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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Pescaria com o Chefe - parte 2

Era um barco lindo. Enquanto carregávamos nossas bagagens para dentro da embarcação, o Chefe explicava:.
- Este é o d’Oro Tea, Assistente. Têm 11 metros de comprimento e capacidade para dez pessoas. Temos uma cozinha bem equipada e banheiro com chuveiro. Por toda a volta do barco você encontrará espera para varas. Sobre a cozinha fica a nave de comando, com todos os equipamentos de orientação e comunicação, e mais acima há um pequeno terraço onde se pode tomar um ótimo banho de sol. O que você achou?
- Incrível! Nunca tinha estado em um barco como esse. – Na verdade nunca estive em barco nenhum, mas não disse a ele.
- Certo. O Capitão vai com a gente. Geralmente eu mesmo piloto essa belezoca, mas hoje quero apenas ensinar a você como pegar um bom tambaqui. Assim poderemos conversar durante o passeio. Capitão! Vamos navegar?
O homem que tinha falado conosco minutos antes soltou as amarras que seguravam o barco e subiu com agilidade no d’Oro Tea. Logo o motor foi ligado e avançamos calmamente para dentro da lagoa.
Enquanto Capitão trabalhava na nave de comando, eu e o Chefe nos sentamos perto de deck para preparar as iscas. O Chefe abriu um porta iscas de inox que Capitão tinha retirado da geladeira. Havia todo tipo de coisas nojentas ali dentro. Tripa de frango, acerola, umas massinhas rosadas e até um saquinho com minhocas vivas. Aprendi que os tambaquis gostavam de tudo aquilo, mas o preferido deles era o nhoque feito com ferinha de trigo, água e suco de groselha em pó.
- Que tal um café, Assistente? Tem uma garrafa térmica na cozinha. Desça lá e traga também duas xícaras. Deveremos chegar no ponto de pesca em alguns minutos. Enquanto isso vou dando uma arrumada nessas coisas aqui.
Quando voltei com o café o Chefe abandonou o que estava fazendo e me convidou para sentar para bebermos o líquido quente.
- Você tem avôs vivos, Assistente?
- Meu avô faleceu há uns dois anos. Os outros ainda estão conosco.
- É uma dádiva, Assistente. Avós e avôs são um barato. São como nossos pais, com a diferença que nos deixam fazer tudo o que queremos. Eu já perdi os meus faz um tempo. Mas sempre me lembro deles. Hoje mesmo você vai ver, quando o sol começar a mergulhar na lagoa. Isso tudo vira um marzão de mel. A água fica amarela como ouro. E sempre penso na minha avó. Quando eu ficava doente ela me fazia um chá maravilhoso. Receita dela. Entre outras coisas, colocava canela e mel, o que emprestava a cor de ouro ao chá.
- Por isso o nome do barco? d’Oro Tea?
- Bem observado, Assistente. Mas é, na verdade, um jogo de palavras. Adivinhe como se chamava minha avó?
- Dorotea?
- Muito bom! Muito bom! Então homenageei minha avó e seu chá no mesmo barco. E quando o sol se põe e transforma esta lagoa em chá de mel eu fico com a certeza de que Deus está nas coincidências. Veja, estamos chegando. Aquele é nosso ponto de pesca. Estamos um pouco longe da margem, mas não se preocupe que em qualquer lugar do barco onde você se encontrar é só esticar o braço que você alcança um colete salva-vidas. Aqui está bom, Capitão.
O barco descreveu uma curva em meia-lua e o motor foi desligado. O homem que conduzia a embarcação saiu da nave, foi até a proa e largou algo que me pareceu um anzol de quatro fisgas gigantes pra dentro da água. Como se estivesse lendo meus pensamentos o Chefe observou:
- Aqui neste local o fundo é bastante rochoso, por isso uma garatéia é mais eficiente. Venha, Assistente. Vamos iniciar os trabalhos.

Começaríamos com as minhocas. Fiquei observando como o Chefe fazia e procurei imitá-lo. Meu pai me levou para pescar lambaris algumas vezes, e lembro que a gente colocava a minhoca na palma da mão e batia nela com a outra. Saia uma gosma do bicho, aí podíamos espetá-la no anzol. Quando fiz isso o Chefe riu e disse que assim iria matá-la, e os peixes gostavam dela vivas, se debatendo na água. Usaríamos varas com carretilhas. O Chefe me deu um rápido curso sobre como usá-las e como arremessar a linha de modo a não sofrer com as cabeleiras, nós imenso que danificam a linha. Mostrou-me como regular a carretilha. Fiquei observando seu arremesso perfeito e tentei fazer igual. Até que me saí bem, para um marinheiro de primeira viagem. Fiz o arremesso pra trás usando a força do braço. Quando atirei a vara para baixo a força diminui, é quando libero a carretilha e deixo alinha correr em direção ao alvo que imaginei. Quando a isca atingiu a água eu travei a carretilha. Tudo certinho. Fiquei orgulhoso de mim mesmo. Agora era só esperar a minhoca semi-viva fazer seu trabalho.
Mas nada de peixe. Acho que as minhocas estavam mais vivas do que deveriam, porque quando recolhi a linha o anzol estava desabitado. Em uma hora apenas um peixe foi trazido a bordo pela linha do Chefe, que o devolveu ao seu habitat porque ele considerou um espécime filhote. Trocamos as iscas pelas massinhas. Depois do novo arremesso deixamos as varas nas esperas e nos sentamos para conversar. O Chefe foi até a cozinha e voltou com duas latas de cerveja. Passou uma pra mim já aberta e sentou ao meu lado. Conversamos sobre amenidades enquanto observávamos as varas nos suportes, as linhas imóveis. Perto do meio-dia o Chefe levantou e foi fazer o almoço, outro passatempo dele. Antes de pôr em prática seus dotes culinários ele me trouxe outra cerveja. Embora eu fosse um grande apreciador da loirinha etílica, prometi a mim mesmo que seria a última que beberia no barco, pois não queria soltar a língua e falar bobagens ao meu empregador. Aproveitei a pausa e fui dar uma volta para conhecer melhor o d’Oro Tea. Fiquei imaginando se ele teria trazido o Capitão quando passeou com a Secretária. Eu, no lugar dele, teria feito um passeio a dois. Talvez nem pescaria. Trazer uma mulher daquelas nesse barco pra ficar dando tapa em minhoca viva não me parece muito sensato. Voltei com esses pensamentos para onde estávamos sentados e fiquei curtindo a paisagem e terminando minha cerveja. 
Continua amanhã

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