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terça-feira, 26 de junho de 2012

Amiga Invisível

Este conto foi classificado entre os mais de 3000 inscritos em um concurso de uma editora de Piracicaba - SP.  Acabou não sendo premiado, mas ficou entre os 100 melhores. Mais uma novelinha em quatro partes. Eis a primeira.


Amiga Invisível


Todo mundo achou estranho quando disseram que transformariam aquela imensa área verde em um cemitério. Nele, diziam, seria possível sepultar toda a população da cidade e ainda sobraria espaço. Um exagero, mas as autoridades, sem dar muita atenção às opiniões do povo, enterraram seus primeiros mortos no Novo Cemitério Municipal há mais de trinta anos.
        Hoje a cidade é outra. A chegada de prósperas fábricas têxteis mudou um pouco a geografia e a economia do município. O cemitério ainda existe, e agora se chama Parque das Almas. A grande área foi toda cercada, iluminada e arborizada. O lado leste abriga sepulturas e mausoléus, e o restante do imenso terreno é usado para caminhadas, corridas, ou um agradável descanso sob a sombra de um frondoso salso, onde se pode ler um bom livro sem a barulheira comum dos outros parques urbanos.
       Bruno testemunhou toda a transformação do parque. Mora nos arredores desde os seis anos de idade. Quando chegou, ainda pequeno, no bairro, o cemitério já existia, mas foi ao longo dos anos que foi adquirindo o aspecto que hoje tem: um local seguro, bonito, tranqüilo e repleto de natureza, motivos que o levaram a escolher a cidade dos mortos para suas corridas diárias.
      Depois da corrida Bruno gosta de sentar num dos tantos bancos de madeira instalados para ficar olhando o lugar enquanto descansa. Já está familiarizado com alguns dos freqüentadores do parque, como o Homem do Carrinho, que passa os dias empurrando um velho carrinho-de-mão com alguns jornais velhos, um pouco de terra e algumas mudas para repor nos canteiros quando alguma rosa, margarida, crisântemo ou outra espécie das tantas outras que colorem o local precisa ser substituída. È um sujeito alto, pele morena castigada pelo sol e pela vida, escondida atrás de uma expeça barba grisalha. Veste sempre calças folgadas agarradas à magreza do corpo por uma cinta improvisada por cordas. Nos pés, chinelos de dedos gastos pelo uso. Carrega sempre o mesmo casaco xadrez em tons de marrom, e um boné que, imagina Bruno, não deve tirar nem pra dormir, equilibra-se sobre seus cabelos revoltos e cinzentos.  Move-se devagar, sempre procurando algo pelo chão. Talvez flores para serem removidas e substituídas. Mexe a boca sem parar como se estivesse falando com alguém. Os guardas municipais que fazem a ronda no parque contaram certa vez a Bruno que o velho fala com os espíritos das pessoas que foram enterradas no cemitério.
      Sua mãe conta que ele, quando tinha uns cinco anos, talvez seis, conversava com uma amiguinha invisível. É comum as crianças nessa idade inventarem amigos. Dão-lhe nomes estranhos e ficam horas conversando, trocam segredos, às vezes até brigam. Mas quando faltam os primos e irmãos para brincarem juntos são eles que lhe fazem companhia, até aparecerem os amigos de carne e osso que chegam junto com as primeiras experiências escolares. Então os amiguinhos invisíveis somem sem deixar rastros, desaparecendo também de suas memórias, como fez a amiguinha de Bruno, de quem ele nem se lembra de ter existido.
      - Já terminou por hoje?
     - Heim!? Ah! Oi. Já sim, e você?
     Mergulhado em seus pensamentos, Bruno não percebeu quando ela apoiou o pé no banco para amarrar os cadarços do seus tênis de corrida. Tinha as pernas bonitas e bronzeadas. Um menininho loiro subia por seu tornozelo, carregado por pássaros, quase alcançando seu joelho.
      - Oi, Pequeno Príncipe.
    - Ah! Você conhece. Raro, hoje em dia. As pessoas não lêem mais Saint- Exupéry. Aliás, as pessoas não lêem mais nada.
    - Eu tenho o livro.
   -Sério?! Eu também tenho um que ganhamos quando ainda éramos crianças. Bom, deixa eu ir. Até depois. - E se foi, levando consigo o Pequeno Príncipe, seus pássaros, e um sorriso encantador.
    Corriam quase sempre no mesmo horário, ao final da tarde. Às vezes no mesmo sentido, e Bruno andava mais lento só para deixá-la passar por ele. Quando faziam o sentido inverso, sempre se cumprimentavam com um oi, um sorriso, ou um simples aceno de cabeça. Bruno já estava acostumado com sua presença, embora nem soubesse seu nome – o maior diálogo que já tiveram foi esse, quando ela parou para amarrar os cadarços. 
Domingo, a segunda parte.

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