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terça-feira, 26 de junho de 2012

Amiga Invisível - parte dois

Corriam quase sempre no mesmo horário, ao final da tarde. Às vezes no mesmo sentido, e Bruno andava mais lento só para deixá-la passar por ele. Quando faziam o sentido inverso, sempre se cumprimentavam com um oi, um sorriso, ou um simples aceno de cabeça. Bruno já estava acostumado com sua presença, embora nem soubesse seu nome – o maior diálogo que já tiveram foi esse, quando ela parou para amarrar os cadarços. 

Ficou observando a moça se afastar em passadas rápidas e firmes. Achava-a bonita, com seu cabelo castanho escuro, nesta época sempre preso por causa do calor que faz, sua pele bronzeada e seu sorriso emoldurando perfeitos dentes brancos, deixando atrás de si o perfume do protetor solar que ela jamais dispensava, embora o sol já não estivesse tão forte no final de tarde.
          Seus pensamentos foram interrompidos pelo ranger da roda do carrinho do velho que vinha se aproximando e que, sem olhar para Bruno, disse:
         - É uma boa moça.
         - Desculpe-me?!
         - A Luiza, é uma boa moça.
        - É sim - disse Bruno observando a garota que ia desaparecendo entre o pequeno túnel verde formando por longos bambus que se entrelaçavam no topo. Não lhe ocorreu, naquela hora, como o velho poderia saber o nome da garota.

                                                                     **********

         Quando mudaram para a casa nova Bruno tinha seis anos. Ficou maravilhando quando desceu do velho caminhão que carregava alguns poucos móveis, sua velha bicicleta, um vira-lata chamado Feio, dois colchões de molas e muita esperança. O garoto quis ser o primeiro a descer do caminhão, mas foi obrigado e esperar que sua mão desembarcasse da cabine para depois ajudá-lo a chegar ao chão poeirento. Seu pai já estava desamarrando as cordas que seguravam a mobília, enquanto Feio fazia o reconhecimento e a demarcação do território que agora - pensava ele - lhe pertencia. Era uma pequena casa de alvenaria, um sonho para o garoto que nasceu numa casinha de madeira de quarto e sala, cheia de frestas e remendos por onde entrava um gelado frio no inverno. 
            O quintal era enorme. O terreno onde a casinha fora construída tinha quase cinco vezes o seu tamanho. Era todo cercado por um muro que balançava com ventos mais fortes, faltando alguns tijolos e remendado com tábuas em alguns lugares. O pátio recém tinha sido capinado e o pasto cortado formava um monte alto perto do corredor entre a casa e o muro, esperando pra ser retirado ou queimado. O resto daquele dia foi dedicado a arrumação da casa, colocar móveis no lugar, arrumar a louça, guardar as roupas.
           Estavam no novo endereço há um mês quando ela apareceu. Por causa do calor forte do verão que se iniciava Bruno passava a maior parte do dia brincando no pátio da casa, perto da porta da cozinha onde tinha uma pequena varanda. Gostava de ficar se sujando com terra, espetando insetos e inventando todo tipo de brincadeira que conseguia imaginar. Ainda restava um bom tempo até seu pai voltar da fábrica para então o jantar ser servido. Tinha feito uma estradinha na areia preta com garagens, algumas casas feitas com latas velhas e até um posto de gasolina. Estava concentrado em um acidente entre um caminhão de bombeiros e uma velha Kombi num cruzamento quando Feio começou a latir. Bruno o viu sentado sob a laranjeira sem frutos. Olhava fixamente para uma das tábuas que remendavam o muro caiado e latia, virando a cabeça para encarar o menino e depois voltando a ladrar para o muro. No terreno do outro lado do tinha uma construção há muito abandonada, e talvez algum gato andasse por ali atrás de uma refeição.
         - Cala boca, Feioso, vai deitar.
         Mas o cão não parava de latir. Bruno levantou ainda segurando uma réplica de um Magirus-Deutz  com a escada quebrada e andou até onde estava o cachorro, que pulou na perna de seu dono e depois correu até o pedaço de madeira e ficou farejando sabe-se lá o que nas frestas do tapume. Com Feio ao seu lado, Bruno aproximou o rosto da tábua pra espiar por entre as fendas quando, de repente, a madeira se moveu assustando-o e, do outro lado, meio rosto de uma menininha lhe sorria.
          A garota afastou a madeira e entrou no pátio com o garoto lhe olhando desconfiado e, ao mesmo tempo, curioso com aquela estranha figura. Devia ter a sua idade, e era um pouco mais baixa do que ele. Seus cabelos castanhos desciam até o meio das costas, presos num cuidadoso rabo-de-cavalo. Seus olhos lembravam dois potinhos de mel, e tinham um estranho brilho amarelo, como se várias estrelas ficassem piscando ao redor das pupilas negras. Usava um vestido azul até os joelhos, meias brancas – uma delas manchada de vermelho na altura do tornozelo -  e uns sapatinhos pretos.
         - Oi. Eu sou Eliza.
         - Meu nome é Bruno. E esse é...
        - Eu sei. Esse é o Feio – disse a garotinha fazendo festa na cabeça do cachorro que cheirava seu vestido.
        - Você mora aí nessa casa sem janelas?
        - Ah, não. Estou aqui perto com minha mãe. Ela não deixa eu ir muito longe, mas aproveitei que ela saiu e vim até aqui. Daqui a pouco ela volta e eu terei que ir. Ela vai ler pra mim. Você sabe ler?
        - Vou pra escola depois do verão – disse como se isso respondesse a pergunta.
        - Então vai poder ler O Pequeno Príncipe. É meu livro favorito. Minha mãe sempre lê pra mim. Já está quase na parte da raposa, quando ele a cativa e eles se tornam amigos. Essa é a parte que eu mais gosto da história. Você tem amigos?
        - Vou ter quando entrar pra escola.
       - É muito tempo pra ficar sem amigos. Posso ser sua amiga, se você quiser.
       - Mas você é menina, e eu gosto de brincar de carrinho.
       - A gente pode fazer outras coisas. A gente pode só conversar. Eu gostaria de ser sua amiga. É bom ter amigos. A gente senta e fica falando e você pode até ficar brincando com seus carrinhos, eu não me importo.
         A menina olhou por alguns instantes para a abertura por onde tinha entrado e falou:
         - Minha mãe está me chamando, tenho que ir. Posso voltar?
          Bruno apenas encolheu os ombros e baixou os olhos. Ficou mexendo no carrinho vermelho. Ela passou pro outro lado do muro e preparou-se para colocar a tábua no lugar.
          - Se você quiser ser meu amigo eu volto amanhã. Quer que eu volte?
          Novamente encolheu os ombros, mas desta vez olhou pra garota que lhe sorriu, recolocou a tábua no lugar e desapareceu.
Terça feira, a terceira parte.

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