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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Humor Tinto

          "Ridendo Castigat Mores"


       Sou grande apreciador de piadas e de vinhos. Bom humor, assim como o vinho, é fundamental para uma vida saudável.  Vários são os benefícios dos flavonoides, substância encontrada em muitas frutas e vegetais e presente na bebida. Seu efeito anti-inflamatório, anti-hemorrágico e antialérgico são conhecidos e comprovados através de estudos e pesquisas, além de ter uma poderosa ação antioxidante. Mas é sempre bom lembrar que para obter esses benefícios não se pode abusar da bebida, embora que os pesquisadores não tenham chegado a um consenso quanto o que seja a dose ideal. Na dúvida, bebo uma garrafinha que, se não me antioxida, pelo menos me deixa feliz e propenso a dar boas risadas.

          Rir, sim! Podemos e devemos sem moderação. Não quer dizer que vamos sair por aí rindo de tudo, pois isso faria de nós completos idiotas, mas rir sincera, espontânea e desinteressadamente. O riso, como o vinho, faz bem à saúde. Estudos apontam que rir fortalece o sistema imunológico, além de outros benefícios. Antes mesmo de ter conhecimento dessas pesquisas eu já gostava de contar e ouvir piadas e de assistir  comédias.  Eu mesmo já tive fama de bom contador de piada, mas reconheço o exagero. Sou o tipo de sujeito que quando conta uma piada tende a rir antes de terminá-la.  Isso faz de mim um péssimo contador de anedotas.
        Sempre que escuto uma piada eu penso em uma pessoa: o autor. Piada é como filme, tem boa, ruim, boazinha, ótima, inteligente, para maiores, geniais. Mas no filme aparecem os créditos pela obra, e numa piada não. Triste. Mesmo antes das facilidades da internet uma piada era conhecida em todo o país, viajando de boca em boca, já no seu autor, ninguém fala. Muito triste. Um músico, no seu show fala “agora vou tocar uma canção do fulano”, enquanto o humorista, no seu espetáculo, conta a piada e leva todo o crédito. Receber direitos autorais, então, nem pensar. Triste mesmo. Foi pensando nele, no autor de piadas, que escrevi a situação abaixo.

                                                Um Dia Daqueles

O sujeito entra no escritório de registros autorais, despeja um calhamaço em cima do balcão e fala ao atendente:
- Bom dia. Quero registrar essa obra literária.
- Foi o senhor mesmo quem a escreveu?
- Não. Foi meu bisavô. Ele deixou pra mim em seu testamento.
O atendente pega o enorme amontoado de folhas e dá uma lida rápida nas primeiras páginas. É um manuscrito, amarelado pelo tempo e comido pelas traças.
- Mas isso aqui está cheio de piadas. E piadas muito velhas.
- Sim, eu sei disso. Meu bisavô morreu há muito tempo. Eu mal o conheci. Ele escreveu essas histórias ainda muito jovem.
- Histórias não, piadas.
- Que seja. Então, vai registrar ou não? Até já paguei a taxa lá no banco.
- Olha, receio não poder fazer isso. Você pode provar que foi teu parente o autor disso tudo?
- Ué!? Ele assinou todos os textos, e a letra é dele. Quer prova maior que essa? Esse Joãozinho que fala aí é filho dele, meu tio. Tem várias historinhas em sua homenagem. E olha só isso aqui – disse, tirando do bolso uma foto muito velha, em preto e branco.
- Esse é seu bisavô? Que é isso no ombro dele, é uma galinha?
- É o papagaio dele, seu companheiro e maior fonte de inspiração. Sabe aquela do papagaio? Pois é, esse é o próprio.
- Como você disse mesmo que esse senhor morreu?
- Eu não disse. Mas foi de repente e ninguém sabe direito o motivo. Só se sabe que um dia ele foi ao médico e o cara disse pra ele: Sinto muito, as notícias não são boas. O senhor tem apenas 5 minutos de vida. Mas doutor, disse meu avô desesperado, O que o senhor pode fazer por mim? E o médico, consultando o relógio: Só uma Miojo.
- Tá bom. Você está de brincadeira. Essa piada eu já conheço. E se seu tataravô morreu há muito tempo, duvido que já existisse...
- Bisa..
- Quê?
- É bisavô, e não tátara.
- Tanto faz. Nessa época nem tinha massa Miojo. Agora o senhor me dá licença que eu tenho mais o que fazer. Vá ver se estou lá na esquina.
- O senhor me deve R$ 1,00. Pensando melhor, vou fazer por R$ 2,00. O Lenine anda cantando isso aí em uma música. Vou ter que ver com o agente dele. Ninguém mais diz “vai ver se estou lá na esquina” hoje em dia.
- Como assim? Não te devo nada. Devo por quê?
- Copyright. Essa frase também é de autoria do meu avô, digo, bisavô. Pode olhar aí, página 715. Vai ver se to lá na esquina. Bem assim. E quero receber todos os retroativos do uso indevido das piadas por artistas como Ari Toledo, Jô Soares, Chico Anysio e outros contadores que usam a genial obra de meu avô para ganhar dinheiro. Onde já se viu? Agora Roberto Carlos vai sair por aí cantando as músicas do Caetano como bem entende, sem autorização do compositor? Não pode. E contar piada dos outros também não. Ah! E por favor, quero em dinheiro. Sabe como é, tem muita gente falsificando assinatura de cheque hoje em dia.
...........
 
O próximo sujeito entra carregando um violão no ombro. Cabeludo, óculos escuros que lhe cobrem quase todo o rosto e um jaquetão preto de couro, apesar do calor que estava fazendo. O atendente olha desconfiado. Pensa “hoje é um dia daqueles”. Está meio desarrumado, o atendente, pelo esforço de jogar um outro maluco porta afora alguns minutos antes.
- Pois não, posso lhe ajudar?
- Pode sim. Eu quero registrar uma composição.
- Uma música? Letra e música são suas?
- Isso. Eu ia trazer uma gravação, mas resolvi fazer ao vivo pra evidenciar a veracidade da obra.
E foi puxando um banco pra apoiar a perna, colocou o violão sobre a coxa, estalou os dedos, limpou a garganta e...
 - Peraí, vamos com calma. Primeiro vamos fazer sua ficha. Como é mesmo seu nome?
- Públis. Dômini Públis.
- Certo, seu Dômini. Primeiro o senhor tem que pagar uma taxinha no banco, coisa pouca. Depois traga aqui o comprovante de quitação e aí sim, vamos registrar seja lá o que for.
- Ah! Não sabia. Mas já que estou aqui, vou dar só uma canja pro senhor ver como é que ficou. Quem sabe, se gostar, eu ganho até um desconto nessa taxa aí.
E começou a pontear as cordas da viola, din din din, don don don.
- Êpa.. pode parar com isso aí. É alguma piada? Quequéisso, meu amigo!? Isso aí é Atirei o Pau no Gato, existe desde sempre. É de domínio público.
- Pois é! Dômini Públis. Sou eu.
- Domínio. Domínio Público, tá entendendo!? - disse o funcionário quebrando a caneta. - Ninguém tem direitos sobre isso. É de todos. Pode tocar a vontade que ninguém vai reclamar os direitos.
- Então? As terras, bem antigamente, também existiam desde sempre, até que alguém chegou lá, fez uma cerca, botou uma casa e pronto. É dele porque registrou antes. Já que Atirei o Pau no Gato não tem dono eu vou registrar, pois tive a ideia primeiro. E quero receber retroativo. E em dinheiro, sabe como é.



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