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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Crônica do Dia a Dia

Publicado no Diário Popular em 19 de maio de 2012

Pedro e João eram irmãos. Pedro, 32 anos, era casado e tinha dois filhos, um com um aninho e outro dois anos mais velho. João irá fazer 29 anos na próxima semana, seu primeiro aniversário na cadeira de rodas. Pedro e João eram sócios, tinham uma loja de autopeças. O negócio era novo, porém promissor. Depois de três anos de funcionamento já começava a lucrar – o dinheiro investido já havia sido recuperado.
       Em um final de tarde, terminado mais um dia de trabalho, os irmãos se preparavam para fechar a loja. Pedro queria ir para casa para brincar um pouco com os filhos. João ainda iria para faculdade. Na saída da loja foram surpreendidos por dois homens, armados. A dupla de assaltantes queria o dinheiro do caixa, pouco mais de duzentos reais na gaveta. Um telefone tocou assustando um dos bandidos que, nervoso, disparou. O outro fez o mesmo. Pedro morreu com um tiro na cabeça e João, atingido em uma das vértebras, sobreviveu. Os ladrões fugiram com os duzentos reais em uma moto roubada.
       A esposa de Pedro, agora viúva e com duas crianças para criar, tentou tocar a loja sozinha, mas não conseguiu e acabou vendendo a sua parte do negócio (a que Pedro lhe deixou), e para poder sustentar os filhos teria que trabalhar e pagar uma babá em tempo integral. João também vendeu sua parte da loja para poder pagar o caro e longo tratamento de saúde, cirurgias e remédios para tratar das sequelas, além da reforma da casa para poder movimentar-se com a cadeira de rodas. Teria que viver por um longo período com o benefício do governo, pouco mais de salário mínimo. Sabia que depois de um tempo, quando finalmente estivesse bom o suficiente para andar sozinho pelas ruas, enfrentaria as dificuldades que todo cadeirante deste país enfrenta: falta de emprego, locomoção pelas ruas da cidade, falta de transporte e a indiferença. O que antes era a realização de um sonho para Pedro, sua família e seu irmão, virou dor, tristeza e dificuldades, tudo pelo preço de duzentos reais.
                                                                
                                                                           *****

         Pulga e Piolho moravam no subúrbio, num bairro pobre de ruas estreitas. Parceiros de crime. Pulga tinha três filhos e Piolho, quatro. Certo dia foram assaltar uma loja. Fumaram craque e beberam um pouco, como faziam sempre antes de cada roubo. Durante o “trabalho”, um telefone tocou assustando Piolho, que atirou. Pulga também usou sua arma. Pegaram o dinheiro do caixa e fugiram. Dias depois foram pegos pela polícia e levados ao presídio, onde cumprem pena. As famílias dos criminosos passaram a receber auxílio do governo (auxílio-reclusão), além de já receberem o Bolsa Família. Logo os dois serão soltos e continuarão com sua vida de delitos, enquanto que João e a família de Pedro ainda estarão lutando para ter uma vida normal.

        Esta é uma história de ficção. Mas a gente sabe que, neste país, as coisas não são muito diferentes.

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