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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Memórias de Corredor - A Tração Fatal

(Publicado no Diário Popular de 18 de agosto)

Meu primeiro quarto no corredor era compartilhado. Minha cama ficava junto à parede oposta à porta, de modo que eu, com algum esforço, podia ver o movimento do corredor. Meu companheiro de quarto se chamava Daniel, e sua cama ficava na parede perpendicular, e dessa forma podíamos conversar. A Janela ficava na “minha” parede, aos pés do meu leito, mas nem eu nem o Daniel conseguíamos enxergar o lado de fora. Minha situação era a seguinte: um corte já suturado que subia do púbis até a altura do externo; o braço direito fraturado e com tala de gesso; e a perna direita, também fraturada,  estendida sobre uma minimaca. Um ferro da espessura de um lápis atravessava o calcanhar e, preso a ele, uns pesos desses que se usam em balanças antigas pendiam para fora da cama, tinham a função de impedir que o osso “soldasse” erradamente. A este mecanismo chamam de “tração”. De resto, afora uns arranhões e uns pontinhos aqui e outros ali, tudo corria bem.
       Das condições de Daniel eu sabia um pouco. Diferentemente de mim, ele não recebia curativos, não tinha tubos e agulhas espetados no corpo e conseguia sair da cama para ir ao banheiro tomar banho e fazer suas obrigações fisiológicas. Suas duas pernas eram defeituosas, tortas, de maneira que se locomovia com auxilio de muletas ou andador. Conversa vai, conversa vem, descobri que ele caiu de certa altura fraturando os dois membros e, sei lá por que, sua família optou por não levá-lo ao hospital, resultando na calcificação dos ossos de maneira totalmente errada. Agora ele estava ali para reparar o dano e esperava o momento de sua cirurgia.
       Como meu caso era um tanto complicado, o hospital permitiu que eu ficasse na companhia de um familiar durante as vinte e quatro horas do dia.  Já o meu colega de quarto passava a maior parte do tempo sozinho, pois seus parentes moravam longe. Minhas companhias, então, passaram a ser também as de  Daniel. Ajudavam-no com o que precisasse, alcançando-lhe o café, um copo d’água, uma revista, o que ele necessitasse. Meu pai, que gosta e aprecia um bom bate-papo, conversava bastante com ele. Pode-se até dizer que eram amigos.
       Gente boa, o Daniel. Humilde, se interessava bastante pelo meu estado. Parecia sentir minhas dores, que eram algumas. A cada curativo, aplicação de medicamento ou outra intervenção qualquer, ele perguntava como eu estava me sentindo. Mas uma coisa lhe chamava mais a atenção e o fascínio: a tração presa no meu calcanhar. Interessava sobremaneira a sensação que aqueles pesos causavam. Dói? (incomoda um pouco). Doeu pra colocar? (não vi quando colocaram). Como será que foi? (com furadeira, acho). Eu notava que às vezes ele ficava quieto um tempão, com os olhos fixos aparelho.
        Finalmente marcaram a cirurgia de Daniel. Sua mãe não tinha permissão para dormir no hospital, mas viria na manhã da operação. Na véspera, o médico apareceu para explicar o procedimento. Suas pernas seriam cirurgicamente quebradas para depois serem corrigidas. E colocariam uma tração. Pra quê?! Daniel não dormiu a noite toda. Passou a madrugada olhando a minha tração, hipnotizado. No outro dia, na manhã da cirurgia, chegou meu pai trazendo numa bandeja deliciosos biscoitos e parou na cama de Daniel para lhe desejar uma boa operação quando, como um gato, o garoto avançou na bandeja e enfiou três biscoitos na boca. Meu pai nem teve tempo de protestar. Disse que ele não podia comer, pois em minutos seria operado, e se comesse a cirurgia seria cancelada. Ao que ele responde, triunfante, com a boca cheia de bolacha e cuspindo farelos pelo quarto:
             - Exatamente! Exatamente.
            Nunca mais ouvi falar do Daniel. Foi embora na tarde daquele mesmo dia com sua mãe, e desconfio que jamais chegou a fazer a cirurgia.

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