se acusar o Bolsa Família de incentivar o aumento da natalidade entre às classes mais pobres? Ou as famílias americanas de tirarem proveito da desgraça alheia para tomar dinheiro do Estado? E o que dizer do cidadão comum que faz doações, mas que não tem a mínima ideia de como seu dinheiro está sendo utilizado? O que fica evidente é que para resolvermos as mazelas do país, todos devem fazer a sua parte, governos e cidadãos comuns, sem nunca deixar de assegurar que esses esforços não estejam sendo em vão. Este pensamento me remete à figura do nosso vereador, cuja principal tarefa é fiscalizar, através do nosso aval, os mandos do executivo. Voto também é doação. Faça-o com critério.




Dor de Dente

Jou  Silveira

            Conheci o Santana nos anos 70, quando ele ainda achava-se parecido com o Jimi Hendrix (na verdade todos nós, ou achávamo-nos parecidos ou tentávamos imitar algum ídolo).
            Naquela época morava no Arroio Grande e, nos finais de semana, viajava para Pedro Osório quando, com a sua inestimável orientação, passei a conhecer música. Usávamos o quarto como palco, a lâmpada como microfone, e uma guitarra sem cordas para apresentações de causar inveja ao melhor guitarrista (a melhor que me lembro foi a do Turcão).
            Numa tarde de domingo aparece o Santana, na lancheria do Sombra, com uma dor de dente de travar pensamento. Sendo uma pessoa muito querida a preocupação foi geral. Entre todas as sugestões (LSD, banho de rio, suicídio, etc.), a que mais interessou foi “procurar um dentista”, mas nos anos 70 os dentistas eram poucos no interior, e domingo, os poucos desapareciam.
            Depois de muito debate, o Santana quase às lágrimas, surge um nome poderoso: Dr. Pedro Souza, dentista e, entre outras qualificações, participante da comissão emancipacionista de 1959, portanto, de incontestável competência.
            Já amolecido pela dor e sem outras alternativas, a não ser aquelas já citadas, partiu para a rua Paschoal  Marchese ao encontro de seu salvador.
            Um pouco mais tarde aparece o paciente, bochecha inchada, meio tonto, mas o que era mais importante, sem dor.
            Pouco tempo depois a dor retorna, lancinante, fazendo com que voltasse às pressas para o consultório do velho xamã. Ainda retornou mais uma vez antes de desaparecer completamente.
            Dias depois fiquei sabendo que, por não praticar a muito tempo, mas sabendo que o problema era no lado esquerdo do maxilar inferior, o Dr. Pedro usou uma técnica “inovadora”: extraiu os dentes, um por um, do fundo para a frente, até encontrar o causador do desconforto, tendo sido uma sorte não ter passado do terceiro.  

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Entrevista - Valdemar Pepino

Qual será o critério definitivo para uma pessoa ser conhecida pela maioria da população de uma cidade? Riqueza? Poder? Aparecer na televisão em horário nobre, ter feito atos heroicos, ou ainda ter sido campeão de votos nas últimas eleições? Pois Valdemar Riquecepe passa longe da riqueza e do poder; não tem televisão em casa, quanto mais aparecer em uma; nunca foi candidato a nada e, pelo que se sabe, não é herói de ninguém. Talvez você nem saiba quem é o Valdemar Riquecepe, esse senhor que você já deve ter avistado diversas vezes pelas ruas da cidade, quem sabe até trocou uma ou duas palavras com ele e muito possivelmente foi convidado para a festa de seu aniversário. Mas e Valdemar Pepino? Esse você deve conhecer. Confira, abaixo, a conversa que tive com essa pessoa curiosa, divertida, de coração grande e que torce para o Internacional..

Boboy Segundo - Bom dia, seu Valdemar, gostaria de se apresentar para os leitores do Boboy Segundo?
Valdemar Pepino – (rindo) leitores de quem?
BS – Do nosso blog.
VP – Nem sei o que é isso, mas vamos lá. Meu nome é Valdemar Riquecepe (pedi que soletrasse para mim, mas ele, embora saiba ler e escrever, encontrou dificuldades, de modo que Riquecepe é somente  a escrita fonética desse nome que deve ser alemão ou polonês). Nasci em Pelotas no dia 17 de julho há 70 anos.
BS - De onde saiu seu apelido, Pepino? Isso lhe incomoda?
VP - A gurizada mexe comigo e eu tenho que me fazer de brabo pra manter o respeito, mas não me incomoda, não. Quem me chamou assim a primeira vez foi o Celso da Unidos. Aí, pegou.
BS – Há quanto tempo o senhor mora em Pedro Osório?
VP – Estou morando faz oito anos na última rua do bairro Paraíso (numa casa que ganhou da prefeitura).
BS – Mas na cidade de Pedro Osório, há quanto tempo o senhor mora, como o senhor veio parar aqui? Gosta da cidade?
VP – Não lembro quanto tempo, mas sei que faz muito. Vim pra cá depois que minha mãe faleceu. Escolhi Pedro Osório porque a Lígia, minha irmã, mora aqui também. E eu gosto de morar aqui. Agora está ficando meio violento. Assaltaram o Adão das Pipocas, meu vizinho. Ele ia andando pela rua e levaram tudo dele. A cidade não era assim. Até parei de ir nos bailes (o que mais gosta de fazer) por causa das brigas e dos assaltos. Agora vou só na Festa da Melancia. Mas mesmo assim, gosto muito de Pedro Osório.
BS – O senhor já foi casado?
VP – Eu ia casar com a irmã do alemão da feira, já tínhamos comprado o vestido e as alianças. Mas então ela teve leucemia e faleceu antes do casamento. Depois eu não quis saber de mais ninguém. E além do mais, mulher dá muito trabalho.
BS – Falando em trabalho, o senhor trabalha?
VP – Às vezes faço alguns trabalhos de capina e jardinagem (mostra as mãos sujas e calejadas).
BS – Mas o senhor não trabalha na feira?
VP – Agora não, mas ajudava o pessoal. Quando precisam de ajuda eles me chamam e eu vou.
BS – E como o senhor se sustenta? Recebe alguma aposentadoria?
VP – Meu irmão disse que não sou aposentado e que eu tenho que ir no INSS.

BS – Mas o senhor recebe algum auxílio do governo, algum dinheiro pra alimentação?
VP – Meu irmão disse que não sou aposentado, e que tenho que ir no INSS. É ele quem me traz comida. Eu tenho que ir no INSS, porque sou encostado. Meu irmão disse que tenho que ir lá (o irmão de Valdemar, que é seu curador, mora em Pelotas).
BS – O senhor disse que nasceu em 17 de julho. Então está chegando o dia do seu aniversário.
VP – (animando-se) Mas a festa vai ser dia 22, no salão funerário.
BS – Salão funerário?
VP – (rindo) No salão do Apolinário (Centro Comunitário do Bairro Santa Tereza). Ó, vem gente da Lixiguana, de Pelotas, Porto Alegre, Canguçu, Jaguarão, São Lourenço, Cerrito, Passo do Sant’ana, e outras cidades,
BS – Qualquer um pode ir?
VP – Sim. Tem que levar uma lembrancinha, salgadinhos ou docinhos, e 01 kg de alimento. Vai ter 6 bolos e muita dança (Valdemar passa o ano todo convidando para essa festa. É o dia mais feliz da vida dele).
BS – Seu Valdemar, pra encerrar, vamos fazer um bate-bola?
VP – (rindo) Aqui na calçada? Eu não sei jogar bola.
BS – Não, seu Valdemar. É um jogo rápido de perguntas. Eu pergunto e o senhor responde em poucas palavras. Vamos começar?


Bate-bola com Valdemar Pepino

BS – Filosofia de Vida.
VP – Heim? Fiso o quê?
BS – Sua Fisolo, digo, Filosofia de Vida, seu Pepino.
VP – Ah! Liberdade (não é casado, lembra?).
BS – Ponto fraco
VP – Não tenho.
BS – Ponto forte?
VP – Saúde
BS – Trabalho
VP – Capina
BS – O que mais admira nos outros
VP – A alegria
BS – E o que mais detesta nos outros
VP – A bagacerice
BS – Comida
VP – Salada de batatas
BS – Sobremesa
VP – Pudim
BS – Bebida
VP – Refri
BS – Amor
VP – Por todo mundo
BS – Solidão
VP – Não sinto
BS – Televisão
VP – Vou ganhar três
BS – Viagem
VP – Meu irmão vem me buscar pra gente ir a Pelotas. Tenho que ir no INSS
BS – Um livro
VP – (encabulado) Aqueles com mulher bonita, sabe?
BS – Uma saudade
VP – Do alemão da feira. Me disseram que ele tinha morrido, mas é mentira.
BS – Religião
VP – Luterana
BS – Ator e Cantor
VP – Texeirinha
BS – Atriz
VP – Mary Teresinha
BS – Para quem o senhor dá nota dez?
VP – Pra ti
BS – Obrigado. E para quem o senhor da nota zero?
VP – Pra ti (rindo muito).

Esse é o senhor Valdemar Pepino Riquecepe.
Abaixo, alguns depoimentos postados no Facebook:
Sem maiores comentários este é "O CARA!"!” – Adalberto Batista Silva
Eu já fui convidada para o aniversário e para o casamento, além da minha mãe ter recebido uma rosa dele” – Miltiele Avila
É um quadro. Sempre convida pro niver dele.” – Renata Porto
“É uma pessoa de um carisma invejável e de um coração puro e sincero. Uma personalidade pedrosoriense, merece todo respeito!” – Adão Ferreira







Pescaria com o Chefe

(Essa história é metade real e metade ficção. Aconteceu com um amigo. Eis a primeira parte.)

O convite me foi feito um mês antes do esperado. Não entendo nada de pescaria e muito menos de barcos, mas eu não tinha outra opção a não ser aceitar, disfarçando o entusiasmo. Era esse o passaporte para minha carreira, meu primeiro emprego real depois de formado. Quando cheguei na Firma o Técnico já me alertara: se o Chefe te chamar pra pescar no domingo, pode abrir o champanhe. Era o teste final. Todos que passearam de barco com o Chefe foram contratados. Os que eram dispensados após o período de experiência na Firma nem pra almoçar ele convidava, imagine, então, para um passeio de barco na lagoa.
A Firma era pequena. Havia o Técnico, a Secretária, a Menina que fazia a arte final, o Desenhista, o Editor, o Chefe e eu, que estava começando como Assistente de Arte. Todos eles, os colegas, saíram pra pescar com o Chefe antes de efeivados.
Era, a Firma, bastante respeitada e requisitada no mercado publicitário e por isso a escolhi para começar minha carreira de criador de comerciais. O tempo de experiência, devidamente registrado na carteira, era de noventa dias, mas, esquecendo a modéstia, eu vinha fazendo um bom trabalho na assistência. Prova disso é que um mês antes de terminar o tempo de testes o Chefe veio até minha mesa e perguntou:
- O que você vai fazer domingo, Assistente?
Interrompi o que estava executando no computador, olhei para sua cara enorme – aliás, o Chefe era um gigante, um galalau titânico, ex-pugilista e ex-halterofilista amador – e respondi:
- Eu ia sair com a Namorada, Chefe, talvez um cin...
- Ia? Ótimo. Parece que a Lagoa está assim de Tambaqui. Vamos ver como você se sai numa pescaria de verdade. Passo na sua casa domingo às seis.
O Técnico também avisou: o convite era intransferível, irrecusável, e único. A menos que estivesse morto, tinha que ir. Na hora não sabia o que pensar. Senti um misto de alegria, nervosismo, vontade de cantar, de beijar o Editor que era muito feio e de bolinar a Secretária que era muito gostosa. Mas consegui me conter e tentei voltar minha atenção para o monitor como se nada tivesse acontecido. A Menina da arte final, que dividia a sala comigo, veio até onde eu estava e me cutucou no braço.
- Aí, Assistente, se deu bem, heim?! Parabéns.
Só consegui sorrir. Por sorte o dia estava terminando e eu poderia ir pra casa comemorar a novidade com a Namorada. Na saída a Secretária ainda me disse:
- Bom almoço com o Chefe. E devagar com a pimenta. - E se foi rindo pela calçada, depois de um beijo quente (como é boa essa Secretária) na bochecha, de parabéns. Recebi apertos de mão e abraços dos outros colegas e fui para o ponto de ônibus esperar minha condução, não sem antes tomar uma cervejinha no Bar para pré-comemorar minha contratação oficial. Lembrei da Namorada. O cinema de domingo seria adiado. Ou antecipado. Talvez um filmezinho amanhã fizesse bem. Não fez. Eu nada de prestar atenção no filme, e nem na Namorada. Só pensava no dia seguinte, no domingo, no barco, no tal do tambaqui, no Chefe e no teste final que todos falavam. Naquela noite não dormi.

Às cinco horas de domingo eu já estava de banho e café tomados e aguardando a chegada do Chefe. Liguei a TV para passar o tempo e assisti a uns desenhos antigos. Quando o programa da Santa Missa começou ouvi um barulho de carro parando na frente da casa. Como sempre fazemos antes de abrir a porta, espiei pela janela afastando a cortina de renda. Era a camionete do chefe. Achei que tinha desistido do passeio, porque não avistei o reboque com o barco. Abri a porta antes que ele tocasse a campainha, não queria acordar meu pai. Sua cara grave estava toda sorridente e ele estendeu sua mão do tamanho de uma raquete de tênis e apertou a minha, aperto de mão de quem está acostumado a ser chefe.
- Bom dia, Assistente.
- Bom dia, Chefe. Não vamos mais pescar?
- Claro que vamos, assim que você se aprontar. Vá se vestir.
Eu estava usando umas botas de couro velhas com o cano por cima de uma calça jeans mais velha ainda. Uma camiseta e um colete estilo safári. Na cabeça, um boné de propaganda. Quando me olhei no espelho parecia um autêntico pescador. Mas o Chefe não concordava comigo. Mandou que eu trocasse de roupa. Uma bermuda, camiseta e tênis estavam de bom tamanho. Podia manter o boné para proteger-me do sol.
Contou-me que o barco estava numa marina, a uns quarenta minutos da minha casa. No caminho o Chefe foi discorrendo sobre a arte de pescar. Depois falou como preparar um dourado na grelha. Contou que era separado e tinha dois filhos, e que sempre que podia levava os moleques pra passear de barco. A viagem passou rápida e logo chegávamos num tipo de ancoradouro à beira da lagoa. No pequeno trapiche três barcos de pesca estavam amarrados com grossas cordas. Um deles era o do Chefe, que logo ele fez questão de mostrar, muito orgulhoso de sua propriedade. A movimentação de homens já era grande por ali, e meu superior cumprimentou a todos alegremente, chamando-os pelo nome. Todos o tratavam com muita consideração e respeito. Um homem, um dos mais velhos, veio até onde estávamos e falou que estava tudo pronto, poderíamos zarpar em seguida.

(Continua na quinta-feira)

Pescaria com o Chefe - parte 2

Era um barco lindo. Enquanto carregávamos nossas bagagens para dentro da embarcação, o Chefe explicava:.
- Este é o d’Oro Tea, Assistente. Têm 11 metros de comprimento e capacidade para dez pessoas. Temos uma cozinha bem equipada e banheiro com chuveiro. Por toda a volta do barco você encontrará espera para varas. Sobre a cozinha fica a nave de comando, com todos os equipamentos de orientação e comunicação, e mais acima há um pequeno terraço onde se pode tomar um ótimo banho de sol. O que você achou?
- Incrível! Nunca tinha estado em um barco como esse. – Na verdade nunca estive em barco nenhum, mas não disse a ele.
- Certo. O Capitão vai com a gente. Geralmente eu mesmo piloto essa belezoca, mas hoje quero apenas ensinar a você como pegar um bom tambaqui. Assim poderemos conversar durante o passeio. Capitão! Vamos navegar?
O homem que tinha falado conosco minutos antes soltou as amarras que seguravam o barco e subiu com agilidade no d’Oro Tea. Logo o motor foi ligado e avançamos calmamente para dentro da lagoa.
Enquanto Capitão trabalhava na nave de comando, eu e o Chefe nos sentamos perto de deck para preparar as iscas. O Chefe abriu um porta iscas de inox que Capitão tinha retirado da geladeira. Havia todo tipo de coisas nojentas ali dentro. Tripa de frango, acerola, umas massinhas rosadas e até um saquinho com minhocas vivas. Aprendi que os tambaquis gostavam de tudo aquilo, mas o preferido deles era o nhoque feito com ferinha de trigo, água e suco de groselha em pó.
- Que tal um café, Assistente? Tem uma garrafa térmica na cozinha. Desça lá e traga também duas xícaras. Deveremos chegar no ponto de pesca em alguns minutos. Enquanto isso vou dando uma arrumada nessas coisas aqui.
Quando voltei com o café o Chefe abandonou o que estava fazendo e me convidou para sentar para bebermos o líquido quente.
- Você tem avôs vivos, Assistente?
- Meu avô faleceu há uns dois anos. Os outros ainda estão conosco.
- É uma dádiva, Assistente. Avós e avôs são um barato. São como nossos pais, com a diferença que nos deixam fazer tudo o que queremos. Eu já perdi os meus faz um tempo. Mas sempre me lembro deles. Hoje mesmo você vai ver, quando o sol começar a mergulhar na lagoa. Isso tudo vira um marzão de mel. A água fica amarela como ouro. E sempre penso na minha avó. Quando eu ficava doente ela me fazia um chá maravilhoso. Receita dela. Entre outras coisas, colocava canela e mel, o que emprestava a cor de ouro ao chá.
- Por isso o nome do barco? d’Oro Tea?
- Bem observado, Assistente. Mas é, na verdade, um jogo de palavras. Adivinhe como se chamava minha avó?
- Dorotea?
- Muito bom! Muito bom! Então homenageei minha avó e seu chá no mesmo barco. E quando o sol se põe e transforma esta lagoa em chá de mel eu fico com a certeza de que Deus está nas coincidências. Veja, estamos chegando. Aquele é nosso ponto de pesca. Estamos um pouco longe da margem, mas não se preocupe que em qualquer lugar do barco onde você se encontrar é só esticar o braço que você alcança um colete salva-vidas. Aqui está bom, Capitão.
O barco descreveu uma curva em meia-lua e o motor foi desligado. O homem que conduzia a embarcação saiu da nave, foi até a proa e largou algo que me pareceu um anzol de quatro fisgas gigantes pra dentro da água. Como se estivesse lendo meus pensamentos o Chefe observou:
- Aqui neste local o fundo é bastante rochoso, por isso uma garatéia é mais eficiente. Venha, Assistente. Vamos iniciar os trabalhos.

Começaríamos com as minhocas. Fiquei observando como o Chefe fazia e procurei imitá-lo. Meu pai me levou para pescar lambaris algumas vezes, e lembro que a gente colocava a minhoca na palma da mão e batia nela com a outra. Saia uma gosma do bicho, aí podíamos espetá-la no anzol. Quando fiz isso o Chefe riu e disse que assim iria matá-la, e os peixes gostavam dela vivas, se debatendo na água. Usaríamos varas com carretilhas. O Chefe me deu um rápido curso sobre como usá-las e como arremessar a linha de modo a não sofrer com as cabeleiras, nós imenso que danificam a linha. Mostrou-me como regular a carretilha. Fiquei observando seu arremesso perfeito e tentei fazer igual. Até que me saí bem, para um marinheiro de primeira viagem. Fiz o arremesso pra trás usando a força do braço. Quando atirei a vara para baixo a força diminui, é quando libero a carretilha e deixo alinha correr em direção ao alvo que imaginei. Quando a isca atingiu a água eu travei a carretilha. Tudo certinho. Fiquei orgulhoso de mim mesmo. Agora era só esperar a minhoca semi-viva fazer seu trabalho.
Mas nada de peixe. Acho que as minhocas estavam mais vivas do que deveriam, porque quando recolhi a linha o anzol estava desabitado. Em uma hora apenas um peixe foi trazido a bordo pela linha do Chefe, que o devolveu ao seu habitat porque ele considerou um espécime filhote. Trocamos as iscas pelas massinhas. Depois do novo arremesso deixamos as varas nas esperas e nos sentamos para conversar. O Chefe foi até a cozinha e voltou com duas latas de cerveja. Passou uma pra mim já aberta e sentou ao meu lado. Conversamos sobre amenidades enquanto observávamos as varas nos suportes, as linhas imóveis. Perto do meio-dia o Chefe levantou e foi fazer o almoço, outro passatempo dele. Antes de pôr em prática seus dotes culinários ele me trouxe outra cerveja. Embora eu fosse um grande apreciador da loirinha etílica, prometi a mim mesmo que seria a última que beberia no barco, pois não queria soltar a língua e falar bobagens ao meu empregador. Aproveitei a pausa e fui dar uma volta para conhecer melhor o d’Oro Tea. Fiquei imaginando se ele teria trazido o Capitão quando passeou com a Secretária. Eu, no lugar dele, teria feito um passeio a dois. Talvez nem pescaria. Trazer uma mulher daquelas nesse barco pra ficar dando tapa em minhoca viva não me parece muito sensato. Voltei com esses pensamentos para onde estávamos sentados e fiquei curtindo a paisagem e terminando minha cerveja. 
Continua amanhã

Pescaria com o Chefe - parte 3

- E aí, Assistente, nada ainda nas linhas?
Balancei a cabeça enquanto aceitava um prato cheio de macarronada fumegante com muito molho de tomate. Parecia delicioso.
- Nada ainda, Chefe. Parece que seus tambaquis estão nadando em outra praia hoje.
- Hum! Vamos almoçar por aqui e logo iremos pra outro ponto. Acho que me enganei. E olha que é raro de acontecer. Sempre sei onde esses danados gostam de ficar.
Pensei em perguntar sobre como foi o passeio com o Editor ou o Desenhista pra poder chegar no passeio com a Secretária, mas achei melhor apenas concordar com a cabeça e comer o almoço. Antes mesmo de encostar a língua na comida já percebi o que estava vindo. Lembrei do comentário da Secretária. Pimenta! Nem a raiz brava que comi no Chinês se igualava aquilo. Wasabi era açúcar perto daquela massa. Senti os olhos cheio d’água e agüentei firme a primeira garfada.
- Então, Assistente, o que achou da macarronada? Não quis colocar muita pimenta porque você poderia ter a mucosa sensível.
Que papo de mucosa era aquele?
- Está ótimo, Chefe. Uma pimentinha sempre vai bem no almoço.
Senti minhas entranhas como o Edifício Joelma, o Dragão Chinês Celestial. Suportei bravamente mais duas garfadas, e quando ia pedir água o Capitão me salvou.
- Chefe, tem um chamado de rádio pro senhor aqui em baixo.
Quando ele desceu à nave de comando fui até a amurada e despejei quase todo o conteúdo do prato na lagoa. Quando ele voltou eu ainda estava de pé, dando a última garfada. Quase me pega.
- Onde você vai, Assistente? Trouxe água pra você.
Aí falei a primeira bobagem do dia:
- Ah, obrigado. Eu ia me servir mais.
- Gostou mesmo, heim?! Pode deixar que eu sirvo você.
Quando ele foi até a cozinha algo aconteceu. Minha vara de pesca vergou e quase foi arrancada do suporte. O Chefe voltou correndo com os pratos na mão.
- Anda, Assistente. Pegue a vara e destrave a carretilha. Esse é grande.
Fiz o que ele mandou e a linha disparou.
- Agora trave a linha e puxe essa belezinha pra cá.
Não foi fácil. O bixo era forte. Manivelava a carretilha e depois deixava correr um pouco, então manivelava de novo. O peixe cansou e eu comecei a puxá-lo pra cima. Neste momento a outra vara apontou pra baixo com força. O Chefe correu e retirou o equipamento do suporte e começou a trabalhar. Minutos depois tínhamos dois belos tambaquis se debatendo sem parar no viveiro onde havia pouca água.
- Vou na cozinha pegar o estojo de iscas. Vamos aproveitar e iscar os anzóis.
Quando ele sumiu da minha vista não tive dúvida. Fui na amurada e despejei mais da metade do meu almoço na água. Quando ele voltou com o porta-iscas eu estava sentado terminando de comer a pimenta com massa. O Chefe me olhou entre satisfeito e orgulhoso e comentou:
- De todos lá na produtora você foi quem mais gostou da minha comida. Nenhum deles quis repetir, e depois passaram a tarde bebendo água. São uns molengas mesmo.
Aproveitei a deixa para perguntar.
- Chefe, todos lá na produtora fizeram esse passeio?
- Sim, todos. É uma espécie de tradição. Você não percebe, Assistente, mas eu o estou avaliando desde a hora em que você abriu a porta da sua casa hoje cedo. Mas já vou tranquilizá-lo. Estou gostando, até agora – necessários que se diga, do que estou vendo. Acho que você tem futuro, meu rapaz.
Larguei o prato vazio sobre a cadeira e começamos a preparar as iscas.

Pescaria com o Chefe - final

Mas Chefe, imagino que a Secretária e a Menina da arte não se deram muito bem nesse negócio de pesca.
- Por que você acha isso? Só porque são mulheres? Pois saiba que as mulheres estão começando a dominar essa atividade. Em alguns estados as pescadoras já são dez por cento do total de profissionais que vivem da pesca.
- Então elas pescaram?
- Bem. Na verdade não. Casualmente quando as contratei a pesca estava suspensa, pois era época da reprodução. Então tive que improvisar. E como as duas foram contratadas na mesma época, fizeram o passeio juntas.
- Vocês quatro?
- O Capitão estava doente naquele dia, então fomos só nós três mesmo.
Sabia! Ficar dando tapa em minhoca com aquelas duas a bordo não me parece coisa de pessoa sensata. Lançamos as linhas na água e começamos a limpar a louça. Quando virei as costas para levar os prato até a cozinha minha linha foi puxada. Livrei-me da louça suja e corri para minha carretilha. Logo depois a vara do Chefe também vergou. Trouxemos dois belos tambaquis para cima. Já no meio da tarde o reservatório estava cheio de peixes. Alguns já estavam mortos e tinham sido colocados numa caixa com gelo.
- Sabe, Assistente. Se você me der sorte na produtora como me deu hoje com a pesca, logo dobraremos o tamanho da empresa.
Depois gritou para o Capitão.
- Capitão. Vamos voltar. Por hoje está bom, e parece que vem chuva por aí.
Logo que o motor foi ligado pegamos a caixa com gelo e levamos até a cozinha. O Chefe queria me mostrar como limpar um peixe. Em cima de uma mesa ele colocou um dos pescados sobre uma tábua e raspou as escamas como um escamador. Depois de lavar bem o peixe cortou a cabeça, o rabo e as nadadeiras com grande agilidade. Com igual destreza abriu a barriga do bicho. Tirou as vísceras de dentro do tambaqui e então eu vi, com um frio na barriga.
- Interessante.
Foi seu único comentário. Logo pegou outro peixe e repetiu o processo, como se estivesse em transe. Quase não me notava ao lado dele.
- Muito interessante – falou de novo.
Logo vários peixes já estavam abertos e limpos. E em quase todos foi encontrado macarrão dentro deles. Macarrão com pimenta. Lá se vai meu emprego.
Fizemos quase todo o caminho de volta em silêncio. O Chefe nem me olhava. Apenas balbuciava: - interessante, e balançava a cabeçorra, pensativo. Quando atracamos ele levantou da cadeira e me chamou.
- Então, Assistente, foi um belo passeio, não achou?
- Sim, Chefe. Muito bom mesmo. Muito obrigado por ter me convidado.
- Nem agradeça. É a tradição, você sabe. Venha! Vamos embora que quero chegar em casa antes da chuva.
- Mas e os peixes?
- Não se preocupe. O Capitão vai lhe dar alguns tambaquis pra você levar pro seu pai. O resto ele vende aqui mesmo na vila.
Ao me deixar casa, um aperto de mão com as garras esmagadoras.
- Até amanhã na produtora, Assistente.
E se foi. Pelo menos teria ainda mais um mês de trabalho antes de ser despedido por ter traído a culinária do Chefe. Pelo menos foi o que eu pensei.
Mas pensei errado. Hoje, dois anos depois daquele passeio de barco, tenho minha própria sala na produtora com uma plaquinha de metal na porta onde está escrito “Diretor”. Não a conquistei ajudando meu patrão a pescar muitos peixes, é bom que se diga.  Tampouco foi por ter dado a ele uma idéia, mesmo sem querer, de uma nova receita de massa para isca. Foi por competência profissional mesmo, pelo meu bom trabalho de assistente aqui na produtora. A produtora cresceu e novos profissionais foram contratados. A tradição do passeio de barco com os novos funcionários ainda é mantida embora o almoço servido a bordo seja outro. A Secretária está ainda mais gostosa e eu, agora Diretor, começo a visualizar alguma oportunidade de qualquer coisa com ela, já que a Namorada me deixou.
Minha relação com o chefe continua a mesma, profissional e cordial. Quase uma amizade. Jamais conversamos sobre aquele dia. Foi como se eu tivesse comido todo o macarrão com pimenta sem jogar um nadinha na água. Mas quando ele fala comigo consigo enxergar um brilho estranho em seus olhos que, desconfio, seja de agradecimento. Na semana seguinte ao nosso passeio pela lagoa ele se ausentou por vários dias. Andava sempre correndo e pensativo. Poucas semanas depois anunciou seu novo projeto: uma indústria de iscas para pesca e rações para peixes ornamentais, com sabores baseados em suas aptidões culinárias, especialmente em seu famoso macarrão com pimenta. 

Crônioca do Dia a Dia II - Como ser assaltado em segurança.

Cada vez que a TV mostra notícias sobre assaltos em ônibus, restaurantes, condomínios, ou outros do tipo “arrastão”, um policial aparece dando as dicas de como evitar ou se comportar durante uma abordagem criminosa. Fico pensando que é só o que falta nas livrarias: o Manual do Assaltado. Isso se já não o escreveram. Poderia se chamar “Como Ser Assaltado em Segurança”. Sucesso de vendas. Um Best Seller, devido a demanda. Seria dividido por capítulos, de acordo com a modalidade do assalto. No ônibus, na rua, em casa, no sinal vermelho (talvez sejam necessários dois volumes). Já fui assaltado. Acho que me comportei bem. Não encarei o ladrão – como recomendado - e comuniquei calma e antecipadamente todos os gestos que eu iria fazer, tais como tirar o cinto de segurança, colocar em ponto-morto, desligar o carro, abrir a porta; e ele gritando no meu ouvido com a arma apontada também para ele (meu ouvido). Saí-me bem, fui assaltado em segurança, é o que importa.

       Para quem quiser escrever e lançar o manual, deixo aqui algumas ideias de:
       Como Ser Assaltado em Segurança
       
         No ônibus:
       - Deixe sempre o celular e a carteira em casa;
       - Leve apenas o dinheiro das passagens, escondido dentro do sapato;
       - Procure sempre sentar ao lado de um policial. Se não houver um no ônibus (quase nunca há), sente-se no meio do coletivo, feches os olhos e reze bastante durante o trajeto;
      - Se ocorrer o assalto, colabore com o ladrão porque se ele for pego não terá pra onde ir, pois os presídios estão lotados.
       
        No restaurante (arrastão):
       - Peça o prato comercial que custa mais barato pra não precisar levar muita grana;
       - Se precisar usar o telefone, use o do restaurante. Deixe o celular em casa;
       - Dê preferência ao cartão de crédito. Guarde-o no sapato;
     - Nunca ofereça comida ao ladrão, no máximo uma cervejinha, que bandido não é de ferro. Mas cuidado com a marca, pois não queremos ofender o meliante com cerveja ruim.
     - Se ocorrer o assalto, colabore com o ladrão porque se ele for pego não terá pra onde ir, pois os presídios estão lotados.

        No condomínio:
       - Ao comprar um apartamento, opte pelos que tem banheiro grande, pois é onde sua família ficará presa em caso de assalto;
        - Tenha sempre comida e água no banheiro, para o caso de ter que passar a noite trancado;
        - Não guarde grandes somas de dinheiro em casa. Deixe no banco, pois assalto por assalto...
      - Se ocorrer o assalto, colabore com o ladrão porque se ele for pego não terá pra onde ir, pois os presídios estão lotados.

      No sinal vermelho:
     - Você não é louco de parar no sinal vermelho a noite. Dá uma olhadinha pra ver se não vem carro e acelera.
     - Se tiver que parar no sinal, jamais use o celular. Pensando bem, jogue esse aparelho fora e compre alguns cartões de orelhão para poder ligar para o 190, de for preciso.  E nunca esqueça:
    - Se ocorrer o assalto, colabore com o ladrão porque se ele for pego não terá pra onde ir, pois os presídios estão lotados.









Velho Código Penal

Publicado no Diário Popular de 01 de junho de 2012.
Recentemente a polícia prendeu, em Porto Alegre, Ivanir Rodrigues Moreira, de 31 anos. O homem, que trabalhava para uma empresa prestadora de serviços responsável pela limpeza no Hospital Conceição, foi denunciado e identificado pelas vítimas – duas pacientes da ala pediátrica. A segurança foi avisada, e o suspeito detido. A polícia investiga o caso.
        A ficha criminal de Ivanir Moreira não causa inveja no meio delinquente, mas também não é das mais desprezíveis. Com passagens por roubo, furto e estupro, a lista ainda podia ser maior se os crimes cometidos quando ainda era menor fossem computados no sistema. Agora pergunto: como pode um homem desses ficar solto? Alguém que abusa de duas crianças, dentro de um hospital, merece andar livremente pelas ruas ou, pior, merece ter um emprego? Já estuprou, furtou, roubou, o que estão esperando para deixá-lo trancafiado de vez? Que cometa assassinato, que mate uma criança?
        Nosso Código Penal ri do homem de bem. Nossas leis penais são tão arcaicas quanto o Presídio Central, comparável às masmorras da idade média, chegando ao absurdo de alguns juízes mandarem soltar os detentos porque o estado não tem condições de oferecer uma prisão adequada (digna?). Mas um país que ergue praças de pedágio, estádios e Shopping Centers  na velocidade da luz não tem condições de construir um presídio? Certamente mão de obra não deverá faltar, a menos que o CP brasileiro proíba os detentos de trabalhar.
       Esse caso do Hospital Conceição não foi o primeiro e, infelizmente, é bem possível que não seja o último, pois não há limite para a maldade e para a ousadia dos criminosos. Cabe aos homens de bem fazer o que é certo e, aos que têm o poder, de promover as mudanças que podem tornar a vida em sociedade mais segura. Maioridade penal e redução de pena, para citar dois exemplos, deveriam ser revisadas e modificadas. É comum lermos nos jornais sobre autores de crimes que estavam ou foragidos, ou no regime semiaberto, em condicional ou pior, gozando indulto concedido por força de uma lei dúbia.
        Mas, enquanto isso, enquanto essas mudanças não chegam, vamos tocando nossas vidas, com cautela ao parar no sinal vermelho durante a noite, com cuidado ao chegar de carro em casa, com atenção ao ir para  a escola e, quem sabe, com um vigilante no quarto do hospital. 


Anjos da Guarda

Publicado no Diário Popular  do dia 17 de junho de 2012
Dizem que devo a vida ao médico que estava de plantão na emergência do hospital em que dei entrada logo após o acidente. Sou realmente muito agradecido a este profissional – que tanto pode ser um homem quanto uma mulher, pois infelizmente não o conheci consciente – que soube tomar as decisões certas no momento de prestar os primeiros e decisivos socorros. Devo também agradecer ao taxista que, naquela madrugada deserta de novembro de 1993, passava pelo local e testemunhou a colisão, contatando prontamente, pelo rádio, a brigada militar, a quem agradeço por ter imediatamente chamado a unidade de paramédicos, que também agradeço imensamente. Do momento do acidente até minha internação na emergência não devem ter se passado mais de doze minutos. A rapidez do socorro também me salvou.
       Minha passagem pelo Hospital Cristo Redentor, em Porto Alegre, no entanto, não foi tão breve assim. Foram os primeiros três meses de internação, de mais de 420 dias. Três meses inteirinhos dentro de um quarto, sem sentir o calor do sol na pele, é mais claustrofóbico do que participar do BBB, porém com um ponto em comum com o programa: não conhecemos ninguém quando chegamos, mas com o passar dos dias firmamos relações fortes e indeléveis dentro da “casa”. Foi assim com o pessoal da enfermagem do CR e foi assim, também, com os enfermeiros dos hospitais de Pelotas, onde fiz a maior parte do tratamento e das cirurgias.
       Diferentemente de Porto Alegre, aqui em Pelotas o médico me visitava diariamente, e é graças a ele, ao Dr. João Ivan Lopes, que hoje caminho com minhas duas pernas. E sem dúvida, tão importante quanto o trabalho do cirurgião é o atendimento dos técnicos e auxiliares de enfermagem. Se um hospital tem alma, eu diria que eles, os enfermeiros, a compõem. Alguns até chegaram a me visitar em casa após minha alta; e quando cruzava com algum deles pela rua, era reconhecido,  chamado pelo nome e cumprimentado como um amigo. Mas, sobretudo, é a dedicação deles no trabalho que os faz ser o que são: anjos da guarda. Fazem os curativos, aplicam medicamentos, dão banho no paciente - se este precisar; alimentam-no – se necessário.       
        Quando eu ia para casa, quase todos que estavam trabalhando naquele horário vinham ao meu quarto para dar um adeus. Meu desejo, naquele momento, era poder me despedir e agradecer a todos os que cuidaram de mim durante a internação, mas muitos estavam de folga ou então cuidando de outros pacientes em outros hospitais da cidade. Depois de muito tempo fora dos hospitais ainda consigo me lembrar de muitos deles, dos seus nomes, das conversas descontraídas, do carinho ao paciente e à profissão.
     Agradeço, mormente, a Deus, por cruzar o meu caminho com os do taxista, do PM, do paramédico, do médico plantonista, dos cirurgiões e dos técnicos e auxiliares de enfermagem, que neste último dia 20 foram merecidamente homenageados em todo o país. Parabéns a eles!

Os Gansos do Lauri

Jou Silveira
Arriado depois de terminar um namoro, o Lauri resolveu ir atrás das raízes, partindo para visitar uns tios no interior, esperando, como disse, esfriar a cabeça por uns tempos e aproveitar para caçar uns capinchos, andar à cavalo (seu tio tinha uma chácara próxima de Pedro Osório), e quem sabe, desfazer esse nó que se formara na cabeça, já que o namoro durara o suficiente para que fossem feitos alguns planos (tinha comprado até uma camiseta oficial do Grêmio em Porto Alegre, para garantir, caso tivesse filho cedo).
       Chegou à noitinha na chácara e foi recebido calorosamente entre beijos e xingamentos, pois fazia bastante tempo que não os visitava, sendo prontamente encaminhado para um arroz de carreteiro que fora preparado à pouco.
      Depois das formalidades, foi instalado no quarto dos fundos, e , já deitado, imaginou que não iria tão cedo embora, pois a hospitalidade era cativante.
Na manhã do dia seguinte, mateando com o tio, homem rude mas extremamente prático, este pede para ajudá-lo a investigar um mistério que a semanas não conseguia resolver: Os gansos estavam sendo atacados e mortos, um a um, por um animal aparentemente grande, pois sobrava pouco para contar a história quando encontrados.
      Desconfiado que pudessem ser os cães (haviam três), o Lauri sugeriu que prendessem os animais, e eis que, nos próximos dias não apareceu nenhum bicho morto. Era preciso identificar qual era o serial killer, mas o tio soltou os três e logo apareceu, no campo em frente da casa, mais uma vítima.
       Depois de verificarem que os sinais eram os mesmos das outras vezes, sentaram no alpendre para definirem a estratégia do combate quando, para espanto do Lauri, do outro lado do alpendre, dormindo preguiçosamente, estava ou cachorro de algum índio, ou o indefectível caçador, já que pendia do lado esquerdo da boca uma esvoaçante pena de ganso. Ainda em choque, pois não era dado à essas aventuras, ele vê o tio entrar na casa e sair com a winchester, apontar e acertar a cabeça do cachorro com um tiro, e logo após gritar para um guri, um agregado de uns onze anos: Pega e atira no rio.
      O Lauri conta que nunca um nó se desfez tão rápido, pois conseguiu reatar o namoro, casar, e hoje tem um piá treinando nos juniores do Grêmio.



Crônica do Dia a Dia

Publicado no Diário Popular em 19 de maio de 2012

Pedro e João eram irmãos. Pedro, 32 anos, era casado e tinha dois filhos, um com um aninho e outro dois anos mais velho. João irá fazer 29 anos na próxima semana, seu primeiro aniversário na cadeira de rodas. Pedro e João eram sócios, tinham uma loja de autopeças. O negócio era novo, porém promissor. Depois de três anos de funcionamento já começava a lucrar – o dinheiro investido já havia sido recuperado.
       Em um final de tarde, terminado mais um dia de trabalho, os irmãos se preparavam para fechar a loja. Pedro queria ir para casa para brincar um pouco com os filhos. João ainda iria para faculdade. Na saída da loja foram surpreendidos por dois homens, armados. A dupla de assaltantes queria o dinheiro do caixa, pouco mais de duzentos reais na gaveta. Um telefone tocou assustando um dos bandidos que, nervoso, disparou. O outro fez o mesmo. Pedro morreu com um tiro na cabeça e João, atingido em uma das vértebras, sobreviveu. Os ladrões fugiram com os duzentos reais em uma moto roubada.
       A esposa de Pedro, agora viúva e com duas crianças para criar, tentou tocar a loja sozinha, mas não conseguiu e acabou vendendo a sua parte do negócio (a que Pedro lhe deixou), e para poder sustentar os filhos teria que trabalhar e pagar uma babá em tempo integral. João também vendeu sua parte da loja para poder pagar o caro e longo tratamento de saúde, cirurgias e remédios para tratar das sequelas, além da reforma da casa para poder movimentar-se com a cadeira de rodas. Teria que viver por um longo período com o benefício do governo, pouco mais de salário mínimo. Sabia que depois de um tempo, quando finalmente estivesse bom o suficiente para andar sozinho pelas ruas, enfrentaria as dificuldades que todo cadeirante deste país enfrenta: falta de emprego, locomoção pelas ruas da cidade, falta de transporte e a indiferença. O que antes era a realização de um sonho para Pedro, sua família e seu irmão, virou dor, tristeza e dificuldades, tudo pelo preço de duzentos reais.
                                                                
                                                                           *****

         Pulga e Piolho moravam no subúrbio, num bairro pobre de ruas estreitas. Parceiros de crime. Pulga tinha três filhos e Piolho, quatro. Certo dia foram assaltar uma loja. Fumaram craque e beberam um pouco, como faziam sempre antes de cada roubo. Durante o “trabalho”, um telefone tocou assustando Piolho, que atirou. Pulga também usou sua arma. Pegaram o dinheiro do caixa e fugiram. Dias depois foram pegos pela polícia e levados ao presídio, onde cumprem pena. As famílias dos criminosos passaram a receber auxílio do governo (auxílio-reclusão), além de já receberem o Bolsa Família. Logo os dois serão soltos e continuarão com sua vida de delitos, enquanto que João e a família de Pedro ainda estarão lutando para ter uma vida normal.

        Esta é uma história de ficção. Mas a gente sabe que, neste país, as coisas não são muito diferentes.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Amiga Invisível

Este conto foi classificado entre os mais de 3000 inscritos em um concurso de uma editora de Piracicaba - SP.  Acabou não sendo premiado, mas ficou entre os 100 melhores. Mais uma novelinha em quatro partes. Eis a primeira.


Amiga Invisível


Todo mundo achou estranho quando disseram que transformariam aquela imensa área verde em um cemitério. Nele, diziam, seria possível sepultar toda a população da cidade e ainda sobraria espaço. Um exagero, mas as autoridades, sem dar muita atenção às opiniões do povo, enterraram seus primeiros mortos no Novo Cemitério Municipal há mais de trinta anos.
        Hoje a cidade é outra. A chegada de prósperas fábricas têxteis mudou um pouco a geografia e a economia do município. O cemitério ainda existe, e agora se chama Parque das Almas. A grande área foi toda cercada, iluminada e arborizada. O lado leste abriga sepulturas e mausoléus, e o restante do imenso terreno é usado para caminhadas, corridas, ou um agradável descanso sob a sombra de um frondoso salso, onde se pode ler um bom livro sem a barulheira comum dos outros parques urbanos.
       Bruno testemunhou toda a transformação do parque. Mora nos arredores desde os seis anos de idade. Quando chegou, ainda pequeno, no bairro, o cemitério já existia, mas foi ao longo dos anos que foi adquirindo o aspecto que hoje tem: um local seguro, bonito, tranqüilo e repleto de natureza, motivos que o levaram a escolher a cidade dos mortos para suas corridas diárias.
      Depois da corrida Bruno gosta de sentar num dos tantos bancos de madeira instalados para ficar olhando o lugar enquanto descansa. Já está familiarizado com alguns dos freqüentadores do parque, como o Homem do Carrinho, que passa os dias empurrando um velho carrinho-de-mão com alguns jornais velhos, um pouco de terra e algumas mudas para repor nos canteiros quando alguma rosa, margarida, crisântemo ou outra espécie das tantas outras que colorem o local precisa ser substituída. È um sujeito alto, pele morena castigada pelo sol e pela vida, escondida atrás de uma expeça barba grisalha. Veste sempre calças folgadas agarradas à magreza do corpo por uma cinta improvisada por cordas. Nos pés, chinelos de dedos gastos pelo uso. Carrega sempre o mesmo casaco xadrez em tons de marrom, e um boné que, imagina Bruno, não deve tirar nem pra dormir, equilibra-se sobre seus cabelos revoltos e cinzentos.  Move-se devagar, sempre procurando algo pelo chão. Talvez flores para serem removidas e substituídas. Mexe a boca sem parar como se estivesse falando com alguém. Os guardas municipais que fazem a ronda no parque contaram certa vez a Bruno que o velho fala com os espíritos das pessoas que foram enterradas no cemitério.
      Sua mãe conta que ele, quando tinha uns cinco anos, talvez seis, conversava com uma amiguinha invisível. É comum as crianças nessa idade inventarem amigos. Dão-lhe nomes estranhos e ficam horas conversando, trocam segredos, às vezes até brigam. Mas quando faltam os primos e irmãos para brincarem juntos são eles que lhe fazem companhia, até aparecerem os amigos de carne e osso que chegam junto com as primeiras experiências escolares. Então os amiguinhos invisíveis somem sem deixar rastros, desaparecendo também de suas memórias, como fez a amiguinha de Bruno, de quem ele nem se lembra de ter existido.
      - Já terminou por hoje?
     - Heim!? Ah! Oi. Já sim, e você?
     Mergulhado em seus pensamentos, Bruno não percebeu quando ela apoiou o pé no banco para amarrar os cadarços do seus tênis de corrida. Tinha as pernas bonitas e bronzeadas. Um menininho loiro subia por seu tornozelo, carregado por pássaros, quase alcançando seu joelho.
      - Oi, Pequeno Príncipe.
    - Ah! Você conhece. Raro, hoje em dia. As pessoas não lêem mais Saint- Exupéry. Aliás, as pessoas não lêem mais nada.
    - Eu tenho o livro.
   -Sério?! Eu também tenho um que ganhamos quando ainda éramos crianças. Bom, deixa eu ir. Até depois. - E se foi, levando consigo o Pequeno Príncipe, seus pássaros, e um sorriso encantador.
    Corriam quase sempre no mesmo horário, ao final da tarde. Às vezes no mesmo sentido, e Bruno andava mais lento só para deixá-la passar por ele. Quando faziam o sentido inverso, sempre se cumprimentavam com um oi, um sorriso, ou um simples aceno de cabeça. Bruno já estava acostumado com sua presença, embora nem soubesse seu nome – o maior diálogo que já tiveram foi esse, quando ela parou para amarrar os cadarços. 
Domingo, a segunda parte.

Amiga Invisível - parte dois

Corriam quase sempre no mesmo horário, ao final da tarde. Às vezes no mesmo sentido, e Bruno andava mais lento só para deixá-la passar por ele. Quando faziam o sentido inverso, sempre se cumprimentavam com um oi, um sorriso, ou um simples aceno de cabeça. Bruno já estava acostumado com sua presença, embora nem soubesse seu nome – o maior diálogo que já tiveram foi esse, quando ela parou para amarrar os cadarços. 

Ficou observando a moça se afastar em passadas rápidas e firmes. Achava-a bonita, com seu cabelo castanho escuro, nesta época sempre preso por causa do calor que faz, sua pele bronzeada e seu sorriso emoldurando perfeitos dentes brancos, deixando atrás de si o perfume do protetor solar que ela jamais dispensava, embora o sol já não estivesse tão forte no final de tarde.
          Seus pensamentos foram interrompidos pelo ranger da roda do carrinho do velho que vinha se aproximando e que, sem olhar para Bruno, disse:
         - É uma boa moça.
         - Desculpe-me?!
         - A Luiza, é uma boa moça.
        - É sim - disse Bruno observando a garota que ia desaparecendo entre o pequeno túnel verde formando por longos bambus que se entrelaçavam no topo. Não lhe ocorreu, naquela hora, como o velho poderia saber o nome da garota.

                                                                     **********

         Quando mudaram para a casa nova Bruno tinha seis anos. Ficou maravilhando quando desceu do velho caminhão que carregava alguns poucos móveis, sua velha bicicleta, um vira-lata chamado Feio, dois colchões de molas e muita esperança. O garoto quis ser o primeiro a descer do caminhão, mas foi obrigado e esperar que sua mão desembarcasse da cabine para depois ajudá-lo a chegar ao chão poeirento. Seu pai já estava desamarrando as cordas que seguravam a mobília, enquanto Feio fazia o reconhecimento e a demarcação do território que agora - pensava ele - lhe pertencia. Era uma pequena casa de alvenaria, um sonho para o garoto que nasceu numa casinha de madeira de quarto e sala, cheia de frestas e remendos por onde entrava um gelado frio no inverno. 
            O quintal era enorme. O terreno onde a casinha fora construída tinha quase cinco vezes o seu tamanho. Era todo cercado por um muro que balançava com ventos mais fortes, faltando alguns tijolos e remendado com tábuas em alguns lugares. O pátio recém tinha sido capinado e o pasto cortado formava um monte alto perto do corredor entre a casa e o muro, esperando pra ser retirado ou queimado. O resto daquele dia foi dedicado a arrumação da casa, colocar móveis no lugar, arrumar a louça, guardar as roupas.
           Estavam no novo endereço há um mês quando ela apareceu. Por causa do calor forte do verão que se iniciava Bruno passava a maior parte do dia brincando no pátio da casa, perto da porta da cozinha onde tinha uma pequena varanda. Gostava de ficar se sujando com terra, espetando insetos e inventando todo tipo de brincadeira que conseguia imaginar. Ainda restava um bom tempo até seu pai voltar da fábrica para então o jantar ser servido. Tinha feito uma estradinha na areia preta com garagens, algumas casas feitas com latas velhas e até um posto de gasolina. Estava concentrado em um acidente entre um caminhão de bombeiros e uma velha Kombi num cruzamento quando Feio começou a latir. Bruno o viu sentado sob a laranjeira sem frutos. Olhava fixamente para uma das tábuas que remendavam o muro caiado e latia, virando a cabeça para encarar o menino e depois voltando a ladrar para o muro. No terreno do outro lado do tinha uma construção há muito abandonada, e talvez algum gato andasse por ali atrás de uma refeição.
         - Cala boca, Feioso, vai deitar.
         Mas o cão não parava de latir. Bruno levantou ainda segurando uma réplica de um Magirus-Deutz  com a escada quebrada e andou até onde estava o cachorro, que pulou na perna de seu dono e depois correu até o pedaço de madeira e ficou farejando sabe-se lá o que nas frestas do tapume. Com Feio ao seu lado, Bruno aproximou o rosto da tábua pra espiar por entre as fendas quando, de repente, a madeira se moveu assustando-o e, do outro lado, meio rosto de uma menininha lhe sorria.
          A garota afastou a madeira e entrou no pátio com o garoto lhe olhando desconfiado e, ao mesmo tempo, curioso com aquela estranha figura. Devia ter a sua idade, e era um pouco mais baixa do que ele. Seus cabelos castanhos desciam até o meio das costas, presos num cuidadoso rabo-de-cavalo. Seus olhos lembravam dois potinhos de mel, e tinham um estranho brilho amarelo, como se várias estrelas ficassem piscando ao redor das pupilas negras. Usava um vestido azul até os joelhos, meias brancas – uma delas manchada de vermelho na altura do tornozelo -  e uns sapatinhos pretos.
         - Oi. Eu sou Eliza.
         - Meu nome é Bruno. E esse é...
        - Eu sei. Esse é o Feio – disse a garotinha fazendo festa na cabeça do cachorro que cheirava seu vestido.
        - Você mora aí nessa casa sem janelas?
        - Ah, não. Estou aqui perto com minha mãe. Ela não deixa eu ir muito longe, mas aproveitei que ela saiu e vim até aqui. Daqui a pouco ela volta e eu terei que ir. Ela vai ler pra mim. Você sabe ler?
        - Vou pra escola depois do verão – disse como se isso respondesse a pergunta.
        - Então vai poder ler O Pequeno Príncipe. É meu livro favorito. Minha mãe sempre lê pra mim. Já está quase na parte da raposa, quando ele a cativa e eles se tornam amigos. Essa é a parte que eu mais gosto da história. Você tem amigos?
        - Vou ter quando entrar pra escola.
       - É muito tempo pra ficar sem amigos. Posso ser sua amiga, se você quiser.
       - Mas você é menina, e eu gosto de brincar de carrinho.
       - A gente pode fazer outras coisas. A gente pode só conversar. Eu gostaria de ser sua amiga. É bom ter amigos. A gente senta e fica falando e você pode até ficar brincando com seus carrinhos, eu não me importo.
         A menina olhou por alguns instantes para a abertura por onde tinha entrado e falou:
         - Minha mãe está me chamando, tenho que ir. Posso voltar?
          Bruno apenas encolheu os ombros e baixou os olhos. Ficou mexendo no carrinho vermelho. Ela passou pro outro lado do muro e preparou-se para colocar a tábua no lugar.
          - Se você quiser ser meu amigo eu volto amanhã. Quer que eu volte?
          Novamente encolheu os ombros, mas desta vez olhou pra garota que lhe sorriu, recolocou a tábua no lugar e desapareceu.
Terça feira, a terceira parte.