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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Palavras Presentes

Publico um conto que escrevi há alguns anos e foi classificado em um concurso de Porto Alegre. Pouco mais de duas páginas, mas até que é bonitinho.



                                    Palavras Presentes



André e Laura eram colegas na faculdade. Sentavam-se lado a lado nas três noites da semana em que ele tinha aula. Por questões de economia, André achou mais prudente fazer apenas três cadeiras - no próximo semestre faria todas, não queria ser daqueles alunos que ficam metade da vida na universidade ocupando apenas algumas noites por semana. Tinha planos, e eles não podiam esperar muito.
Estavam no terceiro semestre do curso de Letras. Laura queria ser professora. André, escritor. Embora estudassem juntos desde o primeiro semestre - na época André tinha um emprego que remunerava melhor e podia pagar todas os créditos - foi a partir de um curso de extensão sobre redação narrativa que os dois ficaram amigos. As aulas eram ministradas aos sábados pela manhã e por Laura ser a única da turma que conhecia, André achou melhor sentar-se ao seu lado para não ficar tão deslocado na sala onde todos lhe eram estranhos, pois a maioria era  de alunos de outras turmas e até de outras universidades. A partir daí faziam os trabalhos sempre juntos, ora em dupla, ora em grupo com outros colegas, tanto na turma do curso de redação como nas aulas da noite. O curso de extensão durou poucas semanas, mas os dois tornaram-se bons amigos dentro da universidade. Fora dela, nunca se viram.
Sabiam tudo um do outro, ou, ao menos, tudo o que estavam dispostos a revelar sobre si. André sabia que Laura tinha um namorado. Falou dele algumas vezes. Mostrou fotos no celular, apontou defeitos, qualidades, gostos e desgostos. André conhecia Marcus através de Laura. Um dia vou apresentá-lo a você, tinha dito a colega. Vocês têm muito em comum, vão se dar bem. Até torcem pelo mesmo time, vejam só. Assim ele me deixará em paz quando o assunto for futebol e você poderá ir aos jogos com ele. André ouvia a tudo com a atenção que um verdadeiro amigo dedica aos assuntos do outro. Laura analisava e comparava os dois. Dizia que tinham mesmo gosto musical, gostavam de cinema, de vídeo-game, detestavam acompanhar mulheres às compras e dispensavam bife de fígado no almoço. Mas havia outra paixão comum aos dois que Laura ignorava, e que André não estava disposto a revelar. Combinaram várias vezes de saírem juntos, Laura iria apresentar umas amigas a André. Quem sabe não desse certo e poderiam (seria ótimo) sair os quatro juntos, programas de casais, essas coisas. André apenas concordava e sorria: é, seria mesmo ótimo.
André passou a admirar Marcus, o namorado de sua colega. Estavam juntos há cinco anos, e alguém que pudesse ter a companhia daquele sorriso (Sabe do que sinto mais falta nos dois dias da semana em que não tenho aula? Do teu sorriso.) por todo esse tempo merecia, verdadeiramente, sua admiração. Não tinha ciúmes, não se achava com esse direito, nem inveja, mas não pretendia conhecê-lo pessoalmente. Gostava de pensar que Marcus era apenas uma foto no celular ou histórias românticas de uma revista barata para adolescentes apaixonadas. Às vezes, por cortesia ou até por interesse genuíno, André perguntava pelo outro, mas logo mudavam de assunto e falavam sobre outras coisas. Estar perto dela por algumas horas e provar daquele sorriso por alguns minutos o deixavam feliz. Teve várias namoradas e todas por pouco tempo. Com Laura, se tivesse alguma chance, talvez não fosse diferente. Ou enjoava da garota ou enjoavam dele. Nunca contou pra ninguém sobre seus sentimentos por Laura, e para ela tentava não deixar transparecê-los. Já tivera amores silenciosos antes, talvez não tão intenso como esse, embora os outros, à época, pareciam ter a mesma força. Acreditava na sinceridade desses silêncios. Sabia que palavras atiradas a esmo não significavam nada. Não queria ser óbvio e perder o respeito da amiga, nem atrapalhar um namoro que, até onde sabia, ia muito bem, embora jamais falassem em casamento.
Certa noite, quando se aproximava o final do semestre (Você tem meu telefone mas nunca me ligou. Vê se me telefona nessas férias pra gente se ver, quem sabe consigo te apresentar o Marcus, ele quer te conhecer, de tanto que falo em você), André estava dando os último retoques em um trabalho de História da Literatura Ocidental. Não entendia por que tinha que aprender aquelas bobagens para se tornar um escritor e resolveu deixar para última hora. Com alguma boa vontade da professora talvez alcançasse a nota de que precisava. Mais alguns arranjos e estava pronto. Estava sentado num banco desses de praça num canto menos barulhento do pátio. Faltavam poucos minutos para o início da aula. Observou alguns erros de ortografia (ora, que belo escritor) e não tinha mais tempo de refazê-lo. Apanhou o frasco do líquido corretivo de dentro da mochila e o segurou com os dentes para abri-lo, pois a outra mão estava ocupada com a caneta. Deve ter apertado um pouco o tubo de plástico com os dentes para, com a mão, desenroscar a tampa, porque sentiu o cheiro forte do diluente que lhe entrava pela garganta e lhe fez arder as narinas e os olhos. Jogou o tubo no chão e esfregou os olhos vermelhos. A sensação o fez lembrar de quando experimentara lança-perfume num baile de carnaval no interior. Quando levantou a cabeça, ainda meio tonto, viu que alguém estava em pé a sua frente, com ares de preocupado. André, o que houve? Você está chorando? André tentou sorrir, mas só o que conseguiu foi um sorriso meio nauseado não foi nada, está tudo bem. É só que... Laura então senta ao seu lado, no banco, e toca o rosto do amigo. Uma lágrima tímida que estava ainda presa nos cílios escuros foi logo afastada pelo dedo suave da garota. Seus rostos estavam a poucos centímetros um do outro, e André sentiu o hálito de algodão-doce da colega. Foi quando faltou luz. Alguém gritou lá longe, mas o garoto não ouviu. Tudo o que via era o rosto próximo de Laura e o brilho de seu sorriso que valem por um milhão de estrelas. Conta pra mim, André. Então ele pensou que se foda e a beijou. Beijou-a como fazia em seus sonhos, em seus contos, em seus pensamentos. Foi, além de um beijo, o desabafo de um coração, de uma alma, de um corpo. Afastaram-se depois de alguns segundos e ficaram quietos, apenas se olhando. Não havia espanto no rosto de Laura, nem raiva, nem censura. Apenas o sol que brilhava no sorriso que apagou quando a energia foi restaurada. Alguém gritou ao longe outra vez em meio a assovios, e saídos do transe levantaram-se do banco num salto Vamos nos atrasar para a chamada e correram para o prédio. Na pressa em juntar seu material, André não percebeu o frasco de Errorex caído no chão.
Durante as poucas noites que faltavam para acabar o semestre não falaram sobre o que aconteceu. Ainda sentavam lado a lado, conversavam, sorriam, e o nome de Marcus não apareceu nas conversas. Na última noite de aula, como faziam ao final de cada noite durante o semestre, foram juntos até o portão da faculdade, (sempre se despediam com um beijo no rosto). Ficaram segundos de frente um para outro, apenas se olhando. Alguns colegas passaram por eles, tapinhas nas costas, tchau, bom feriado, me liga – vamos sair qualquer dia.. Laura queria falar algo, precisava, Olha, André, eu... Shhhh, tudo bem, Laura, e tocou seu rosto pela última vez. Um carro buzinou perto. Um homem abriu a porta e desceu, acenando. É o Marcus, veio me buscar, falou, sem seu sorriso de estrelas. Está atrapalhando o trânsito. È melhor eu ir, outro dia eu apresento vocês. Combinado, eu te ligo. André... O que? Vou sentir... Eu sei, também vou. E despediram-se sem beijo.
André e Marcus nunca foram apresentados. Laura e André não se viram nas férias. Nem no próximo semestre, e nem no seguinte. Laura se formou sem nunca mais ter tido notícias do amigo. Contrariando as expectativas, não casou com Marcus. Dava aulas em uma escola do bairro e fazia pós-graduação na mesma faculdade em que se formara. Estava em sua casa onde morava sozinha corrigindo algumas provas quando bateram na porta. Abriu e não tinha ninguém. Talvez fosse o vento. Fazia frio, fechou o casaco até em cima enquanto fechava também a porta quando viu o pacote no chão. Olhou para fora de novo, não havia ninguém na rua, exceto um homem que já ia longe, caminhando apressado pela calçada.
Apanhou o embrulho azul e entrou para o calor da casa. Arrumou com a mão os cabelos revoltos pelo vento e sentou-se no sofá de dois lugares da sala de estar. Rasgou o papel do embrulho e colocou o livro sobre as pernas e ficou por alguns segundo olhando para o título: Palavras Presentes e Outros Contos, de André Serrado, escrito em letras cinza. Abriu o exemplar e leu a dedicatória, na primeira página em branco. Dizia Para Laura, por todas as palavras não ditas, mas que estiveram sempre presentes. Um marcador de páginas, negro como a capa do livro, a fez abrir o volume na página indicada. Era o conto-título. Laura acomodou-se no sofá e começou a leitura:






                                  Palavras Presentes




André e Laura eram colegas na faculdade. Sentavam lado a lado nas três noites da semana em que ele tinha aula. Por questões de economia, André achou mais prudente fazer apenas três cadeiras - no próximo semestre faria todas, não queria ser daqueles alunos que ficam metade da vida na universidade ocupando apenas algumas noites por semana. Tinha planos, e eles não podiam esperar muito.





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