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terça-feira, 26 de junho de 2012

Qual é a Música - parte 2

Na primeira parte, Antenor acorda e se vê um ótimo imitador. O que será que vai acontecer? Eis a segunda parte.
 (Continuação)


         Antenor estava com um grampeador na mão, tentando grampear os lábios. Nelson conseguiu arrancar o objeto das mãos do amigo e acalmá-lo.
         – Calma, meu amigo, respire fundo, agora senta de novo e pare de puxar a língua. Deixe-me examiná-lo.
        Depois de feitos alguns exames de rotina, nada foi encontrado de anormal. Batimentos, pressão, dilatação das pupilas, tudo em ordem. Era caso para um neurologista. Nelson pegou o telefone e ligou para um colega. Conseguiu uma consulta para o dia seguinte. Receitou umas aspirinas pra dor de cabeça, caso houvesse, e, se necessário, um calmante para dormir. Antes de ir embora Antenor pediu:
        - Traga-me um copo d'água, tenho sede, e essa sede pode me matar. Minha garganta pede um pouco d'água.
          Na saída Nelson ainda disse: - Muito bom o seu Gil. Sou fã desde a Tropicália.
          No neurologista também não descobriram nada, e tampouco no fonoaudiólogo. Era caso para um padre. Antenor estava possuído. Chamaram o clérigo em sua casa. Prepararam o quarto, amarraram o homem na cama (Por que amarrá-lo, seu padre? – Não sabemos que demônio habita esse pobre corpo até que ele saia, minha filha. Melhor prevenir e proteger o Antenor de si mesmo.) Iniciaram a seção de exorcismo.
          O reverendo agitava um objeto e jogava um líquido no homem que Carminha julgou ser água benta. Murmurava umas palavras que ela não entendia – latim, deduziu. A isso tudo Antenor assistia com certo ar de tédio. De repente falou, ou melhor, cantou:
          - Na casa do senhor não existe satanás! Xô satanás! Xô satanás!
           O reverendo juntou depressa suas coisas, fez o sinal da cruz e foi embora dizendo que era demais até para ele. Antenor ficou desolado e sem esperanças. Estava condenado a falar por música, com vozes que não eram suas. O único que se divertia era seu filho. Disse que o pai era como aquele Chevrolet Camaro do filme Transformers, que se comunicava através do rádio. O garotinho ficava horas vigiando, esperando que a qualquer momento Antenor se transformasse num esportivo.
          Antenor conseguiu licença médica do trabalho graças a um laudo fornecido por seu amigo Nelson. Passava os dias sem sair de casa, e sua comunicação com a mulher e o filho era em grande parte escrita em um bloquinho. Às vezes saia uma musiquinha, uns versinhos cantados, mas pouca coisa. Até que um dia bateram na porta. Lá estava, parado sobre a soleira, o amigo Nelson e, na mão, um violão.
          - Tive uma idéia, - disse tão logo foi entrando na casa. – vamos montar um show. Vamos pra rua.
          - Até que alguma luz acenda este meu canto continua. Junto meu canto a cada pranto, a cada choro, até que alguém me faça coro pra cantar na rua.
          - Ai, meu Chico! – suspirava Carminha que era fã do Chico Buarque.
            Nelson explicou tudo. Nas suas horas de folga gostava de tocar violão. Até estudou música quando era mais jovem. Começariam como artistas de rua, mais pra divulgar “o trabalho” do que pra arrecadar esmolas, pois de dinheiro não precisavam. Transferiu seus pacientes para outro médico, deu férias pra secretária e fechou o consultório.
            –Além do mais vai ser bom pra você sair um pouco de casa. O que você acha?
            Antenor respondeu com toda a suavidade de Paulinho da Viola:
            - É melhor não insistir, para não se machucar. Este caso pode ter um triste fim, não seja tolo, vai dar rolo.
           Mas Nelson já estava de pé. – Não seja tolo você, Antenor. Vamos aproveitar esse dia maravilhoso e vamos pra rua fazer sucesso.
           - Sem ensaio nem rascunho? O caminho a gente faz andando. Qual seria o plano b?
           - Plano b? Não tem plano b. E não dá pra ensaiar, porque nunca sabemos o que você vai cantar. Vamos embora, será no improviso mesmo. Tchau, Carminha.

Amanhã, a terceira parte.

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