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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Pescaria com o Chefe

(Essa história é metade real e metade ficção. Aconteceu com um amigo. Eis a primeira parte.)

O convite me foi feito um mês antes do esperado. Não entendo nada de pescaria e muito menos de barcos, mas eu não tinha outra opção a não ser aceitar, disfarçando o entusiasmo. Era esse o passaporte para minha carreira, meu primeiro emprego real depois de formado. Quando cheguei na Firma o Técnico já me alertara: se o Chefe te chamar pra pescar no domingo, pode abrir o champanhe. Era o teste final. Todos que passearam de barco com o Chefe foram contratados. Os que eram dispensados após o período de experiência na Firma nem pra almoçar ele convidava, imagine, então, para um passeio de barco na lagoa.
A Firma era pequena. Havia o Técnico, a Secretária, a Menina que fazia a arte final, o Desenhista, o Editor, o Chefe e eu, que estava começando como Assistente de Arte. Todos eles, os colegas, saíram pra pescar com o Chefe antes de efeivados.
Era, a Firma, bastante respeitada e requisitada no mercado publicitário e por isso a escolhi para começar minha carreira de criador de comerciais. O tempo de experiência, devidamente registrado na carteira, era de noventa dias, mas, esquecendo a modéstia, eu vinha fazendo um bom trabalho na assistência. Prova disso é que um mês antes de terminar o tempo de testes o Chefe veio até minha mesa e perguntou:
- O que você vai fazer domingo, Assistente?
Interrompi o que estava executando no computador, olhei para sua cara enorme – aliás, o Chefe era um gigante, um galalau titânico, ex-pugilista e ex-halterofilista amador – e respondi:
- Eu ia sair com a Namorada, Chefe, talvez um cin...
- Ia? Ótimo. Parece que a Lagoa está assim de Tambaqui. Vamos ver como você se sai numa pescaria de verdade. Passo na sua casa domingo às seis.
O Técnico também avisou: o convite era intransferível, irrecusável, e único. A menos que estivesse morto, tinha que ir. Na hora não sabia o que pensar. Senti um misto de alegria, nervosismo, vontade de cantar, de beijar o Editor que era muito feio e de bolinar a Secretária que era muito gostosa. Mas consegui me conter e tentei voltar minha atenção para o monitor como se nada tivesse acontecido. A Menina da arte final, que dividia a sala comigo, veio até onde eu estava e me cutucou no braço.
- Aí, Assistente, se deu bem, heim?! Parabéns.
Só consegui sorrir. Por sorte o dia estava terminando e eu poderia ir pra casa comemorar a novidade com a Namorada. Na saída a Secretária ainda me disse:
- Bom almoço com o Chefe. E devagar com a pimenta. - E se foi rindo pela calçada, depois de um beijo quente (como é boa essa Secretária) na bochecha, de parabéns. Recebi apertos de mão e abraços dos outros colegas e fui para o ponto de ônibus esperar minha condução, não sem antes tomar uma cervejinha no Bar para pré-comemorar minha contratação oficial. Lembrei da Namorada. O cinema de domingo seria adiado. Ou antecipado. Talvez um filmezinho amanhã fizesse bem. Não fez. Eu nada de prestar atenção no filme, e nem na Namorada. Só pensava no dia seguinte, no domingo, no barco, no tal do tambaqui, no Chefe e no teste final que todos falavam. Naquela noite não dormi.

Às cinco horas de domingo eu já estava de banho e café tomados e aguardando a chegada do Chefe. Liguei a TV para passar o tempo e assisti a uns desenhos antigos. Quando o programa da Santa Missa começou ouvi um barulho de carro parando na frente da casa. Como sempre fazemos antes de abrir a porta, espiei pela janela afastando a cortina de renda. Era a camionete do chefe. Achei que tinha desistido do passeio, porque não avistei o reboque com o barco. Abri a porta antes que ele tocasse a campainha, não queria acordar meu pai. Sua cara grave estava toda sorridente e ele estendeu sua mão do tamanho de uma raquete de tênis e apertou a minha, aperto de mão de quem está acostumado a ser chefe.
- Bom dia, Assistente.
- Bom dia, Chefe. Não vamos mais pescar?
- Claro que vamos, assim que você se aprontar. Vá se vestir.
Eu estava usando umas botas de couro velhas com o cano por cima de uma calça jeans mais velha ainda. Uma camiseta e um colete estilo safári. Na cabeça, um boné de propaganda. Quando me olhei no espelho parecia um autêntico pescador. Mas o Chefe não concordava comigo. Mandou que eu trocasse de roupa. Uma bermuda, camiseta e tênis estavam de bom tamanho. Podia manter o boné para proteger-me do sol.
Contou-me que o barco estava numa marina, a uns quarenta minutos da minha casa. No caminho o Chefe foi discorrendo sobre a arte de pescar. Depois falou como preparar um dourado na grelha. Contou que era separado e tinha dois filhos, e que sempre que podia levava os moleques pra passear de barco. A viagem passou rápida e logo chegávamos num tipo de ancoradouro à beira da lagoa. No pequeno trapiche três barcos de pesca estavam amarrados com grossas cordas. Um deles era o do Chefe, que logo ele fez questão de mostrar, muito orgulhoso de sua propriedade. A movimentação de homens já era grande por ali, e meu superior cumprimentou a todos alegremente, chamando-os pelo nome. Todos o tratavam com muita consideração e respeito. Um homem, um dos mais velhos, veio até onde estávamos e falou que estava tudo pronto, poderíamos zarpar em seguida.

(Continua na quinta-feira)

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