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segunda-feira, 25 de junho de 2012

A Trama dos Tremas





Publicado no Diário Popular em 2010
                  Não fui um ótimo aluno. Não me destaquei  pelas notas, pela pontualidade, não me sentava nas primeiras filas, não ficava o tempo todo fazendo perguntas, tirando dúvidas, nem tinha o caderno impecável. Também não fui um mau aluno. Não fui da turma do fundão, não conversava alto enquanto o mestre explicava o conteúdo, não atirava bolinhas de papel nos colegas, não colava. Bem, talvez algumas vezes, mas na faculdade, onde todos colam. Fui, sim, um aluno normal. Eu era preguiçoso, gostava de sentar junto à parede, só para poder me recostar nela. Estudava o suficiente para um sete, oito, muito às vezes um nove. Notas dez eram raras, e matemática era um caso a parte. Se alcançava a nota média, era como gabaritar, sempre tive dificuldade. Acho que da quarta série do fundamental até o terceiro do ensino médio eu fiquei em recuperação no final do ano. Foi meu carrasco durante todos os anos de aprendizado. A matemática era o bicho-papão, a bruxa malvada, a Cuca. Saia-me melhor em Português, porém jamais aprendi gramática, o que pode explicar os vários erros nestes textos que escrevo no blog. Matemática e Português eram, para mim, os dois extremos. Se disciplinas escolares fossem partidos políticos, Matemática seria extrema-esquerda e Língua Portuguesa extrema-direita. Mas também não entendo nada de política então podem desconsiderar essa bobagem.




                Português tem um agravante: de tempos em tempos nossa Língua passa por reformas. O que você levou tempos estudando, de repente, não vale mais. Mudou ou se extinguiu, e o que antes não podia, agora pode. Matemática é exata, Língua Portuguesa é flexível, como alguns verbos.
No  último Acordo Ortográfico, acabaram com o trema. Por que não explodiram de uma vez a crase? Logo o trema, tão simpático, que não incomoda ninguém. Quando o Acordo começou a ser elaborado, fiquei imaginando como foram os últimos dias deste sinalzinho e, numa noite de insônia, escrevi

                                      Tremóia - A Trama dos Tremas                                       (Texto publicado no Diário Popular em fevereiro de 2009)


                 Disseram que haveria uma revolução. Tremavam os planos há algum tempo. Reuniam-se em um velho pavilhão de um antigo e desativado Parque Tremático. Milhares de tremas vieram de todos os lugares para fazer parte daquela que seria a batalha decisiva - dela dependeria sua sobrevivência. Preparavam-se para o grande dia, o Diacrítico.
As reuniões eram presididas pelo tremível Dom Key Qüarlos, o Tremandão, conhecido por sua (questionável) inteligência e frieza calculada. Contam em pequenas rodas que certa vez um trema com manias de artista - cujo sonho era ser um cantor famoso e gravar um trema de novela, embalado por uns goles a mais em um bar, tentou ridicularizar o Tremandão, dizendo que ele não passava de uma grande farsa, uma mentira, um fanfarrão. Disse mais: Falou que Qüarlos nem necessitava de trema, que dava no mesmo não usar o sinal. E ainda debochava: O que esperar de um sujeito chamado Donkey? Foi um erro. Talvez um ponto-e-vírgula com crise de identidade, ou quem sabe um casal de abre e fecha aspas, ouviu o comentário imprudente e tratou de fazer a fofoca. O boato chegou aos ouvidos de Tremandão que imediatamente ordenou a prisão do indivíduo e o condenou à “pena de separação”, a mais temida de todas. Os pontinhos eram separados para sempre. Acabavam vagando pelo mundo, numa eterna busca por sua outra metade sem jamais encontrá-la, e terminavam geralmente sozinhos, nunca chegando a ser um ponto final, a mais alta patente de um sinal gráfico. Os que tinham mais sorte uniam-se a mais dois de seus iguais, os treumatizados, e viviam os restos de seus dias assim, reticentes...
Na hierarquia, depois de Tremandão vinham os gêmeos que trabalhavam no qüinqüênio. Eram o braço direito de Dom Key. Ou melhor, direito e esquerdo, já que eram dois e estavam sempre juntos. Logo abaixo vinham os menos graduados, mas não menos importantes: o da lingüiça, o tranqüilo e a eloqüência, que era o responsável pelos discursos de Tremandão. Todos tentavam se mostrar confiantes, mas no fundo estavam bastante tremerosos. Sabiam que a vitória era incerta, ainda mais depois que foram obrigados a mudar todos seus planos e adiar o Diacrítico. Foram vítimas de uma grande tremóia arquitetada por uma organização que trabalha pelo fim da sua espécie, o MST, Mundo Sem Trema. Mandaram dois espiões para o parque, uma dupla de asteriscos altamente treinada, com muito gel no cabelo, e que por algum tempo conseguiu andar despercebida no meio da tremalhada. Até que um dia, às vésperas do grande momento, numa importante reunião, o enferrujado encanamento do velho pavilhão não resistiu à pressão da água e se rompeu, ocasionando uma forte chuva no local e a tremóia foi descoberta. Os asteriscos, com o gel escorrendo foram facilmente desmascarados pelo Tremandão. “- Olhem!” - gritou ele de seu trono apontando para os intrusos, - “São dois asterísticos. Apaguem-nos”.
Infelizmente os espiões já tinham passado todas as informações ao MST e a Revolução teve que ser adiada e reformulada em todos os detalhes. Finalmente, em algumas horas, ao amanhecer, terá início o tão esperado Diacrítico. A reunião foi encerrada com o grito de guerra “MST, pode tremar, a tua hora vai chegar”.
                     Mas algo saiu errado. Dom Key subestimou o MST. Além dos engomados asteriscos outro espião fora infiltrado no meio dos revolucionários: o dois pontos. Tudo que ele tinha que fazer era ficar deitado, quietinho, um disfarce perfeito. Foi o grande trunfo do Mundo Sem Trema. Derrotados, poucas opções restaram aos fiéis de Tremandão, ele próprio se valendo das artimanhas do inimigo tratou de ficar em pé e fugiu pelos fundos, como um dois pontos qualquer, e nunca mais foi visto. Aos outros restaram apenas duas opções: aos mais corajosos a “pena de separação”, e com um pouco de sorte talvez se passassem por um ponto final, tarefa quase impossível, ou ainda tentariam agrupar-se com seus colegas de flagelo para, quem sabe, conseguir formar uma singela reticência. Aos mais novos, aqueles que ainda tinham uma vida toda pela frente, foi sugerido a migração para os países da Europa, como Alemanha, ou Grécia, para se juntar aos colegas de, por exemplo, München, Böblingen, ou ainda Εβραϊκό. Não tinham escolha. A sonhada Revolução não resistiu ao Acordo Ortográfico.







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