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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Falso Sequestro





       

Estava indo comprar o almoço, “churrasco para levar”, quando o celular tocou. Alô, eu disse de Porto Alegre. Alô, disse meu cunhado do interior. Ele queria saber como poderia falar com a irmã. Eram 11:30h, horário de almoço dela, foi o que eu respondi. Cinco minutos depois liga meu primo dizendo que minha namorada tinha sido sequestrada. Alguém ligou anunciando o rapto e queria certa quantia em dinheiro, que não era pra avisar a polícia, essas coisas de filme. Perguntei se tinham falado com ela e disseram que sim, que ela chorou no telefone e estava bem nervosa.
Minha namorada era gerente de contas de um banco, um Posto de Atendimento que havia sido assaltado há poucos dias, com direito a tiroteio e tudo. Mas sequestro?! Muito estranho. E o montante pedido era absurdamente baixo, para um resgate. Fiquei até ofendido, ela vale infinitamente mais. Algo não cheirava bem nessa história. Achava que o natural seria o sequestrador ligar pra mim, pro meu celular, e não para casa da minha sogra a 300km de distância em chamada a cobrar.  Liguei para o celular dela inutilmente, pois não atendeu. Liguei de volta pro meu cunhado perguntando se o sequestrador havia ligado de novo. Sim, ligou, e agora não quer mais o dinheiro, e sim créditos de celular. Muitos créditos. Embora eu não estivesse muito crente com essa história, senti um enorme alívio quando soube desse novo fato. Era um falso sequestro. Mas aí já tinha perdido meu almoço. 





Seqüestro


2:00h da manhã. Toca o telefone.
- Alô
- O senhor tem uma filha?
- O quê?
- Perguntei se o senhor tem uma filha.
- Quer falar com quem? Sabe que horas são?
- Tem ou não tem?
- Filha não, tenho um filho, mas ele não está em casa.
- Como é o nome dele?
- Paulo
- Como ele é?
- Mas o que é isso, alguma brincadeira?
- Tô ficando irritado, velhote. Me diga, como ele é?
- Alto, magro, cabelo preto, curto.
- Usa óculos?
- Não. Mas o que é isso? Aconteceu alguma coisa com meu filho?
- Preste atenção titio. Seqüestramos teu filho. Se quiser ver o cara de novo com vida vai ter que fazer tudo o que eu mandar.
- É algum trote? Meu filho está dormindo na casa da namorada e...
- Corta o papo, coroa. Teu filho não é o Paulo, alto, magro, cabelo preto e que não usa óculos?
- É, mas...
- E que tem um Vectra azul reluzente?
- Não. Ele tem um Monza 85, branco, mas o carro está...
- Seguinte, o senhor tem uma hora pra levantar setenta mil reais se quiser ter o garotão de volta. Em quinze minutos eu ligo pra falar sobre o pagamento, e é bom o senhor se mexer logo.
Clic

2:17 da manhã. Toca o telefone.
- Quié?
- Então, vovô, levantou a bufunfa?
- Acabou a graça. Recém liguei pro Paulo na casa da namorada dele. Ele já está vindo pra casa, palhaço.
- Escuta aqui...
- Escuta aqui você, ô maluco. Já é tarde. Para de passar trote pra casa dos outros se não eu chamo a polícia. Olha que tenho bina.
Clic

2:35h. Toca o telefone. Uma mulher atende.
- Sim?
- Boa noite, dona Bina, eu poderia falar com o Sr. Paulo?
- Oh, meu filho ainda não chegou, mas já está a caminho de casa, o senhor pode ligar pela manhã...
- Se liga, dona Bina...
- Meu nome não bina, meu filho.
- Não interessa. O seu Paulo não chegou e nem vai chegar. Interceptamos o Monza dele aqui na avenida. Pode arrumando uma grana aí se não o bicho vai pegar pro lado dele.
Silêncio.
Ruídos do outro lado da linha.
- Alô.
- Ô titio, temo com o cara aqui. Vamos dar fim nele se não arrumar a grana que lhe pedi. Vamos tocar fogo no Monza dele, e com ele dentro.
- Mas que Monza? O carro dele tá na oficina faz uma semana. Olha, meu filho, vai dormir que já é tarde. Já lhe  disse que tenho bina e já passei teu número pra polícia. Se o senhor ligar de novo eles vão até aí lhe fazer uma visita. Vou desligar porque está chegando gente aqui. Acho que é meu filho. Passe bem.
Clic.

3:18h. O Telefone chama apenas uma vez e alguém atende.
- Alô, é Paulo.
- Seguinte seu Paulo. Acabamos de seqüestrar seu Monza branco da oficina. Queremos duzentos reais, que é o que vale essa lata-velha, se não vamos jogar ele dentro do rio.
- Espere, quem fala? Eu te conheço, conheço essa voz e...
Clic.

3: 20h
- Pois não?
- Daniceu, é você?
- Sim sou eu mesmo, quem está fa... Dr. Paulo?
- Mas que idéia foi essa, Daniceu, passando trote pro meu pai, um homem velho, no meio da madrugada?
- Mas doutor...
- Você devia se envergonhar, Daniceu, como descobriu esse telefone?
- Mas doutor, sabe o que é, aqueles remédios pra insônia que o senhor mandou eu tomar não funcionam, estou aqui deitado a um tempão e nada de dormir. Então pensei em alguma coisa pra passar o tempo, que o senhor sabe, insônia faz parar o relógio. Fui ligando pra todos os Silvas que tinham na lista até que achei seu pai. Mas ó, eu não fiz nada, foi apenas uma brincadeirinha inocente.
- Você enlouqueceu.
- Bem, louco, louco eu não estou, mas o senhor sabe, se eu estivesse bem, bem mesmo, eu não me consultaria com um psiquiatra renomado e caro feito o senhor. Falando nisso, está confirmada minha consulta pra logo mais, né!?
- Não sei Daniceu, é melhor você ligar pra minha secretária. Você nos assustou. Depois conversamos. Agora vai dormir.
Clic.


4:37h. Toca o telefone. Um homem atende.
- Alô?
- Dr. Paulo?
- Sim.
- Dr. Paulo, Monza 85?! Francamente! E cobrando aquele preço pela consulta? O senhor tem problemas, Dr. Paulo. Eu, heim!
Clic. 


Nota: no meu apartamento, eu tenho que subir no terraço, achar um determinado quadrante em longitude, latitude e graus, subir num tijolo de seis furos e levantar um braço para conseguir sinal de celular. Isso em dia sem nuvens. E esses caras, criminosos, trancafiados dentro de um presídio, fazem ligações para todo o país, usam internet, recebem aparelhos quando querem, atormentam a vida das pessoas de bem, e fica tudo por isso mesmo. Ah, uma bomba!



* Próx. Postagem: A Aventura de Viajar entre Pelotas e Porto Alegre.

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