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terça-feira, 26 de junho de 2012

Amiga Invisível - Final

- Como você sabe de tudo isso?
- Ah, eu era... – e levantou do banco de repente. - Olha, minha mãe quer que eu vá. Ela não gosta que eu saia. Eu até queria ir, mas ela me prende aqui.
- Por que ela prende você? Pra onde você quer ir?
- Eu queria ir embora. - E se foi, correndo pela abertura do muro.

no outro dia:
    - Sabe como o Pequeno Príncipe voltou pro planeta dele? Uma cobra o mordeu.
    - Igual como aconteceu com a menininha que morava aqui?
    - É, igual. Queria só te contar essa parte do livro antes de ir embora.
    - Por quê? Pra onde você vai?
    - Vou encontrar o Pequeno Príncipe, lá nas estrelas. Minha mãe me deixou ir.
    - Você vai voltar?
   - Acho que não. Mas ficarei sorrindo pra você lá do alto, lá das estrelas. Não se esqueça de mim – disse, dando um beijo frio no rosto do garoto. – Adeus!
    Foi a última vez que Bruno a viu. Alguns dias depois ainda tentou retirar a tábua por onde sua amiga entrava, mas não conseguiu. Estava bem presa ao muro. Pensou que talvez seu pai a tivesse pregado.

                                                        ********* 
pensou na garotinha ainda por algum tempo, mas depois a esqueceu completamente, era como se ela nunca tivesse existido. Agora, vinte anos depois, sentado no banco do Parque das Almas, só conseguia pensar na mulher com o Pequeno Príncipe tatuado. Lembrou quando, alguns anos atrás, entrou numa livraria e comprou o clássico de Antoine Saint-Exupéry que vira na vitrine, sem saber porquê. Leu várias vezes.
      O Homem do Carrinho estava tentando deixar de pé um Lírio-do-Amazonas quando disse:
      - Ela falou que você cresceu, mas que continua uma bela criança.
     Bruno achou que o homem conversava com a flor, mas percebeu que estava enganado quando o velho ficou de pé e lhe disse, agora olhando para ele:
     - Ela gosta muito de você.
     - Quem? Aquela moça? A que você chama de Luiza?
   - Não Luiza. Ela. - E, com a cabeça, acenou para a pilha de jornais velhos que estava no carrinho.
    Uma pazinha estreita de jardineiro estava sobre os jornais para evitar que se espalhassem com o vento. Quando o velho apanhou a ferramenta para continuar o serviço com o lírio, Bruno pode ler a manchete: “Sepultamento de Menina Picada por Cobra Será Hoje no Novo Cemitério Municipal” Apanhou o jornal amarelado para ler a pequena nota: “Eliza Couto, que ficou em coma durante três meses devido a uma picada de cobra da espécie Crotalus Durissus, teve morte cerebral confirmada na noite passada. Sua mãe autorizou, nesta madrugada, a retirada dos aparelhos que a mantinham respirando. Emocionada e muito abatida, disse que sua filha já sofreu muito, e que era hora de deixá-la partir em paz. Eliza, que tinha seis anos, será sepultada amanhã no Novo Cemitério Municipal”.  Ao lado do texto, uma pequena foto de um rosto há muito esquecido.
já fazia algum tempo que Bruno não andava por entre os jazigos do cemitério. Sua única família são seu pai e sua mãe, que ainda estão vivos e em boa saúde. Já viu alguns poucos enterros, mas nunca perdeu ninguém íntimo o bastante que o levasse a visitar seu túmulo. Fez o sinal da cruz ao entrar na área dos jazigos e caminhou devagar pela ala principal, olhando à esquerda e à direita para observar os corredores secundários. Não demorou muito até encontrá-la. Bruno aproximou-se em silêncio e parou ao seu lado, em frente a uma pequena e bem cuidada lápide onde havia uma fotografia da mesma menininha que estava no jornal. Tinha um nome, Eliza Couto, e as datas de nascimento e morte. Logo abaixo estava escrito em letras douradas sobre a pedra cinza: Descanse em Paz, Pequena Princesa. Sem olhar para a moça ao seu lado, ele falou:
     O essencial é invisível aos olhos. Só se vê bem com o coração.
     - E o que você vê? - perguntou Luiza, sem olhar para ele.
     - A minha infância. E vejo também a sua.
     - O que você acha que acontece com a alma de uma criança quando ela morre?
     - Eu não sei. Talvez ela se transforme numa estrela, e toda noite ela fica sorrindo pra nós, lá de cima, como o garotinho da sua tatuagem.
Então se olharam. Os olhos de Luiza tinham um brilho especial, como se milhares de estrelas amarelas ficassem piscando para ele.
     - Ela seria igual a você?
    - Gosto de pensar que sim, mas minha mãe falou que não éramos gêmeas idênticas. Mas como você...
    - Seu sorriso lembra muito o dela.
     Silêncio
   - Ouça, talvez você me ache um maluco, ou talvez eu seja mesmo maluco. Tem um café aqui perto, às vezes bebo um suco ali, antes de ir pra casa. Se você quiser a gente pode conversar um pouco.
   - Eu gostaria muito, falou Luiza – só preciso me despedir da minha irmã.
   - Tudo bem. Vou esperar você ali.
    Luiza o segurou pela mão quando ele ia se afastar.
    - Não. Fique, por favor. É só um minuto. Acho que ela iria gostar de você.

   quando o jovem casal cruzou o portão em direção à rua alguém os observava. Já estava anoitecendo e o Homem do Carrinho se preparava para ir embora. Colocou a pazinha sobre a pilha de jornais, olhou para o céu limpo e falou consigo mesmo, ou talvez com o pequeno lírio que ainda lutava pela vida: - Hoje minha estrela estará mais sorridente.

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