Pesquisar neste blog

terça-feira, 26 de junho de 2012

Qual é a Música - Final




O apresentador chamou os comerciais e avisou a direção do programa que iria ter que terminar com uma reprise de outro quadro qualquer. Disse que Antenor receberia só uma ajuda de custo porque o contrato não fora cumprido. Nelson então irrompeu feito um louco no palco e disse que processaria a emissora.
     Antenor, nervosíssimo, olhava para o amigo e cantava Vamos fugir! Deste lugar Baby! Vamos fugir.  A banda, sem entender nada, tentava acompanhar. A platéia gritava e aplaudia, Nelson tentava tirar o microfone do apresentador que chamou a segurança. Seis homens grandalhões de terno preto entraram no estúdio e pegaram Nelson e Antenor, que cantava ainda agarrado ao microfone sem fio: - Você com revólver na mão é um bicho feroz. Sem ele anda rebolando e até muda de voz.
     - Olha o Bezerra da Silva aí, gente! – Gritava Nelson, pendurado no microfone que o apresentador segurava enquanto era puxado pelas pernas por três seguranças da emissora.
Foram convidados a se retirar pela porta dos fundos. Um dos seguranças trouxera as malas que estavam no camarim e as jogou no meio da rua, onde estava sentada a desolada dupla. Antes mesmo que pudessem se levantar, um carro da polícia surgiu do nada e parou a poucos centímetros dos dois amigos. Rapidamente desceu um policial acompanhado de um homem enfiado num ridículo terno amarelo que perguntou:
     - Quem de vocês é o Antenor?
     - Esse alguém sou eu.  Ai ai ai, sou eu.  Você não vai resistir, não vai entender, esse alguém sou eu.
     - Acho que esse é o Vitor. Ou seria o Léo? – Disse o policial sem jeito.
     - Nem Vitor nem Léo. Esse é o famoso Antenor. Pode levá-lo, seu guarda.
     - Peraí!! - Nelson levantou depressa. – O que está acontecendo? Eu sou o empresário dele e exijo uma explicação.
     - Empresário? Então o senhor também vem conosco. Vamos à delegacia pra resolvermos como vocês irão pagar tudo o que devem ao ECAD.
     - ECAD? Que mané ecad é esse?
     - É o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição. Vocês estão devendo uma grana preta em direitos autorais. Cantar música dos outros sem permissão é crime. E usando a voz do próprio artista é pior ainda. Vamos, entrem no carro. Vão se explicar ao delegado.


     Foram novamente jogados, desta vez para dentro do carro da polícia. Só perceberam que suas coisas tinham ficado no meio da rua quando o delegado pediu seus documentos. Não tinham dinheiro, carteira e nem as passagens de volta para casa. E também precisavam, mais do que nunca, de um advogado. Como era domingo foram mandados para uma cela onde estavam outros presos. Teriam que esperar até a manhã de segunda para resolverem tudo. Nelson dormiu logo, sentado entre dois homens mal-encarados que olhavam de um jeito estranho para Antenor, que sentou no chão, num canto da cela escondendo o rosto entre as mãos. Chorou um pouco e logo adormeceu.
     Acordou assustado, suando e confuso. A TV estava ligada e a voz irritante do apresentador do programa dominical o trouxe para a realidade. Não devia ter bebido tanto no almoço. Churrasco e cerveja o deixavam imprestável no resto do dia, sempre acabava dormindo o domingo inteiro. Lembrou do pesadelo que tivera e sentiu a cabeça latejar. Seu irmão tinha trazido o violão para o almoço, mas logo na terceira música três cordas rebentadas acabaram com a cantoria e o negócio foi jogar bola no sol. Péssima idéia. A calva ardia de insolação e sentiu o estômago embrulhar. De repente sua mulher entra no quarto, escancara as janelas para renovar o ar impregnado de álcool e pergunta:
     - Então, seu dorminhoco, você, por acaso, sabe que horas são?
     Antenor consulta o rádio-relógio ao lado da cama e fala com uma voz estranhamente conhecida e grave, mas que não era a sua:
    - Em Brasília, dezenove horas.
FIM

Nenhum comentário:

Postar um comentário