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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Memórias do Corredor 3 – O Fugitivo



 (Publicado no Diário Popular em 30 de agosto)
Depois de dois meses internado era normal que minhas visitas diminuíssem, afinal eu já estava bem e fora de perigo. Faltava apenas a cirurgia da perna, quando seria retirada a tração que tanto apavorou Daniel. Por ser a mais complicada foi deixada por última. No entanto, embora minhas visitas de parentes e amigos tenham diminuído um pouco, o movimento no meu quarto continuava firme e forte. Era comum receber visitas de outros pacientes do corredor, dos que podiam se locomover sozinhos. Sempre um ou outro aparecia pra ver TV, tomar um cafezinho com torradinhas, ler uma revista ou apenas bater um papo e trocar experiências sobre curativos e medicamentos. Afinal, depois de sessenta dias no hospital eu já era considerado condômino.
        Havia um paciente, um jovem sorridente cujo nome me escapa agora, que diariamente aparecia para uma conversa e um filmezinho na TV. Também já era figurinha marcada no hospital e conhecido dos enfermeiros por sua simpatia e por um talento digno de Clint Eastwood em Fuga de Alcatraz: escapava sempre do hospital. Mas desta vez seria diferente. Sua mãe, numa tentativa de evitar suas fugas, deixou o garoto lá sem suas roupas. Pra fugir, só pelado.
       Como eu não saia nunca da minha cama eu aprendi a observar e reconhecer os sons do Corredor. Sabia quando o almoço ou café seria servido pelo barulho do carrinho da cozinha. Sabia também quando a máquina portátil de raio-x chegaria ou se era o carrinho dos curativos ou o da faxina. Meu jovem amigo arrastava os chinelos, sua única vestimenta, e um pesado suporte de soro. A hora depois do almoço era sua escolhida para me visitar, conversar um pouco e ver o jornal do meio-dia na TV. Se você já esteve num hospital e observou como são os roupões que os pacientes usam então pode imaginar. Todos passaram a conhecer o traseiro do garoto, pois ele nem se preocupava em amarrar a parte de trás do avental, afinal não era sua culpa se o tinham deixado sem roupas. E não eram apenas os passantes do Corredor que conheciam essa parte da anatomia do fugitivo de plantão. Quem andasse pela av. Assis Brasil e olhasse para cima também poderia ver sua magra buzanfa, pois seu lugar escolhido para sentar era sempre a janela do quarto.
      Até que um dia meu vizinho não apareceu. Tampouco veio no dia seguinte, quando teria jogo na televisão, e nem no outro. Imaginei que tivesse dado alta, embora ele não tenha comentado nada sobre isso em nossa última conversa. Então eu soube, através de uma das enfermeiras. Como todo grande fugitivo cinematográfico que se preze, o do Corredor também tinha seus cúmplices. Não precisou subornar o guarda nem o cara da lavanderia ou seduzir a chefe da enfermaria. Uma ligação a cobrar do orelhão do Corredor para um primo e as roupas necessárias para a fuga chegariam no próximo horário de visitas. Saiu bem vestido pela porta da frente, sem ser incomodado por ninguém. 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Bailão do Branco


 (Jou Silveira)
            
Num arroz com galinha em homenagem ao Jacaré, um campeão local de palitinho, fiquei sabendo de um caso, semelhante ao do performático Sombra, motorista de táxi e instrumentista (tocava maracas com um terninho verde lindíssimo), que costumava frequentar a casa da amante entrando pela janela do quarto, sempre à noite, em horário combinado, e que, ao descobrirem, arredaram a tampa do poço negro, que ficava debaixo da janela do quarto, fazendo com que este, ao tomar impulso para saltar, quase morresse afogado.
            Por volta de 1972, Nazareno Minuto, um caminhoneiro e gaiteiro dos bons, costumava tocar no Bailão do Branco, de propriedade de Orondino Moura, seu sogro, quando depois de algumas doses de cachaça com açúcar, e aproveitando um intervalo para descansarem os músicos, resolve ir ao banheiro (o banheiro masculino ficava fora do salão, a tradicional casinha, que consistia de um banco de madeira com um buraco no meio, em cima de um buraco fundo, cercado e coberto como uma casa pequena). Chegando ao pátio deparou-se com uma novidade: como a luz era escassa, o proprietário estendera um fio de arame, da porta dos fundos até o sanitário, ou patente, como chamavam, à altura dos ombros, servindo de corrimão para os usuários.
            Reiniciado o baile, logo o Orondino percebeu que começaram a sumir os homens. Amuado, deu-se por vencido, pois fora avisado que haveria um grande fandango no CTG Fogo de Chão, e que, portanto, não seria indicado concorrer.
            Lá pelas duas horas, restando pouquíssimos homens no salão, e já escasseando o mulherio, resolve encerrar o baile e recolher-se.
            Na manhã do dia seguinte, ao chegar ao pátio, percebeu um grande buraco em frente ao banheiro. Ao investigar o estranho acidente, entendeu o porquê da evasão da noite anterior. O Nazareno tinha afastado o banheiro, assim como aumentado o corrimão, mais ou menos um metro, fazendo com que os que seguissem o arame não mais pudessem voltar ao baile, já que, cagados até o pescoço, só tinham o chuveiro como rumo.
            O Orondino partiu dessa pra melhor logo após o ocorrido sem conhecer o autor da façanha, pois, segundo afirmam, era de gênio ruim e teria dado fim no querido genro.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Palavras Presentes

Publico um conto que escrevi há alguns anos e foi classificado em um concurso de Porto Alegre. Pouco mais de duas páginas, mas até que é bonitinho.



                                    Palavras Presentes



André e Laura eram colegas na faculdade. Sentavam-se lado a lado nas três noites da semana em que ele tinha aula. Por questões de economia, André achou mais prudente fazer apenas três cadeiras - no próximo semestre faria todas, não queria ser daqueles alunos que ficam metade da vida na universidade ocupando apenas algumas noites por semana. Tinha planos, e eles não podiam esperar muito.
Estavam no terceiro semestre do curso de Letras. Laura queria ser professora. André, escritor. Embora estudassem juntos desde o primeiro semestre - na época André tinha um emprego que remunerava melhor e podia pagar todas os créditos - foi a partir de um curso de extensão sobre redação narrativa que os dois ficaram amigos. As aulas eram ministradas aos sábados pela manhã e por Laura ser a única da turma que conhecia, André achou melhor sentar-se ao seu lado para não ficar tão deslocado na sala onde todos lhe eram estranhos, pois a maioria era  de alunos de outras turmas e até de outras universidades. A partir daí faziam os trabalhos sempre juntos, ora em dupla, ora em grupo com outros colegas, tanto na turma do curso de redação como nas aulas da noite. O curso de extensão durou poucas semanas, mas os dois tornaram-se bons amigos dentro da universidade. Fora dela, nunca se viram.
Sabiam tudo um do outro, ou, ao menos, tudo o que estavam dispostos a revelar sobre si. André sabia que Laura tinha um namorado. Falou dele algumas vezes. Mostrou fotos no celular, apontou defeitos, qualidades, gostos e desgostos. André conhecia Marcus através de Laura. Um dia vou apresentá-lo a você, tinha dito a colega. Vocês têm muito em comum, vão se dar bem. Até torcem pelo mesmo time, vejam só. Assim ele me deixará em paz quando o assunto for futebol e você poderá ir aos jogos com ele. André ouvia a tudo com a atenção que um verdadeiro amigo dedica aos assuntos do outro. Laura analisava e comparava os dois. Dizia que tinham mesmo gosto musical, gostavam de cinema, de vídeo-game, detestavam acompanhar mulheres às compras e dispensavam bife de fígado no almoço. Mas havia outra paixão comum aos dois que Laura ignorava, e que André não estava disposto a revelar. Combinaram várias vezes de saírem juntos, Laura iria apresentar umas amigas a André. Quem sabe não desse certo e poderiam (seria ótimo) sair os quatro juntos, programas de casais, essas coisas. André apenas concordava e sorria: é, seria mesmo ótimo.
André passou a admirar Marcus, o namorado de sua colega. Estavam juntos há cinco anos, e alguém que pudesse ter a companhia daquele sorriso (Sabe do que sinto mais falta nos dois dias da semana em que não tenho aula? Do teu sorriso.) por todo esse tempo merecia, verdadeiramente, sua admiração. Não tinha ciúmes, não se achava com esse direito, nem inveja, mas não pretendia conhecê-lo pessoalmente. Gostava de pensar que Marcus era apenas uma foto no celular ou histórias românticas de uma revista barata para adolescentes apaixonadas. Às vezes, por cortesia ou até por interesse genuíno, André perguntava pelo outro, mas logo mudavam de assunto e falavam sobre outras coisas. Estar perto dela por algumas horas e provar daquele sorriso por alguns minutos o deixavam feliz. Teve várias namoradas e todas por pouco tempo. Com Laura, se tivesse alguma chance, talvez não fosse diferente. Ou enjoava da garota ou enjoavam dele. Nunca contou pra ninguém sobre seus sentimentos por Laura, e para ela tentava não deixar transparecê-los. Já tivera amores silenciosos antes, talvez não tão intenso como esse, embora os outros, à época, pareciam ter a mesma força. Acreditava na sinceridade desses silêncios. Sabia que palavras atiradas a esmo não significavam nada. Não queria ser óbvio e perder o respeito da amiga, nem atrapalhar um namoro que, até onde sabia, ia muito bem, embora jamais falassem em casamento.
Certa noite, quando se aproximava o final do semestre (Você tem meu telefone mas nunca me ligou. Vê se me telefona nessas férias pra gente se ver, quem sabe consigo te apresentar o Marcus, ele quer te conhecer, de tanto que falo em você), André estava dando os último retoques em um trabalho de História da Literatura Ocidental. Não entendia por que tinha que aprender aquelas bobagens para se tornar um escritor e resolveu deixar para última hora. Com alguma boa vontade da professora talvez alcançasse a nota de que precisava. Mais alguns arranjos e estava pronto. Estava sentado num banco desses de praça num canto menos barulhento do pátio. Faltavam poucos minutos para o início da aula. Observou alguns erros de ortografia (ora, que belo escritor) e não tinha mais tempo de refazê-lo. Apanhou o frasco do líquido corretivo de dentro da mochila e o segurou com os dentes para abri-lo, pois a outra mão estava ocupada com a caneta. Deve ter apertado um pouco o tubo de plástico com os dentes para, com a mão, desenroscar a tampa, porque sentiu o cheiro forte do diluente que lhe entrava pela garganta e lhe fez arder as narinas e os olhos. Jogou o tubo no chão e esfregou os olhos vermelhos. A sensação o fez lembrar de quando experimentara lança-perfume num baile de carnaval no interior. Quando levantou a cabeça, ainda meio tonto, viu que alguém estava em pé a sua frente, com ares de preocupado. André, o que houve? Você está chorando? André tentou sorrir, mas só o que conseguiu foi um sorriso meio nauseado não foi nada, está tudo bem. É só que... Laura então senta ao seu lado, no banco, e toca o rosto do amigo. Uma lágrima tímida que estava ainda presa nos cílios escuros foi logo afastada pelo dedo suave da garota. Seus rostos estavam a poucos centímetros um do outro, e André sentiu o hálito de algodão-doce da colega. Foi quando faltou luz. Alguém gritou lá longe, mas o garoto não ouviu. Tudo o que via era o rosto próximo de Laura e o brilho de seu sorriso que valem por um milhão de estrelas. Conta pra mim, André. Então ele pensou que se foda e a beijou. Beijou-a como fazia em seus sonhos, em seus contos, em seus pensamentos. Foi, além de um beijo, o desabafo de um coração, de uma alma, de um corpo. Afastaram-se depois de alguns segundos e ficaram quietos, apenas se olhando. Não havia espanto no rosto de Laura, nem raiva, nem censura. Apenas o sol que brilhava no sorriso que apagou quando a energia foi restaurada. Alguém gritou ao longe outra vez em meio a assovios, e saídos do transe levantaram-se do banco num salto Vamos nos atrasar para a chamada e correram para o prédio. Na pressa em juntar seu material, André não percebeu o frasco de Errorex caído no chão.
Durante as poucas noites que faltavam para acabar o semestre não falaram sobre o que aconteceu. Ainda sentavam lado a lado, conversavam, sorriam, e o nome de Marcus não apareceu nas conversas. Na última noite de aula, como faziam ao final de cada noite durante o semestre, foram juntos até o portão da faculdade, (sempre se despediam com um beijo no rosto). Ficaram segundos de frente um para outro, apenas se olhando. Alguns colegas passaram por eles, tapinhas nas costas, tchau, bom feriado, me liga – vamos sair qualquer dia.. Laura queria falar algo, precisava, Olha, André, eu... Shhhh, tudo bem, Laura, e tocou seu rosto pela última vez. Um carro buzinou perto. Um homem abriu a porta e desceu, acenando. É o Marcus, veio me buscar, falou, sem seu sorriso de estrelas. Está atrapalhando o trânsito. È melhor eu ir, outro dia eu apresento vocês. Combinado, eu te ligo. André... O que? Vou sentir... Eu sei, também vou. E despediram-se sem beijo.
André e Marcus nunca foram apresentados. Laura e André não se viram nas férias. Nem no próximo semestre, e nem no seguinte. Laura se formou sem nunca mais ter tido notícias do amigo. Contrariando as expectativas, não casou com Marcus. Dava aulas em uma escola do bairro e fazia pós-graduação na mesma faculdade em que se formara. Estava em sua casa onde morava sozinha corrigindo algumas provas quando bateram na porta. Abriu e não tinha ninguém. Talvez fosse o vento. Fazia frio, fechou o casaco até em cima enquanto fechava também a porta quando viu o pacote no chão. Olhou para fora de novo, não havia ninguém na rua, exceto um homem que já ia longe, caminhando apressado pela calçada.
Apanhou o embrulho azul e entrou para o calor da casa. Arrumou com a mão os cabelos revoltos pelo vento e sentou-se no sofá de dois lugares da sala de estar. Rasgou o papel do embrulho e colocou o livro sobre as pernas e ficou por alguns segundo olhando para o título: Palavras Presentes e Outros Contos, de André Serrado, escrito em letras cinza. Abriu o exemplar e leu a dedicatória, na primeira página em branco. Dizia Para Laura, por todas as palavras não ditas, mas que estiveram sempre presentes. Um marcador de páginas, negro como a capa do livro, a fez abrir o volume na página indicada. Era o conto-título. Laura acomodou-se no sofá e começou a leitura:






                                  Palavras Presentes




André e Laura eram colegas na faculdade. Sentavam lado a lado nas três noites da semana em que ele tinha aula. Por questões de economia, André achou mais prudente fazer apenas três cadeiras - no próximo semestre faria todas, não queria ser daqueles alunos que ficam metade da vida na universidade ocupando apenas algumas noites por semana. Tinha planos, e eles não podiam esperar muito.





terça-feira, 21 de agosto de 2012

A Cura


Jou Silveira
            Essa aconteceu nos anos 90. Na época trabalhava em Porto alegre, e um amigo, o Nereu, casado, esposa grávida na época, se apaixonou por uma colega de trabalho, e aí foram tempos de assédio (à colega), conversas (comigo), e porres (nossos), com muito choro. Nessa turbulência saí de férias.
            Poucos dias antes de retornar das férias, o Nereu me telefonava diariamente e, desesperadamente, me dizia que assim que colocasse meus pés em Porto Alegre, eu precisava avisá-lo.
            Chegando na capital, segunda – feira, renovado, de mala e cuia, trabalhei o dia todo e depois fomos para um bar para que ele então pudesse desabafar.
            De tanto tentar, a colega acabou cedendo e ele então teve uma noite inesquecível, e como todo apaixonado, já tinha começado a fazer planos, que incluía a separação, mudança de endereço, e muito sexo, mas eis que, quando ele tinha preparado uma segunda noite melhor ainda, a colega estraçalhou, dizendo: “Tu já não teve o que queria?” Nessa altura, 12 chopes contados, o Nereu com lágrimas nos olhos, foi então que tive a idéia da cura para aquela  dor terrível. Falei: Tu precisa encontrar outra paixão prá curar essa. E então ele falou: Vamos prá noite.
            E eu de mala e cuia numa segunda-feira, mas o que não se faz por um amigo.
            E lá estávamos, quase perdendo a esperança, quando ele encontrou outra paixão, e se mandou. Fiquei ali, terminando minha cerveja, 2h da manhã, quando me lembrei que minha mala e minha pasta, com carteira, talão de cheques e chave de casa tinham ficado no carro do Nereu. Só me restou a negociação. Procurei o dono do bar, expliquei a situação, e disse que só tinha o relógio para deixar como garantia, pois a conta não tinha sido paga, e eu retornaria no dia seguinte para pagar e resgatar o relógio. O sujeito pensou um pouco, acho que estava escolhendo o rumo, e para minha sorte ele falou: “Cara, se tu mora mesmo onde tu me contou (a distância era de aproximadamente 4 km), e tá sem grana, se tu aparecer aqui amanhã, pode levar o relógio que eu não vou te cobrar nada.
            Nunca caminhei tanto e tão rápido, mas no outro dia recuperei o relógio, que não pagava duas cervejas de tão muquirana.
            E do Nereu, a última notícia que tive foi de que continua casado, e o guri, apesar de colorado, deve estar com uns 15 anos de idade.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Memórias de Corredor 2 - O Segundo Quarto

(Publicado no Diário Popular de  25 de agosto) 
Quando um acidentado chega na emergência de um hospital em estado grave, as decisões dos médicos devem ser tomadas com rapidez. Nem sempre o problema é aparente em um politraumatizado. Às vezes a hemorragia é percebida, mas não se sabe a causa, então o paciente é “aberto” do tórax ao ventre para que o problema seja encontrado, e uma vez que isso acontece, retira-se ou trata-se o órgão afetado, devolve-se tudo para o seu lugar e costura-se. Isso explicava meu corte no abdômen.
          Não lembro da pessoa que assumiu o leito do Daniel, mas logo em seguida que ele deu alta eu fiz a segunda cirurgia (a primeira foi na emergência, quando extraíram meu baço e trinta por cento do fígado). Mas aquela, quando fui operar o braço direito, era a primeira vez que eu via uma sala de cirurgia, pelo menos consciente. Os azulejos eram todos verdes, como as roupas dos médicos e enfermeiras. A mesa cirúrgica é bem estreita e dura, e tem aquele refletor bem acima da gente. No lado, um monte de aparelhos medidores, cheio de números e luzes indicadoras. Veio a anestesia, uma seringa tabacuda e uma agulha sem fim aplicada no pescoço. Dormi, e quando acordei ainda estava na mesa. Levaram-me para a sala de recuperação e quando consegui sentir o braço e mexer os dedos, fui pro meu quarto novo, o segundo quarto do corredor.
          Era o último à direita e tinha a metade do tamanho do que ocupei com o Daniel, porém este era só meu. Ali seria minha casa: tinha TV e videocassete (sim, videocassete, pois estávamos em 1993) . Meu pai trazia os filmes da videolocadora Broadway, que ficava na Av. Assis Brasil, no bairro Cristo Redentor, a poucas quadras do hospital. Na época das festas de fim de ano a tal locadora fechou por quinze dias e a promoção era alugar quantos filmes quisesse pelo preço de uma diária. Meu pai chegou com uns trinta filmes. Entre um curativo e outro, um filme sempre caia bem.
         Mas o melhor horário, para mim, ainda era o momento de receber visitas. Meu quarto ficava sempre cheio, algumas pessoas, às vezes, tinham que ficar no corredor. Das 13h às 14h era o momento da festa. As enfermeiras não gostavam muito, diziam que cansava o paciente, que atrapalharia a recuperação e tal. Discordava. Era dessa horinha que eu tirava forças e ânimo para enfrentar aquilo tudo. Por isso não se acanhe. Se tiveres algum parente ou amigo enfermo, no hospital ou em casa, faça-lhe uma visita, quinze minutinhos do seu tempo não vão lhe deixar mais pobre, mas irá enriquecer e muito a pessoas que os receber.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Chafariz Seco

Jou Silveira

Numa dessas sextas-feiras, em assembleia no Esquina dos Gordos, bar de heterogênea freguesia, já que fica, ou é, uma parada de ônibus, ouvi de um amigo, experiente profissional do copo e de causos, um causo merecedor de registro.
                Corria o ano de 83 na cidade de Pedro Osório, assim como no resto do mundo; vale salientar que muito do que acontece na referida cidade, não acontece no resto do mundo; e como é rotineiro em todas as segundas-feiras, ocorre a assembleia dos vereadores.
                Pois bem, entre os presentes estavam os vereadores Élvio Guerra Machado, conhecido como Cavaquinho, e Guaracy Uminski.
                Depois de exaustivas discussões sobre a pauta do dia, foi trazido pelo Guaracy, homem de profundos conhecimentos topográficos de balcões, uma dúvida que estava proporcionado-lhe horríveis pesadelos, sendo que em vários deles afogava-se; e dizem as más línguas, acordava agarrado ao copo da dentadura.
                Por quê o chafariz da Praça Antonio Satte Alam é seco, não tem uma gota de água, e segundo ele, isto estava, inclusive, atrapalhando a educação das crianças da cidade, já que em todas as outras cidades o chafariz tem água, sendo que o de Arroio Grande tem mais água que as piscinas do Clube Aquático daquela cidade.
                Sensibilizado com a ansiedade do colega, eis que o Cavaquinho, este graduado em relações públicas, intervém prontificando-se em procurar o engenheiro da prefeitura para que este esclarecesse esta dúvida que estava devastando as noites do nobre colega.
                Ao encontrar o engenheiro no dia seguinte, terça-feira, interpelou-lhe solicitando o devido esclarecimento, e eis que ouve a seguinte resposta: Este é um problema da lei da gravidade.
                Satisfeito, embora sem entender o que isto queria dizer, amargou noites insones esperando a próxima assembléia na segunda-feira , já que não conseguiu quórum para uma extraordinária, pois chovia muito naquela semana, e todos estavam cuidando o rio que subia assustadoramente.
                Na segunda-feira foram buscá-lo em casa, tal era a curiosidade do plenário.
                Lá chegando não houve tempo nem para comentar o jogo de domingo no Estádio Mimosa Rodrigues (tinha fechado um pau entre todo o time do Internacional de Arroio Grande e o Piratini), que foram logo querendo saber qual o grande mistério que escondia o único chafariz seco do mundo, e o Cavaquinho não se rogou, lascando textualmente:”É um problema da lei da gravidade”.
                Ao ouvir o relato, que resolveu uma dúvida e criou outra, o Guaracy interpelou em tom solene dizendo:  Deixa como está que essa lei eu conheço, essa é federal.
                Hoje quem for na Praça Antonio Satte Alam, em Pedro Osório, vai encontrar o único chafariz aterrado que se tem notícia.
                

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Memórias de Corredor - A Tração Fatal

(Publicado no Diário Popular de 18 de agosto)

Meu primeiro quarto no corredor era compartilhado. Minha cama ficava junto à parede oposta à porta, de modo que eu, com algum esforço, podia ver o movimento do corredor. Meu companheiro de quarto se chamava Daniel, e sua cama ficava na parede perpendicular, e dessa forma podíamos conversar. A Janela ficava na “minha” parede, aos pés do meu leito, mas nem eu nem o Daniel conseguíamos enxergar o lado de fora. Minha situação era a seguinte: um corte já suturado que subia do púbis até a altura do externo; o braço direito fraturado e com tala de gesso; e a perna direita, também fraturada,  estendida sobre uma minimaca. Um ferro da espessura de um lápis atravessava o calcanhar e, preso a ele, uns pesos desses que se usam em balanças antigas pendiam para fora da cama, tinham a função de impedir que o osso “soldasse” erradamente. A este mecanismo chamam de “tração”. De resto, afora uns arranhões e uns pontinhos aqui e outros ali, tudo corria bem.
       Das condições de Daniel eu sabia um pouco. Diferentemente de mim, ele não recebia curativos, não tinha tubos e agulhas espetados no corpo e conseguia sair da cama para ir ao banheiro tomar banho e fazer suas obrigações fisiológicas. Suas duas pernas eram defeituosas, tortas, de maneira que se locomovia com auxilio de muletas ou andador. Conversa vai, conversa vem, descobri que ele caiu de certa altura fraturando os dois membros e, sei lá por que, sua família optou por não levá-lo ao hospital, resultando na calcificação dos ossos de maneira totalmente errada. Agora ele estava ali para reparar o dano e esperava o momento de sua cirurgia.
       Como meu caso era um tanto complicado, o hospital permitiu que eu ficasse na companhia de um familiar durante as vinte e quatro horas do dia.  Já o meu colega de quarto passava a maior parte do tempo sozinho, pois seus parentes moravam longe. Minhas companhias, então, passaram a ser também as de  Daniel. Ajudavam-no com o que precisasse, alcançando-lhe o café, um copo d’água, uma revista, o que ele necessitasse. Meu pai, que gosta e aprecia um bom bate-papo, conversava bastante com ele. Pode-se até dizer que eram amigos.
       Gente boa, o Daniel. Humilde, se interessava bastante pelo meu estado. Parecia sentir minhas dores, que eram algumas. A cada curativo, aplicação de medicamento ou outra intervenção qualquer, ele perguntava como eu estava me sentindo. Mas uma coisa lhe chamava mais a atenção e o fascínio: a tração presa no meu calcanhar. Interessava sobremaneira a sensação que aqueles pesos causavam. Dói? (incomoda um pouco). Doeu pra colocar? (não vi quando colocaram). Como será que foi? (com furadeira, acho). Eu notava que às vezes ele ficava quieto um tempão, com os olhos fixos aparelho.
        Finalmente marcaram a cirurgia de Daniel. Sua mãe não tinha permissão para dormir no hospital, mas viria na manhã da operação. Na véspera, o médico apareceu para explicar o procedimento. Suas pernas seriam cirurgicamente quebradas para depois serem corrigidas. E colocariam uma tração. Pra quê?! Daniel não dormiu a noite toda. Passou a madrugada olhando a minha tração, hipnotizado. No outro dia, na manhã da cirurgia, chegou meu pai trazendo numa bandeja deliciosos biscoitos e parou na cama de Daniel para lhe desejar uma boa operação quando, como um gato, o garoto avançou na bandeja e enfiou três biscoitos na boca. Meu pai nem teve tempo de protestar. Disse que ele não podia comer, pois em minutos seria operado, e se comesse a cirurgia seria cancelada. Ao que ele responde, triunfante, com a boca cheia de bolacha e cuspindo farelos pelo quarto:
             - Exatamente! Exatamente.
            Nunca mais ouvi falar do Daniel. Foi embora na tarde daquele mesmo dia com sua mãe, e desconfio que jamais chegou a fazer a cirurgia.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


Bullying

(Publicado no Diário Popular de 12 de agosto.)
Na minha escola tinha negros. Tinha, também, brancos e pardos. Havia gordinhos, magrinhos, baixinhos, tinha até um que parecia um poste de tão alto. No fundão sentava um garotinho com problema de gagueira, e bem na frente, pertinho do quadro negro, sentava outro que usava um desses óculos de lentes bem grossas. Na minha escola tinha até uma garotinha que usava essas botinhas estranhas para corrigir o pezinho torto.
                Na minha escola havia, ainda, aquele menino que não sabia jogar bola, que não sabia pular corda, que mal sabia correr e que na hora do jogo do futebol ficava sozinho no canto do pátio, com um gibi nas mãos; esse garotinho tirava 10 em matemática. Sempre!
              No meu colégio tinha aluno pobre e tinha aluno rico. Tinha alunos descalços e outros com sapatos caros. Porém, acima de tudo, no meu colégio tinha educação. Se tinha bullying, nunca ouvi falar.
             A palavra valentão (em inglês, bully) deu origem ao termo. Velentões sempre existiram, mas as escolas tinham seus próprios meios para coibirem seus excessos. Hoje não é mais assim. O Estado, através de estatutos, regulamentos, portarias, normas e não sei que tipo mais de expediente insiste em meter o nariz burocrático onde não é chamado. Suprimiu-se do professor a tarefa de educador. Agora ele, o mestre, está na sala de aula apenas para ler livros didáticos e aplicar as provas, e se o aluno rodar aplica-se outra, e outra e mais outra, até a aprovação. Nem saber ler direito mais é preciso. Hoje não existe mal aluno, o professor é que é ruim. Antigamente, se eu chegasse em casa com uma advertência da diretoria, o famoso “papelzinho para o pai assinar”,  minhas orelhas eram puxadas. Hoje, os pais querem puxar as orelhas do professor, com o aval do Estado. E como diria o gênio do humor: e o salário, ó!
         Mas estou tergiversando, pois minha intenção era, e ainda é, analisar o bullying, e não os métodos atuais de educação escolar. Tolerar e respeitar as diferenças sempre foram tarefas difíceis para o homem, e parece que, hoje, essas diferenças aumentaram ou, por outra, ficaram mais explícitas. Porém, quando se usa da violência gratuita – e toda violência me parece ser gratuita – para intimidar, ofender, atacar, ou simplesmente para machucar um ilusório oponente (ilusório, porque é só na mente doentia do agressor que o “seu diferente” é um inimigo) uma outra falha social vem à luz: a educação familiar. Eis aí a fonte do problema, e até nela, na educação familiar, o Estado tenta se intrometer (vide Lei da Palmada). Óbvio que não é regra, mas tampouco é exceção: famílias desestruturadas geralmente geram filhos propensos a terem algum tipo de problema social, independente da classe econômica. E não adianta apenas dar roupa, comida, escola e mesada. Amor é fundamental, mas bons exemplos são essenciais. Como disse alguém: sempre nos perguntam que tipo de mundo queremos deixar para nossos filhos, mas ninguém questiona que tipo de filhos queremos deixar para o mundo.