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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Pescaria com o Chefe - parte 3

- E aí, Assistente, nada ainda nas linhas?
Balancei a cabeça enquanto aceitava um prato cheio de macarronada fumegante com muito molho de tomate. Parecia delicioso.
- Nada ainda, Chefe. Parece que seus tambaquis estão nadando em outra praia hoje.
- Hum! Vamos almoçar por aqui e logo iremos pra outro ponto. Acho que me enganei. E olha que é raro de acontecer. Sempre sei onde esses danados gostam de ficar.
Pensei em perguntar sobre como foi o passeio com o Editor ou o Desenhista pra poder chegar no passeio com a Secretária, mas achei melhor apenas concordar com a cabeça e comer o almoço. Antes mesmo de encostar a língua na comida já percebi o que estava vindo. Lembrei do comentário da Secretária. Pimenta! Nem a raiz brava que comi no Chinês se igualava aquilo. Wasabi era açúcar perto daquela massa. Senti os olhos cheio d’água e agüentei firme a primeira garfada.
- Então, Assistente, o que achou da macarronada? Não quis colocar muita pimenta porque você poderia ter a mucosa sensível.
Que papo de mucosa era aquele?
- Está ótimo, Chefe. Uma pimentinha sempre vai bem no almoço.
Senti minhas entranhas como o Edifício Joelma, o Dragão Chinês Celestial. Suportei bravamente mais duas garfadas, e quando ia pedir água o Capitão me salvou.
- Chefe, tem um chamado de rádio pro senhor aqui em baixo.
Quando ele desceu à nave de comando fui até a amurada e despejei quase todo o conteúdo do prato na lagoa. Quando ele voltou eu ainda estava de pé, dando a última garfada. Quase me pega.
- Onde você vai, Assistente? Trouxe água pra você.
Aí falei a primeira bobagem do dia:
- Ah, obrigado. Eu ia me servir mais.
- Gostou mesmo, heim?! Pode deixar que eu sirvo você.
Quando ele foi até a cozinha algo aconteceu. Minha vara de pesca vergou e quase foi arrancada do suporte. O Chefe voltou correndo com os pratos na mão.
- Anda, Assistente. Pegue a vara e destrave a carretilha. Esse é grande.
Fiz o que ele mandou e a linha disparou.
- Agora trave a linha e puxe essa belezinha pra cá.
Não foi fácil. O bixo era forte. Manivelava a carretilha e depois deixava correr um pouco, então manivelava de novo. O peixe cansou e eu comecei a puxá-lo pra cima. Neste momento a outra vara apontou pra baixo com força. O Chefe correu e retirou o equipamento do suporte e começou a trabalhar. Minutos depois tínhamos dois belos tambaquis se debatendo sem parar no viveiro onde havia pouca água.
- Vou na cozinha pegar o estojo de iscas. Vamos aproveitar e iscar os anzóis.
Quando ele sumiu da minha vista não tive dúvida. Fui na amurada e despejei mais da metade do meu almoço na água. Quando ele voltou com o porta-iscas eu estava sentado terminando de comer a pimenta com massa. O Chefe me olhou entre satisfeito e orgulhoso e comentou:
- De todos lá na produtora você foi quem mais gostou da minha comida. Nenhum deles quis repetir, e depois passaram a tarde bebendo água. São uns molengas mesmo.
Aproveitei a deixa para perguntar.
- Chefe, todos lá na produtora fizeram esse passeio?
- Sim, todos. É uma espécie de tradição. Você não percebe, Assistente, mas eu o estou avaliando desde a hora em que você abriu a porta da sua casa hoje cedo. Mas já vou tranquilizá-lo. Estou gostando, até agora – necessários que se diga, do que estou vendo. Acho que você tem futuro, meu rapaz.
Larguei o prato vazio sobre a cadeira e começamos a preparar as iscas.

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