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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Psicologia de Carnaval

Publicado no Diário Popular de 10 de Fevereiro de 2013

Incerta vez decidi que queria ser escritor. Contista, que contos são mais curtos. Dizem que um contista é um escritor com pressa. Escrevi alguns. Psicologia de Carnaval foi o primeiro. Foi publicado no blog do David Coimbra, em 2009, se estou bem certo. Pra Ilustrar, uma foto minha com meu amigo Marco, em um baile de carnaval no clube aqui da cidade, em 1991, quando a Malt 90 existia.


"Minha maior contribuição
à literatura brasileira
é não escrever."
Jaguar - Cartunista
carioca, que hoje faz
80 anos.






                                                            Psicologia de Carnaval


Carnaval de antigamente. Baile de clube numa cidadezinha do interior. O diálogo se dá aos berros por causa do som da banda.
- Olha só, aí vem ela de novo.
-  Heim?
- È a décima-nona volta que ela dá, e a cada volta ela passa mais linda por aqui.
- Como você sabe?
- Como sei o que?
- O número de voltas que ela deu no salão?
- Não sei. Só sei que essa é a volta número dezenove. Deve ser meu subconsciente.                                  Conta sozinho como aqueles autoramas que tem um dispositivo que marca as voltas do carrinho, sabe?  Só pode ser isso. Ontem mesmo ela deu exatas 297 voltas no salão. Como pode? Você sabe quantos metros tem uma volta neste salão? Nem eu, mas deve ser um pouco de chão percorrido. Percorrido não, sambado. Aliás, não sei qual graça ficar dando voltas no salão a noite toda, mas graças a essa mania dos bailes do interior eu posso saborear a passagem dela cada vez que ela cruza  por aqui. Ó, aí vem ela outra vez. Está ficando suada, e ainda mais bonita. Veja como ela sorri, os dedinhos apontando para o teto. Ainda fazem isso?
- Heim?
- Isso, de sambar com os dedinhos pra cima?
- Não sei, não reparo nisso.
- Pois devia. Dá pra conhecer tudo sobre uma pessoa pelo jeito que ela samba. Por exemplo, aquele gordinho que vem ali, arrastando os pés como se tivesse varrendo toda serpentina do chão. É um rapaz solitário. Na verdade a serpentina representa a tristeza de sua vida. Samba devagar, olhando pra baixo, como se estivesse sozinho no clube. Não se importa com nada, a vida não tem graça. Os amigos não o chamam pra jogar futebol porque ele não é tão rápido no gramado. Quando levanta o pé é pra pisar num montinho de confetes imaginando que são seus ex-coleguinhas do primário, que viviam colocando apelidos nele.
- Você está louco.
- Heim?
- Você ta bêbado.   
- Eu? Eu não. Pode observar. Olha aquele grandão ali, andando na contramão do fluxo. Deve ser de touro. É teimoso como uma mula. Gosta de discordar de todos, mesmo quando sabe que está errado, apenas pelo prazer que sente em teimar. Conhece o poder que ter um corpo grande exerce. Vai atropelando todos a sua frente. A piada é sempre a mesma: diz que todos estão na contramão, e não ele. No início é engraçado, mas as pessoas já estão de saco cheio dele. Só não falam nada porque o cara é forte.
- Ei, você está atravessando?
- Eu o que?
- Atravessando.
- Eu? Ah! Desculpa. Olha, aí vem ela. Será que ela já me viu?
- Então me conta, esperto, quais são as características de uma pessoa que samba com os dedinhos pra cima fazendo ziriguidum?
- Como ela? Fácil. Apesar de ser uma moça jovem, ela conserva seus valores. É de boa família, dessas pra casar. Se tocar Mamãe eu quero e Cachaça é água ela vai adorar. Não sabe as letras desses sambas-funk que tocam hoje em dia, e nem gosta. Viu como ela passou agora? Abraçada nas amigas. Duas de cada lado. È uma líder, as amigas a respeitam e querem ser como ela. Mas não podem. Ela é única, e embora suas amigas sejam também bonitas nunca serão como ela.
- Bobagem!
- Que?
- Boba.. olha, está atravessando de novo.
- Ah, não enche.
-  Ei, olha lá, não é teu primo?
- Onde?
- Lá no outro lado do salão, perto da janela?
- Ih, é ele mesmo. Olha só, o grandão da contramão ta empurrando ele, vai dar rolo. Segura aí que eu vou lá.
- Vai nada, rapá, fica aí que tu não pode ir lá.
- Vou sim, é meu mano do coração e...ó, chegaram os seguranças. Que ‘tão fazendo? Êpa, botaram meu primo pra rua. E o grandão ficou. Tá abraçando o segurança, e rindo. São amigos. Sacanagem.
- Olha o compasso. Olha o compasso.
- Heim?
- Tá atravessando.
- O que está atravessando é meu coração. Aí vem ela de novo. Ai, ai, ai. Sorriu pra mim. Você viu? Um sorriso, meu Deus. Guenta as pontas que vou lá falar com ela.
- Vai nada. Fica aí, não pode ir lá.
- Tem razão, vou esperar o intervalo. No intervalo pego uma cerveja na copa e vou lá me apresentar e falar pra ela que desde ontem só tenho olhos pra ela e sua fantasia de Índia Iracema.
- Que Iracema? Além do mais, hoje não terá intervalo.
- Não? Por que?
- O presidente acha que o intervalo esfria os ânimos e o pessoal vai embora.
- E o que é que o Lula tem que ver com um baileco aqui nesse fim-de-mundo?
- Presidente do clube, imbecil.
- Ah, ta. Olha lá, fizeram um trenzinho. Eu gostava disso. O bom era ir atrás de um garota bem bonita. Primeiro pegava ela pelos ombros. Depois escorregava as mãos pela cintura. Depois chegava mais pertinho e soprava suavemente  na sua nuca  Se ela sorrisse, tava no papo. Bem assim como o grandão ali ta fazendo com aquela ... Índia Iracema? A minha Iracema?
- Olha o compasso, olha o compasso!!!
- O Compasso que se dane. 
...E dizendo isso, atirou o tamborim pra cima, passou por cima dos colegas da banda e foi pra cima do trenzinho.

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