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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Memórias do Corredor 3 – O Fugitivo



 (Publicado no Diário Popular em 30 de agosto)
Depois de dois meses internado era normal que minhas visitas diminuíssem, afinal eu já estava bem e fora de perigo. Faltava apenas a cirurgia da perna, quando seria retirada a tração que tanto apavorou Daniel. Por ser a mais complicada foi deixada por última. No entanto, embora minhas visitas de parentes e amigos tenham diminuído um pouco, o movimento no meu quarto continuava firme e forte. Era comum receber visitas de outros pacientes do corredor, dos que podiam se locomover sozinhos. Sempre um ou outro aparecia pra ver TV, tomar um cafezinho com torradinhas, ler uma revista ou apenas bater um papo e trocar experiências sobre curativos e medicamentos. Afinal, depois de sessenta dias no hospital eu já era considerado condômino.
        Havia um paciente, um jovem sorridente cujo nome me escapa agora, que diariamente aparecia para uma conversa e um filmezinho na TV. Também já era figurinha marcada no hospital e conhecido dos enfermeiros por sua simpatia e por um talento digno de Clint Eastwood em Fuga de Alcatraz: escapava sempre do hospital. Mas desta vez seria diferente. Sua mãe, numa tentativa de evitar suas fugas, deixou o garoto lá sem suas roupas. Pra fugir, só pelado.
       Como eu não saia nunca da minha cama eu aprendi a observar e reconhecer os sons do Corredor. Sabia quando o almoço ou café seria servido pelo barulho do carrinho da cozinha. Sabia também quando a máquina portátil de raio-x chegaria ou se era o carrinho dos curativos ou o da faxina. Meu jovem amigo arrastava os chinelos, sua única vestimenta, e um pesado suporte de soro. A hora depois do almoço era sua escolhida para me visitar, conversar um pouco e ver o jornal do meio-dia na TV. Se você já esteve num hospital e observou como são os roupões que os pacientes usam então pode imaginar. Todos passaram a conhecer o traseiro do garoto, pois ele nem se preocupava em amarrar a parte de trás do avental, afinal não era sua culpa se o tinham deixado sem roupas. E não eram apenas os passantes do Corredor que conheciam essa parte da anatomia do fugitivo de plantão. Quem andasse pela av. Assis Brasil e olhasse para cima também poderia ver sua magra buzanfa, pois seu lugar escolhido para sentar era sempre a janela do quarto.
      Até que um dia meu vizinho não apareceu. Tampouco veio no dia seguinte, quando teria jogo na televisão, e nem no outro. Imaginei que tivesse dado alta, embora ele não tenha comentado nada sobre isso em nossa última conversa. Então eu soube, através de uma das enfermeiras. Como todo grande fugitivo cinematográfico que se preze, o do Corredor também tinha seus cúmplices. Não precisou subornar o guarda nem o cara da lavanderia ou seduzir a chefe da enfermaria. Uma ligação a cobrar do orelhão do Corredor para um primo e as roupas necessárias para a fuga chegariam no próximo horário de visitas. Saiu bem vestido pela porta da frente, sem ser incomodado por ninguém. 

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigado, amigo (ou amiga) pelo comentário, e obrigado por acompanhar o blog. Um abraço e bom final de semana.

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