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terça-feira, 26 de junho de 2012

Qual é a Música

Amigos, hoje estou num daqueles dias com pouca ou sem nada de inspiração. E como Blog parado só serve pra juntar spam, resolvi postar uma novelinha, uma situação que imaginei num desses momentos sem nada pra imaginar. Escrevi já faz alguns anos e postarei em capítulos, pois é um pouco longo e não quero entediá-lo. Eis a primeira parte.




Qual é a Música? - Parte 1


          Quando sentou à mesa pra fazer o desjejum, sua mulher, que lavava a louça, perguntou, de costas para ele:
           - Isso são horas? Não se trabalha mais nessa casa?
          - Eu não nasci pra trabalho. Eu não nasci pra sofrer. Eu percebi que a vida é muito mais que vencer. – Cantou. Uma imitação perfeita do Ed Mota.
        - É, vai brincando. Quero ver quando começar a chegar as contas do mês, da escola do menino, do mercado, prestação do carro. Vai cantando pra você ver o que é bom. Já está difícil de arrumar emprego e você fica aí, arriscando o seu.
           - Ora bolas, não me amole com esse papo, de emprego. Não está vendo, não estou nessa. O que eu quero? Sossego, eu quero sossego. A voz potente do Tim Maia trovejou pela cozinha. Tapou a boca com as duas mãos, espantado. O que estava acontecendo? Nunca soube cantar, desafinava até no Parabéns à Você. Agora essa, cantou como Tim Maia.
         - Mas o que é isso, Antenor? Que história é essa? Você está brincando comigo? – estava mesmo braba, com uma mão na cintura e a outra sacudindo uma esponja nojenta cheia de espuma.
        - Não! Não! Eu não estou brincando! Eu não sei! Eu não sei! – Era a Vanuza cantando. Vanuza, que ele nem sabia direito quem era. O terror estava estampado em seu rosto e Carminha percebeu que alguma coisa estava errada com o marido. Tentou conversar, mas ele não falava. Tinha medo. Apertava a boca com as mãos. Até a esponja quis engolir. E começou a chorar. Chorou de medo.
          - Calma, - disse a mulher. – Vamos ligar para o Nelson. Nelson era o médico da família e amigo de anos do casal. Saberia o que fazer. Em nome da amizade, marcou consulta pra depois do almoço.
          Até a hora de ir ao médico Antenor não abriu a boca. Fez o trajeto até o consultório em silêncio. Carminha ia dirigindo o carro. Quando chegaram, a secretária, já familiarizada com os amigos do Dr. Nelson e previamente alertada, os conduziu à sala de exames assim que chegaram ao consultório. Foram recebidos com um sorriso pelo amigo.
           - Então, Antenor, o que houve com você? Vamos, sentem, sentem! Contem-me do início.
Antenor ficou calado e Carminha teve que explicar ao especialista. Quando terminou o breve resumo, Nelson perguntou:
           - Como você se sente?
          - Baby eu me sinto mal. Peço-te ajuda, seja o que tem que ser, baby, eu me sinto mal.  Anda difícil até pra escrever.
        - Que voz é essa? Quem é esse? – perguntou Nelson coçando o queixo, com jeito de que nada o impressiona.
          - Não sei – responde a mulher. – Nem conheço essa música, mas sem dúvida é uma música. Horrível, mas ainda sim é música.
          - Escute – continuou o médico dirigindo-se de novo ao paciente. – Você sente alguma dor?
          - Oh, doutor! Tem que me ajudar! Eu tô com dor, não sei doutor, o que vai dar!
      - CIDADE NEGRA – gritaram juntos os dois ouvintes. O médico estava maravilhado. Carminha preocupada, mas começava a se divertir. Antenor sustentava duas lágrimas.
        - Antenor. Escuta, escuta. Quando começou isso, quando você notou algo diferente? Como você faz isso, Antenor, essas vozes, de onde vêm?
         - Não consigo explicar, eu não sei. O que às vezes me dá, eu não sei. Sinto frio e calor, eu não sei. Uma espécie de dor, eu não sei.
          - Essas músicas, Antenor, de onde vem?
          - Eu não sei fazer música Mas eu faço. Eu não sei cantar as músicas que faço Mas eu canto. Eu não tenho certeza.
          - Então, Nelson – choramingou Carminha, - o que é isso?
          - Hum, acho que é do Titãs, mas a primeira eu não tenho muita certeza. Ultraje à Rigor?
          - Não, Nelson, não é isso. É o Antenor. O que o Antenorzinho tem? Olha o estado dele. Antenor estava com um grampeador na mão, tentando grampear os lábios. Nelson conseguiu arrancar o objeto das mãos do amigo e acalmá-lo.
       – Calma, meu amigo, respire fundo, agora senta de novo e pare de puxar a língua. Deixe-me examiná-lo.

(Continua dia 3)

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