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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Memórias de Corredor 2 - O Segundo Quarto

(Publicado no Diário Popular de  25 de agosto) 
Quando um acidentado chega na emergência de um hospital em estado grave, as decisões dos médicos devem ser tomadas com rapidez. Nem sempre o problema é aparente em um politraumatizado. Às vezes a hemorragia é percebida, mas não se sabe a causa, então o paciente é “aberto” do tórax ao ventre para que o problema seja encontrado, e uma vez que isso acontece, retira-se ou trata-se o órgão afetado, devolve-se tudo para o seu lugar e costura-se. Isso explicava meu corte no abdômen.
          Não lembro da pessoa que assumiu o leito do Daniel, mas logo em seguida que ele deu alta eu fiz a segunda cirurgia (a primeira foi na emergência, quando extraíram meu baço e trinta por cento do fígado). Mas aquela, quando fui operar o braço direito, era a primeira vez que eu via uma sala de cirurgia, pelo menos consciente. Os azulejos eram todos verdes, como as roupas dos médicos e enfermeiras. A mesa cirúrgica é bem estreita e dura, e tem aquele refletor bem acima da gente. No lado, um monte de aparelhos medidores, cheio de números e luzes indicadoras. Veio a anestesia, uma seringa tabacuda e uma agulha sem fim aplicada no pescoço. Dormi, e quando acordei ainda estava na mesa. Levaram-me para a sala de recuperação e quando consegui sentir o braço e mexer os dedos, fui pro meu quarto novo, o segundo quarto do corredor.
          Era o último à direita e tinha a metade do tamanho do que ocupei com o Daniel, porém este era só meu. Ali seria minha casa: tinha TV e videocassete (sim, videocassete, pois estávamos em 1993) . Meu pai trazia os filmes da videolocadora Broadway, que ficava na Av. Assis Brasil, no bairro Cristo Redentor, a poucas quadras do hospital. Na época das festas de fim de ano a tal locadora fechou por quinze dias e a promoção era alugar quantos filmes quisesse pelo preço de uma diária. Meu pai chegou com uns trinta filmes. Entre um curativo e outro, um filme sempre caia bem.
         Mas o melhor horário, para mim, ainda era o momento de receber visitas. Meu quarto ficava sempre cheio, algumas pessoas, às vezes, tinham que ficar no corredor. Das 13h às 14h era o momento da festa. As enfermeiras não gostavam muito, diziam que cansava o paciente, que atrapalharia a recuperação e tal. Discordava. Era dessa horinha que eu tirava forças e ânimo para enfrentar aquilo tudo. Por isso não se acanhe. Se tiveres algum parente ou amigo enfermo, no hospital ou em casa, faça-lhe uma visita, quinze minutinhos do seu tempo não vão lhe deixar mais pobre, mas irá enriquecer e muito a pessoas que os receber.

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