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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Bando: Destino ou Acaso?



Destino: s.m. A fatalidade a que estariam sujeitas todas as pessoas e todas as coisas do mundo; fado; fortuna: ninguém é senhor do seu destino. (Aurélio)

Acaso: s.m. Acontecimento imprevisto: o acaso daquele encontro. (Aurélio)


          Quando ganhei meu notebook, as viagens de ônibus, de média ou longa distâncias, deixaram de ser entediantes e cansativas. Viajar entre Pelotas e Porto Alegre virou até um prazer, três horas e alguns minutos de lazer e descanso. Ônibus silencioso, poltronas confortáveis, temperatura agradável, ingredientes ideais para uma boa leitura, um bom filme e uma providencial soneca. No guichê eu já peço o assento 38, no fundão, para não atrapalhar com o brilho do monitor os passageiros sentados nas poltronas atrás de mim,  assim eu fico pertinho do banheiro e do compartimento das águas minerais. Notebook aberto, fones de ouvido e boa viagem, falta só a pipoca.
         Na última viagem que fiz eu assisti ao filme Agentes do Destino, com Matt Damon e Emily Blunt. O filme fala sobre acasos e destinos. Conta a história de Matt, um jovem político com um futuro brilhante que, por acaso, encontra Emily e se apaixona. O problema é que se o romance for adiante o destino dos dois será distorcido mudando suas vidas para sempre. Como, segundo o filme, tudo já está planejado por Deus (que é chamado de Presidente), isso traria consequências desastrosas para o futuro do casal. É aí que entram em cena os tais Agentes do Destino, homens misteriosos cujo trabalho é fazer com que tudo ocorra conforme o Grande Plano.

          Foi por acaso que eu estava na Yamaha DT 180 com o Luciano na tarde em que o PM Julião nos fez parar com aquele silvo de apito inconfundível. Isso foi na época em que se encontrava brigadiano a pé pelas esquinas. Encostamos, já esperando o que estava por vir, pois aquela motoca era conhecidíssima nas ruas da cidade e na corporação da Brigada Militar . Mas o que veio foi um inusitado convite. Julião queria que Luciano – que toca violão e canta muito bem – tocasse algumas músicas em um evento beneficente que teria a participação de outros músicos locais. Ele próprio, o Julião, iria cantar. Ainda ameaçou, em tom provocativo: - Tu sabes que tens o rabo preso comigo. Antes de sairmos o soldado ainda falou pra mim: - Leva a gaita, guri, pra ti tocar umas vaneiras (como já escrevi aqui no Boboy, eu era gauchinho).
Luciano e Palique na esquina onde fomos 
abordados por Julião
         Topamos a parada. Horas depois estávamos discutindo a ideia quando, por acaso, chegaram meu irmão e um amigo, o Sandro, e se integraram ao grupo. No outro dia, eu estava no trabalho quando Luciano apareceu com um contrabaixo que tinha conseguido emprestado do Fábio Jarrão. O instrumento tinha apenas três cordas, mas tudo bem, ninguém sabia tocar baixo mesmo. Ensaiamos cinco músicas para tocar três, deixando duas na manga. Meu irmão, o Paulo Henrique, aprendeu contrabaixo rapidinho. Na noite marcada, todos para o Cine Esperança. O público era bom, o que nos deixou um pouco nervosos. Sentamo-nos todos juntos na plateia e ficamos aguardando que nos chamassem. As apresentações iam acontecendo uma após outra, e nada de o apresentador nos chamar. Não sabíamos quando seria nossa hora, pois se havia um cronograma, não nos passaram.
          Finalmente, chegara o momento. Tocaríamos antes da atração principal, que naquela noite era a experiente banda Voo Livre. Quando subimos no palco o apresentador Bira Vergara, então secretário de Cultura do município, perguntou o nome da banda. De repente nos demos conta de que não tínhamos pensado nisso, e a primeira ideia que surgiu foi “Luciano e banda”. Naquele tumulto e barulho todo o Bira só entendeu bando e anunciou: - Com vocês, o Bando. Em vez das três músicas programadas tocamos as cinco ensaiadas. O público adorou. Contagiado pelo entusiasmo daquele momento, o Bira tomou o microfone e anunciou que dentro de um mês o Bando voltaria ao palco para um show próprio, arrumando um compromisso pra nós sem prévias consultas. Foi então que, por acaso, nasceu o Bando.
Rio Piratini, ou pelo menos era pra
ter água aí

          Marcamos o show para o dia 30 de setembro, tínhamos um mês para preparar tudo. Fomos até a sr.ªLaura, dona do cinema, e conseguimos o prédio emprestado. Preparamos o repertório, conseguimos umas caixinhas de som estilo caixa-de-abelha para os ensaios, cartazes, entrevistas na Rádio Clube AM, e mãos à obra. Gravamos duas demos para tocar nas festas junto com a vinheta do show, e o Bira, nosso incentivador, conseguiu, às vésperas da apresentação, uma entrevista na RBS, no Jornal do Almoço. Fizemos tudo com a ajuda dos amigos, desde a propaganda e limpeza do cinema até o atendimento na bilheteria e no bar. 
Galera da vassoura


Durante a apresentação, as duas primeiras fileiras de cadeiras do cinema sumiram, foram esmagadas pelo pessoal que dançava e cantava sobre elas. Antes da metade do show, casualmente, o Sandro arrebentou duas cordas da guitarra e tivemos que fazer uma pausa para trocá-las. Neste intervalo o Dr. Adão Orlando Alves, então prefeito, tomado pela mesma euforia que já tinha atingido o Bira Vergara no show beneficente, subiu no palco e anunciou, entre aplausos, que a Prefeitura iria doar uma bateria para o Bando, pois éramos uma banda de cordas. Delírio total.
          Foi um sucesso. Com o saldo do show compramos um novo contrabaixo e alguns equipamentos de som. A Prefeitura cumpriu o prometido e nos deu a grana para adquirir uma bateria novinha, que depois seria o instrumento oficial do Sandro Borges. Infelizmente, não era nosso destino ser uma banda de sucesso. O Bando, que começou por acaso, fez mais algumas poucas apresentações e desapareceu. Mas a amizade daquela turma, do pessoal da banda e dos amigos que nos acompanhavam, perdura até hoje. Quanto ao Destino, alguns acreditam que já está escrito e outros que nós mesmos o escrevemos. Seja como for, só o saberemos quando lá chegarmos, com todos os acasos.

Se você se sentir constrangido, ofendido, ferido ao se ver nas imagens, ou  se lhe causarem sofrimento, descontentamento, tormento, ou se tem namorado, ou namorada, ciumento, briguento ou rabugento, lamento. Entre em contato a qualquer momento que jogarei  as fotos ao vento.

Atrás da tela do cinema, antes do show


Borges com 4 cordas






Ganhamos uma bateria




Rádio Clube AM

Viagem para Pelotas - Gravação na RBS TV
Furou o pneu da moto (também, 4 em cima)



Ingresso frente...
... e verso. Saudades!



Próxima postagem: Fui vítima do falso sequestro.


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