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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Dor de Dente

Jou  Silveira

            Conheci o Santana nos anos 70, quando ele ainda achava-se parecido com o Jimi Hendrix (na verdade todos nós, ou achávamo-nos parecidos ou tentávamos imitar algum ídolo).
            Naquela época morava no Arroio Grande e, nos finais de semana, viajava para Pedro Osório quando, com a sua inestimável orientação, passei a conhecer música. Usávamos o quarto como palco, a lâmpada como microfone, e uma guitarra sem cordas para apresentações de causar inveja ao melhor guitarrista (a melhor que me lembro foi a do Turcão).
            Numa tarde de domingo aparece o Santana, na lancheria do Sombra, com uma dor de dente de travar pensamento. Sendo uma pessoa muito querida a preocupação foi geral. Entre todas as sugestões (LSD, banho de rio, suicídio, etc.), a que mais interessou foi “procurar um dentista”, mas nos anos 70 os dentistas eram poucos no interior, e domingo, os poucos desapareciam.
            Depois de muito debate, o Santana quase às lágrimas, surge um nome poderoso: Dr. Pedro Souza, dentista e, entre outras qualificações, participante da comissão emancipacionista de 1959, portanto, de incontestável competência.
            Já amolecido pela dor e sem outras alternativas, a não ser aquelas já citadas, partiu para a rua Paschoal  Marchese ao encontro de seu salvador.
            Um pouco mais tarde aparece o paciente, bochecha inchada, meio tonto, mas o que era mais importante, sem dor.
            Pouco tempo depois a dor retorna, lancinante, fazendo com que voltasse às pressas para o consultório do velho xamã. Ainda retornou mais uma vez antes de desaparecer completamente.
            Dias depois fiquei sabendo que, por não praticar a muito tempo, mas sabendo que o problema era no lado esquerdo do maxilar inferior, o Dr. Pedro usou uma técnica “inovadora”: extraiu os dentes, um por um, do fundo para a frente, até encontrar o causador do desconforto, tendo sido uma sorte não ter passado do terceiro.  

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