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terça-feira, 26 de junho de 2012

Qual é a Música - parte 3

No último capítulo, Antenor foi às ruas mostrar seu talento. Em que espécie de confusão se meteria?

(continuação)

         Mas Nelson já estava de pé. – Não seja tolo você, Antenor. Vamos aproveitar esse dia maravilhoso e vamos pra rua fazer sucesso.
          - Sem ensaio nem rascunho? O caminho a gente faz andando. Qual seria o plano b?
        - Plano b? Não tem plano b. E não dá pra ensaiar, porque nunca sabemos o que você vai cantar. Vamos embora, será no improviso mesmo. Tchau, Carminha.
        No começo foi difícil. O show tinha de ser conversado, pois Antenor só cantava quando queria falar alguma coisa. Nelson, por mais que se esforçasse, não conseguia acompanhar a maioria das músicas no violão, porque eram sempre fragmentos de canções. Mas o sucesso veio mesmo assim. O público, formado por passantes e comerciantes do centro, ficava maravilhado com as imitações perfeitas de Antenor, que quando cantava com voz de mulher deixava todos de boca aberta. Chegaram até mesmo a juntar uma boa grana, e a notícia logo se espalhou pela cidade.
         Um dia, enquanto juntavam o equipamento – uma pequena caixa amplificada, um microfone e o violão - para encerrar mais uma tarde de apresentação, chegaram dois homens de terno e gravata e os convidaram para um café na padoca do outro lado da rua. Apresentaram-se como produtores de um importante canal de televisão e queriam contratá-los para uma apresentação no programa de domingo, em rede nacional. Nelson exultava, Antenor afundava na cadeira e ia desaparecendo embaixo da mesa.
        -Isso me dá tic tic nervoso, tic tic nervoso, tic tic nervoso...
      Acertaram tudo. Os produtores já tinham até o contrato pronto, guardado em uma maleta preta novinha cheirando a couro. Ficou decidido que quem acompanharia Antenor seria a banda do programa, o que deixou Nelson aliviado, porque não conseguia mesmo tocar o violão. Porém, era o empresário e tinha que ir junto, e como não havia necessidade de ensaio, ficou acertado para dali a duas semanas.
        Carmem ficou preocupada com tudo isso, uma viagem ao centro do país, o Antenor daquele jeito, mas fazer o quê?!, vida de artista. Nelson cuidaria bem dele, prometeu. Na porta Antenor ainda disse:
       - Oh, meu amor! Não fique triste... Saudade existe pra quem sabe ter. Minha vida cigana me afastou de você, por algum tempo que eu vou ter que viver por aí, longe de você, longe do seu carinho... – Como é linda a voz da Tetê.

       O auditório estava cheio. Durante todo o programa o apresentador, um sujeito grande e metido a engraçado, anunciou a grande atração do domingo: Antenor, o maior imitador do Brasil. Antenor faria o encerramento do programa e estava muito nervoso. Nelson dizia para relaxar, que daria tudo certo. Era só fazer o que sempre fez nas ruas de sua cidade. No tão aguardado momento um homem com uns fones de ouvidos enormes pediu para que ele se preparasse. Nelson assistiria pelos monitores, num painel logo atrás do palco.
       Quando o apresentador anunciou seu nome a platéia gritava e aplaudia. Antenor ficou por um momento congelado e Nelson, com um leve empurrão, fez com que o amigo entrasse no teatro iluminado e colorido. Imediatamente a banda atacou de Vale Tudo, uma música dançante do Tim Maia. Antenor ficou ali, todos olhando pra ele. Uma mulher bonita e com pouca roupa se aproximou e lhe entregou um microfone sem fio que Antenor não sabia onde o enfiava. Na terceira vez que a banda repetiu a introdução, o maestro fez sinal para que parassem. O apresentador então falou, arrancando risos da claque:
         - Parece que o Tim não veio, galera. Ou será que foi o Antenor? E aí, seu Antenor, vamos ouvir sua imitação de Tim Maia?
           Antenor olha desconfiado pra platéia, olha nervoso pro apresentador e canta:
          - Quero ser seu amigo. Quero que tudo saia como o som de Tim Maia sem grilos de mim, sem desespero, sem tédio, sem fim.
          A banda saiu em disparada, mas quando achou a nota, ele já tinha parado de cantar. Mas a voz era mesmo de Caetano e a plateia delirava e aplaudia.
        - Mas é o Caetano Veloso, galera, o filho de Dona Canô! – Gritava o apresentador. E mais palmas e gritos. Nelson aplaudia no bastidor. Antenor continuava nervoso e apavorado.
          - O que mais você sabe cantar, seu Antenor?  Quem vem aí agora?
          - Eu não sei dizer o que quer dizer o que vou dizer.
         Quando a banda abriu a primeira nota, já tinha terminada a imitação da Simone. Mas a platéia estava se divertindo. As imitações eram curtas, mas perfeitas.
       - Mas e uma música inteira, seu Antenor, qual você vai cantar pra nós? Parece que o auditório e o pessoal de casa querem ouvir mais desse talento incrível que você tem. Que tal uma música do rei? Vocês querem ouvir o rei, galera?? – e a Banda já dava a introdução de uma música do Roberto Carlos quando Antenor cantou:
        - Eu não sei fazer música, mas eu faço. Eu não sei cantar as músicas que faço, mas eu canto. Eu não tenho certeza.
     Foi o máximo que conseguiram. Apenas alguns acordes. O público ria, o apresentador começou a perder a paciência. Fez uma brincadeira com a produção dizendo que erraram o horário dele, que tinham que inscrevê-lo no quadro chamado “Se Vira nos Trinta”, que nem precisava trinta, que dez segundos já estava bom. O nervosismo de Antenor aumentava, e ele olhava pra trás do palco a procura do amigo Nelson. O apresentador chamou os comerciais e avisou a direção do programa que iria ter que terminar com uma reprise de outro quadro qualquer. Disse que Antenor receberia só uma ajuda de custo porque o contrato não fora cumprido. Nelson então irrompeu feito um louco no palco e disse que processaria a emissora. 

Domingo, a última parte.

                                                             

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