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terça-feira, 26 de junho de 2012

Amiga Invisível - parte três

- Minha mãe está me chamando, tenho que ir. Posso voltar?
Bruno apenas encolheu os ombros e baixou os olhos. Ficou mexendo no carrinho vermelho. Ela passou pro outro lado do muro e preparou-se para colocar a tábua no lugar.
- Se você quiser ser meu amigo eu volto amanhã. Quer que eu volte?
Novamente encolheu os ombros, mas desta vez olhou pra garota que lhe sorriu, recolocou a tábua no lugar e desapareceu,
Estavam sob a laranjeira. Ela com o mesmo vestido azul, a mesma meia manchada de vermelho, o mesmo penteado; ele de short, uma camiseta velha e sandálias com fivelas. Ela estava sentada sobre um balde virado para baixo e ele em uma pequena pilha de tijolos que caíram do muro. Ele quis sentar perto da porta da cozinha, mas ela preferiu ficar sob a árvore, pois poderia ouvir quando sua mãe a chamasse. Fazia três dias desde sua última visita, e mais de duas semanas da primeira. Conversavam bastante. Às vezes Bruno ficava empurrando um carrinho pra lá e pra cá, de joelhos no chão onde o pasto crescia, e outras vezes ficavam apenas sentados, com o cachorro deitado entre eles, conversando. Certa noite Bruno foi ao banheiro, deixando a porta aberta. Ouviu quando sua mão falou para o marido que ele estava na idade dos amiguinhos invisíveis, que enquanto preparava o jantar o viu pela basculante da cozinha falando sozinho. Bem, disse o pai, é da idade. Todas as crianças têm um amiguinho invisível. Do banheiro pensou em protestar, em dizer-lhes que estavam errados, que ela existia. Mas então lembrou uma parte da história do Pequeno Príncipe que Eliza tinha lhe contado dias antes. O príncipe dizia que as pessoas grandes são muito esquisitas, muito bizarras e extraordinárias. Bruno não sabia bem o que significavam essas palavras, especialmente bizarra, mas achou que era por serem assim, as pessoas grandes, que não enxergavam sua amiguinha. Por fim achou melhor fingir não ter ouvido os comentários de seus pais.
     - Você sabe quem morou aqui nessa casa antes de vocês mudarem pra cá? - perguntou Eliza arrancando um pastinho que crescia aos seus pés
    - Não. Meu pai só disse que era uma família que foi embora depressa. Ele comprou a casa depois que arrumou emprego na fábrica aqui perto.
     - Posso te contar uma história sobre essa casa?
     Bruno só encolheu os ombros. Ela prosseguiu.
   - Aqui morava uma família muito feliz. Havia duas menininhas, irmãs gêmeas. Elas também brincavam bastante nesse pátio, até que um dia a grama começou a crescer e logo virou um matagal. A mãe delas vivia pedindo para o pai cortar o pasto, mas ele sempre inventava uma desculpa, dizendo que depois cortava, que estava cansado, que tinha que sair, que precisava comprar ferramentas. Depois, depois, sempre depois. As meninas quase não conseguiam mais brincar porque tinham medo dos insetos e outros bichos que se escondiam na sujeira. Então um dia uma delas resolveu colher uma laranja. E bem aqui onde estamos sentados, uma cobra fez um ninho. A menina pisou perto dele, e a cobra, para proteger seus ovinhos,  mordeu seu pezinho.
     - Nossa, - diz Bruno com os olhos arregalados de espanto, - e o que aconteceu?
     - Na hora a menina sentiu só uma picada, como se tivesse sido queimada. Mas então ela viu a cobra e se assustou. Correu chorando pra dentro de casa chamando por sua mãe, que com a ajuda de uma vizinha a levou para o hospital. Dias depois venderam a casa, porque precisaram do dinheiro pra pagar as despesas com remédios. Eles eram muito pobres, sabe?!
     - Mas ela já está boa?
     - Ela só sente muita falta do pai, que desapareceu depois que a viu no hospital.
     - Pra onde ele foi?
    - Foi embora. Não voltou mais, até hoje. Acho que ficou envergonhado por não ter limpado o quintal, embora ela não o culpe pelo que lhe aconteceu. Agora ela só tem sua mãe e sua irmãzinha gêmea, mas sente muita falta do pai.
    - Como você sabe de tudo isso?
   - Ah, eu era... – e levantou do banco de repente. - Olha, minha mãe quer que eu vá. Ela não gosta que eu saia. Eu até queria ir, mas ela me prende aqui.
   - Por que ela prende você? Pra onde você quer ir?
   - Eu queria ir embora. - E se foi, correndo pela abertura do muro.
Quarta-feira, a parte final.

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