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quinta-feira, 19 de julho de 2012

O Homem da Capa Preta

Por Jou Silveira

Entre os municípios de Pedro Osório e Herval do Sul, região povoada de fantasmas de antigas batalhas revolucionárias, está escondida a Estância da Solidão, de propriedade de um médico e político pelotense.
No ano de 1981, por ter mudado com a família para Porto Alegre, arrendou a propriedade para um filho de libaneses que, para minha sorte, é meu tio, quando esse então deu início à sua aventura na pecuária.
Nesse contexto, parti de Pelotas, onde morava, para passar alguns dias de minhas férias de julho em companhia de um primo, filho do estancieiro, e de um tio (dizem que a estátua do laçador lembra mais ele que o Paixão Cortes), na referida estância.
Lá chegado integrei-me rapidamente às lides, que consistiam, além de beber, comer e jogar, o transporte e plantio de mudas de cebola, onde fui gentilmente convidado a ajudar no preparo dos canteiros para o plantio, virando a terra de pá; algumas campereadas fantásticas, onde em uma delas dispus-me resgatar um novilho à tropa, partindo em rápido galope coxilha abaixo em seu encalço, onde pude perceber claramente que de gaúcho eu só tinha a geografia além do orgulho, pois quase me esborrachei, terminando a carreira agarrado ao pescoço da égua, e em outra oportunidade, forcei a infeliz égua a entrar em um olho d’água que só eu não tinha visto (soube, um tempo depois, que após a minha visita ela nunca mais aceitou montaria), tendo que sair quase a nado pois o bicho atolou até a barriga; e causos, e entre eles, o do famoso Homem da Capa Preta, um estropiado da revolução de 23, que segundo dizem,  não conseguiu fugir de um piquete de chimangos, pois encontrara tudo quanto era porteira fechada em seu caminho, e estando seu cavalo manco por um balaço, tinha que parar para abrir, sendo assim alcançado e degolado naquele ermo.
À partir de então, conta-se que na data de seu infortúnio, ele aparece, sempre procurando porteiras abertas.
Numa daquelas noites, numa quinta-feira mais precisamente, durante um carteado, surgiu a conversa sobre o desgraçado, e que casualmente era a data do acontecido; isso dito solenemente como numa missa.
Tentando não deixar transparecer, impressionei-me imediatamente.
Emudecido pelo cagaço, recolhi-me com os outros dois, pois estávamos os três no mesmo quarto e eu não me atreveria cruzar sozinho com o taura.
Já deitado, minha cama ficava entre as duas outras, em frente à porta, com a arma calibre 36 de meu pai ao lado, que tinha levado para caçar caturritas, dei de mão num livro, pois já naquela época não dormia sem ler (e quando se está com medo parece que o sono vem devagarinho).
Era tarde quando desliguei a luz. Escuridão total. Mesmo podendo ouvir a cadência do caminhar das formigas, pude identificar um ruído assustador: um banquinho da cozinha estava sendo arrastado.
Rapidamente acendi a luz e acordei os dois, contando-lhes o que ouvira, sendo repreendido severamente, pois tínhamos de levantar muito cedo para tratar daqueles malditos canteiros.
Ainda assustado, cedi aos protestos, apagando novamente aquela preciosa luz.
Não mais que alguns minutos depois, ouvi novamente o terrível ruído e gritei: tem gente na casa.
Pulei da cama de arma em punho e vasculhei cada canto da casa sem nada encontrar.
Ao retornar ao quarto, fui enquadrado na lei de segurança nacional, pois a arma estava carregada e minha imaginação tornara-se muito perigosa.
Para o bem de todos tirei a munição da arma, mas tranquei o quarto de tal maneira que quem se apertasse  antes do nascer do sol, teria que fazer suas necessidades em algum canto.
Pela manhã, quando todos os fantasmas tinham se recolhido, fui à cozinha, onde pude constatar que o mal (no bom sentido) pode ser hereditário, pois meu primo, filho de um dos mais criativos pregadores de peças que conheci, amarrara uma linha de pescar no pé do banquinho, arrastando-o de sua cama.
Muitos anos e risadas depois, ao escrever essa crônica, fui surpreendido por uma estranha sensação ao perceber que nunca tive, à partir daquela época, um banquinho sequer em minha casa.


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