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sábado, 29 de setembro de 2012

Memórias de Corredor 6 - De volta para o hospital.


A porta traseira da ambulância se abriu ainda sob a luz da tarde. Além da minha família, alguns amigos já me esperavam em casa. Carregaram-me até o quarto da minha irmã, onde eu ficaria os primeiros dias. Nas paredes, balões coloridos e cartazes de boas vindas. Logo a casa ficou cheia, amigos e parentes que vieram me visitar e oferecer ajuda no que fosse preciso. O chimarrão fazia roda, e até um violão se materializou. Foi um dia memorável.
      Março ia a trote e o verão persistia. Depois de algum tempo eu troquei de quarto, voltei para onde eu dormia antes de mudar para Porto Alegre. Em minha primeira saída de casa, fui carregado num cadeirão de praia, na caçamba de uma camionete Pampa, do meu primo Mario Madruga, para um bar no Cerrito, onde hoje é o Matrix Pub. Ah!, a primeira cerveja, depois de tanto tempo, desceu justinha. É bom estar em casa.
      Foi legal sair pra rua, aproveitar a noite, beber uma cervejinha com os amigos, encontrar conhecidos e ouvir um som ao vivo. Também era ótimo ficar em casa. Alguns amigos sempre ficavam até tarde, jogando cartas ou dados, ouvindo música, tomando chimarrão, assistindo filme, conversando.
     Abril chegou e chegou também o dia da revisão em Porto Alegre, com o mesmo médico que havia me operado. Estava curioso para sabe o que ele diria sobre o liquido amarelo e espesso que ainda saia de um pequeno vulcão na minha perna.
    Nestas alturas do campeonato eu já estava destro com as muletas. Fomos de ônibus, eu e minha mãe, de Pelotas para Porto. A consulta foi marcada para cedo da manhã. Depois de uma razoável espera no corredor apinhado de gente, fomos atendidos. Fui encaminhado para fazer uns raios-x e orientado a retornar. Nova espera. Como de hábito, abri os exames antes de entrar na sala do médico pela segunda vez naquela manhã, e o que vi realmente me preocupou. O Dr. Mauro, porém, deu sua palavra de especialista, que discordava da minha de leigo: a infecção era superficial e em breve iria estancar, bom retorno, prazer em revê-los, adeus.
      Maio entrou de supetão e em seu primeiro dia levou nosso ídolo, Ayrton Senna. No sétimo fiz 22 anos, com direito a festa surpresa e tudo. Todos meus amigos vieram, alguns de Porto Alegre, até. Ganhei presentes, abraços, beijos e uma namorada. O prato principal da festa na garagem era Churrasco de linguiça, pão e muita cerveja. O resto do mês transcorreu normal, com a chegada das primeiras frentes frias e dos estoques de lenha. O quarto já não era mais o ponto de encontro da gurizada, que agora disputava os espaços perto da lareira.
      Veio junho. Quatro meses após minha saída do Cristo Redentor, quando chegou a hora, quase que tardia, de procurar outro médico. A infecção não cedeu, como tinha dito que cederia o doutor da capital, então fui buscar duas opiniões de especialistas em Pelotas, e o diagnóstico de ambos foi análogo. Dias depois eu entrava no hospital, pela segunda vez, para, literalmente, salvar os meus ossos.  
Primeiro dia em casa

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

As Cem Palavras

Publicado no Diário Popular em 26 de setembro de 2012




Eddie Murphy foi um astro dos anos 1980. Seu filme, Bervely Hills Cop (Um Tira da Pesada), arrecadou milhões de dólares e catapultou sua carreira ao estrelato, tornando-o um dos atores mais bem pagos da época, com apenas vinte e três anos de idade. Estrelou mais alguns sucessos ocasionais e hoje, em minha opinião, é um comediante mediano. Seu mais recente filme, A Thousand Words (As Mil Palavras), será lançado no Brasil em dezembro deste ano. Nele, Murphy faz um agente literário que nunca lê as obras que publica. É do tipo falastrão que acha mais importante falar do que ouvir. Sua vida se transforma quando uma misteriosa árvore aparece em seu jardim, e ele percebe que para cada palavra que fala, uma folha cai da árvore, e quando não restar mais nenhuma, ambos morrerão. Sua personagem passa, então, a economizar palavras até descobrir uma maneira de cessar o “encanto”. Também não adianta escrever, é palavra escrita, folha caída. Seria o fim do Facebook, Twitter e outras redes sociais.
      Já tem algum tempo que esse tipo de filme não me atrai, mas reconheço que o argumento é interessante. Reza a sabedoria popular que nascemos com duas orelhas e uma boca, portanto deveríamos falar menos e ouvir mais. Imagine se cada um de nós tivesse uma árvore como essa do filme, não com mil folhas, mas, digamos, com cem mil. Teríamos, portanto, cem mil palavras para proferir até o nosso último dia de vida. Cem mil. Não são muitas. Só este texto tem mais de quinhentas.
     Como você as usaria? Guardaria algumas para injuriar o seu time de futebol quando ele perder para o rival, que nem é tão bom assim? Reservaria uma ou duas, dentre essas cem mil palavras, para espinafrar o motorista que anda devagar à sua frente, justo no dia em que vai passar o último capítulo da novela que você adora? Ou quem sabe sacaria dois ou três palavrõezinhos para praguejar contra seu vizinho só porque ele resolveu comemorar o aniversário e exagerou um pouco no volume da música?
     Criticar é bem mais fácil do que elogiar, a gente sabe. Do mesmo modo que expressar a raiva, a malquerença e a cólera em palavras é tão mais simples do que manifestar o amor, a admiração e afeto a um parente querido, a um amigo,um colega. Agora, difícil mesmo é saber ouvir.
__________

     Há 155 anos foi fundada no Rio de Janeiro a primeira escola para deficientes auditivos no país, por isso se instituiu o dia 26 de setembro como o Dia Nacional do Surdo, data que relembra a luta por melhores condições de vida, trabalho e educação para os deficientes auditivos. Amanhã quem sopra velinhas é a Escola Especial Professor Alfredo Dub, aqui de Pelotas, a única em toda a região sul que atende essas pessoas que entendem que, muitas vezes, melhor do que falar é demonstrar. Parabéns aos alunos, direção, professores e funcionários da Escola Especial Professor Alfredo Dub pelos 66 anos de dedicação. 

domingo, 23 de setembro de 2012

Estúdio Boss


Esse link é reservado para divulgar meu trabalho de DJ e sonorização. Casamentos, aniversários, palestras, formaturas, pocketshows, etc. Consulte orçamento.
 Cadastramento NCCCPO

 Formatura

 Formatura

 Formatura

Formatura

 I Noite de Paralelos - Projessom

 II Noite de Paralelos - Projessom

Mateada EEGV - Pocketshow Leandro Bittencourt

Mateada EEGV

II Noite de Paralelos

Aniversário EEGV

Aniversário Ferragens Lorenzet

Formatura Martina Ferro

Show banda Mato Cerrado - Matrix Pub

Inauguração Clínica Dr. Thiago Calmon

Inauguração Clínica Dr. Thiago Calmon


sábado, 22 de setembro de 2012

Memórias de Corredor 5 - Volta pra Casa


Foram noventa e seis dias no hospital Cristo Redentor. Lá eu passei Natal, Reveillon, Carnaval e trabalho. Passei de um quarto para outro, passei por mãos de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos. Bem, psicóloga, na verdade.
     Não lembro o nome dela, mas era bem bonita. Recém-formada, creio, pois aparentava ter pouco mais do que meus 21 anos. Gostava do momento em que ela chegava. Entrava, mandava todos saírem e sentava pertinho da minha cama. Sempre perfumada. Incitava-me a falar. E eu falava, falava e falava. Ela então se despedia com um “amanhã eu volto”. Voltava. Então eu falava e falava. Ela ouvia e eu falava. Era só. Não sei se eu precisava desse expediente, em que poderia me ajudar, mas ah!, era bonita a psicóloga, e era bom ficar perto dela.
     O acompanhamento psicológico era oferecido pelo hospital e pago pelo SUS, assim como todo o resto. Apesar das raras visitas do médico, nunca faltou medicamentos de ponta, exames laboratoriais e radiológicos, fisioterapeutas, o carinho dos enfermeiros e enfermeiras, e alimentação adequada. Tudo pelo SUS.
     Falando em alimentação, comida de hospital é boa por um ou       dois dias, depois complica. Almoço às 11h e jantar às 18h é pra acabar com a alegria de qualquer comensal que preze sua gula. Noventa e seis dias numa dieta dessas e eu teria perdido bem mais dos que os quinze quilos contabilizados. Mas eis que surge minha salvadora, a mulher que tornou essa minha estada no hospital menos penosa. A pelotense Fátima Al-Alam era, na época, responsável pelo departamento de assistência social e também pelo setor de nutrição da cozinha hospitalar. Fatima foi uma verdadeira amiga, mais um anjo dentre outros tantos anjos da guarda que encontrei por lá.
Além dos episódios já contados nesta série de memórias, muitas outras lembranças ainda guardo bem nítidas. Os gritos do paciente dependente químico e do barulho que faziam os objetos que ele jogava no chão por causa da crise de abstinência; o suicida que fracassou em seu objetivo de acabar com a própria vida com um tiro no abdômen; lembro da enfermeira que queria me dar banho; e lembro também do enfermeiro que também queria; lembro também dos pacientes que passavam pelo corredor algemados na maca sob a guarda de um policial. E lembro do dia em que dei alta.
       Um dia antes de vir para casa, uma enfermeira apareceu com um aparato que simulava um par de muletas. Depois de 95 dias na horizontal eu tinha que dar uma treinada. Apaguei agarrado naquele treco, um desmaio de dez segundos, se muito. No dia esperado, meu amigo Sandro Borges chegou com a ambulância cedida pela prefeitura, uma Veraneio branquinha e possante, e o tio Mario e o Mario Luiz foram de Voyajão para ajudar com a bagagem.  O motorista da ambulância era o João Barulho, velho amigo da família. Na saída, muitos enfermeiros vieram se despedir, inclusive a Fátima. Vim deitadão na maca, lá atrás, a Veraneio gingando de faceira, e eu mais faceiro ainda - é sempre bom retornar pra casa. Mal podia imaginar eu, naquela festa toda, que ainda voltaria a viver longos dias dentro de um hospital.
Primeiro dia em casa

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Laranjas e Invernos

Publicado no Diário Popular em 22 de setembro de 2012
 (Jou  Silveira)
Parecia que o oriente e o ocidente se cruzariam, quando o cavalo arrancou, na resposta da espora. A manhã fazia força para nascer naquele início de inverno, parecia que nada queria trocar de lugar, os acordados e os dormidos. Quando o sol chegou, surpreendeu os pensamentos já iniciados, sonhadores. Quando ficamos sós por algum tempo, é possível praticar nossa capacidade de resolver problemas; os do mundo, não os nossos, pois esses são queridos e nos ajudam a passar o tempo quando bate a insônia.
Ricardo já estava cansado daquela lida, tinha prometido ao coronel Arzelindo organizar as coisas na estância depois da última compra de gado que ele fizera, mas já fazia algum tempo que não ia para casa, a saudade estava apertando. Ricardo tinha se formado em agronomia, mas sua queda sempre tinha sido pela pecuária, e não resistiu quando esse amigo de seu pai pediu ajuda.
O dia já ia a galope, os rins a doer, quando encontrou um peão, que parecia antigo como a própria estância. Sisudo, mas otimista, falou que o inverno seria rigoroso naquele ano, e que muitos não chegariam ao final da estação (e como é triste uma despedida no inverno), e que muitos nem começariam, por falta de atitude, mas que alguns, se apressassem o passo, poderiam colher algumas laranjas, pois, segundo falou, poderiam ser as mais doces de muitos invernos.
Próximo à estância existe uma pequena cidade, com tudo que se precisa, ou quase tudo, segundo o coronel: farmácia, padaria, hospital, ferragem, e um clube social entre tantos outros atrativos, e nesse clube haveria um baile, no final de semana.
A viagem para casa era um pouco distante para só um fim de semana, e o trabalho já estava quase concluído, então Ricardo resolveu, não só ficar, como também ir ao baile.
O coronel tinha um filho que morava na capital e que eventualmente vinha na fazenda, mas que mantinha um guarda roupa impecável por ser deputado e que, para não ser surpreendido por algum imprevisto, tinha que estar sempre preparado. A escolha de Ricardo foi discreta, um terno azul marinho clássico, e os sapatos, bem, teria que dar um trato nas botas, a sorte é que o homem era do seu tamanho.
A cidade, enfeitada, encantou Ricardo, uma comunidade tão pequena e aquela profusão de luzes e gente era lindo. Logo que o coronel apresentou Ricardo para algumas autoridades, retirou-se, já se sentia cansado para essas coisas dizia ele.
Logo que entrou no clube, foi direto a copa: um uisquinho pra dar uma relaxada, pensou, e ao sorver o primeiro gole trocou olhares com alguém que não poderia ser desse mundo, tal fora o impacto que sofrera. Não pensou duas vezes: ”já que estou aonde o diabo perdeu as botas, não custa dar um abraço nele”, e foi ao encontro daquela mulher.
Poucas palavras. Além de lhe oferecer uma bebida, uma dança, e talvez um beijo, já estava apaixonado. Nunca tinha sentido nada igual, suores, palpitações, e então perguntou seu nome: Laura, ela disse, e beijou-lhe o rosto. Quando recuperou os sentidos lembrou de perguntar as coisas básicas, se era da cidade, se seus pais estavam no baile, se tinha namorado, enfim, qualquer coisa para chamar sua atenção.
Laura era diáfana, algo aparentemente intangível, linda de morrer e distante como o Cairo. A primeira idéia que passou por sua cabeça foi a mudança imediata, com tudo o que tinha , para a estância, iria tentar um secretariado em tempo integral com o coronel para poder  ficar próximo desse desafio.
Depois de algumas danças, carinhos promissores, e algumas idas ao toillete, Laura fala que está com sede, e um pouco de frio, ao que, prontamente, Ricardo cobre seus ombros com seu casaco. Ao sair para buscar uma bebida, pergunta se ela não gostaria de entrar, já que estavam na sacada do clube, e estava ficando mais frio, ao que Laura disse: em breve nos encontraremos.
Ao retornar, não encontrou mais Laura, procurou por todos os cantos do clube e nada, perguntou para algumas pessoas e nada, ninguém tinha visto alguém parecido. Derrotado e frustrado, voltou para a estância.
Café da manhã, e o Ricardo, depois de uma noite e tanto, pergunta para o coronel se ele conhece alguém na comunidade com o nome de Laura, com a idade parecida com a dele, o qual responde que conhecia sim, mas que de ter sido contado há muito tempo. Tratava-se de uma menina, com a idade dele, que era neta de um amigo de seu pai, e que tinha falecido de desgosto por ter sido abandonada por um namorado, e que segundo dizem, era um viajante, uma pessoa que estava de passagem e por quem ela se apaixonara.
O coronel Arzelindo é vivo até hoje, e não sabe por que o filho do amigo deu no pé tão ligeiro. “Deixou até o notibuque, nem sei o que faço com isso”, dizia ele.
E o Ricardo, dias depois de chegar em casa, recebeu pelo correio, uma encomenda. Despreocupado, sentado em frente à lareira, resolveu abrir. Era um pacote aparentemente comum, rasgou o papel, jogou no fogo, e quando percebeu, era o casaco do terno azul marinho, com um inconfundível cheiro de laranja.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

A Democracia dos 200 Partidos

(Publicado no Diário Popular em 12 de setembro de 2012)

Em nenhuma outra época do ano a democracia brasileira fica mais latente, mais em evidência e mais exercida do que neste período eleitoral. A decisão de todos os cidadãos, através do voto, tem peso, indiscutivelmente, igual. O voto do pobre tem o mesmo valor do voto do rico; o do homem pesa tanto quanto o da mulher. Daqui a 25 dias nós, brasileiros, iremos às urnas para escolhermos nossos candidatos, dentre mais de duzentos partidos, para dirigir nossos municípios.
       Não estou aqui cometendo desvario matemático e tampouco parodiando o milagre da multiplicação dos peixes, mas peço, contudo, que acompanhem meu raciocínio.
     Existe no Brasil, oficialmente, trinta partidos políticos- número muitíssimo elevado mesmo em um país gigante pela própria natureza. Se pegarmos, desses 30 partidos oficiais, apenas cinco - os de maior representatividade e tradição, e multiplicarmos, digamos, pela metade do número de municípios gaúchos, ainda assim teríamos a absurda quantidade de 1240 partidos, número que obtive pela simples constatação de que, pra citar um exemplo e usando partidos fictícios, o PRX de Pelotas não é o mesmo PRX de Camaquã, e o PNTZ de São Lourenço tem comportamento diferente do PNTZ de Porto Alegre. Isso para ficarmos apenas em território gaúcho. Extrapolando nossas divisas as dessemelhanças aumentam. Os que aqui se coligam, não se coligam acolá, e é bastante comum observarmos, dentro de uma mesma sigla partidária, duas ou três frentes de pensamento ideológico, resultando em rupturas internas e até apoios velados ou explícitos.
      Antigamente a ascensão do homem político se dava, primeiro, dentro do próprio partido. Conquistava-se o prestígio entre seus pares para depois alçar voo às esferas públicas. Hoje muitos partidos são fundados, ou fabricados, com o simples objetivo de permitir candidatura a um cargo eletivo, já que a constituição vigente permite. Resulta daí que muitos eleitores ainda encontram dificuldades em reconhecer a qual sigla determinado candidato pertence.
       Mas partidos políticos são constituídos de homens e de mulheres, e são neles que votamos, apesar de que o contestado quociente eleitoral pode eleger candidatos preteridos pela maioria dos eleitores.
       As frentes partidárias, ou coligações, se alternam a cada pleito. Um ou dois partido de maior expressão juntam-se a outros que ainda procuram um lugar ao sol para conquistar eleitores e espaço nas propagandas eleitorais gratuitas – que de gratuito não tem nada, porque alguém precisa pagar o preço da veiculação. Essas coligações criam jingles e slogans inventivos para vincular seus candidatos às suas bandeiras, já que muitas vezes são tantos os partidos coligados que nem os filiados conseguem nominar todos.
      Mas em um país pluricultural, plurirreligioso e plurirracial como é o Brasil, nada mais natural que também sejamos um povo pluripartidário; o voto, porém, é singular. Usemo-lo, portanto, democraticamente. E com sabedoria.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Memórias de Corredor 4 - O Mistério da Gaze Esquecida


Finalmente foi feita a cirurgia na perna para retirada da tração e colocação da placa fixadora. A tíbia foi quebrada em três partes, e o fragmento do meio, em forma de triângulo, havia girado no próprio eixo.
Com a operação em si correu tudo bem. Acordei na sala de recuperação com a perna engessada (depois vi que era apenas uma tala de gesso), e logo me mandaram para o quarto, o terceiro, mais amplo e espaçoso. Logo comecei a sentir muita dor e chamava a enfermeira a cada minuto para me sedar. Primeiro morfina, depois um patético Dôrico.
Após o terceiro dia a dor diminuiu bastante e a tala foi retirada. Havia uns trinta pontos, mas os do meio não fecharam e logo uma fonte de nojeira se formou: pus e sangue jorravam por onde os pontos permitiam. Os enfermeiros limpavam, desinfetavam, colocavam açúcar cristal ou mascavo, até que depois de alguns dias o corte cicatrizou, porém um buraco no meio ficou aberto. A fonte de infecção continuava em pleno funcionamento, como um gêiser em atividade.
O movimento no quarto seguia. A janela era aberta para o pátio da emergência e os acontecimentos me eram narrados por meu primo, Paulo Pons: - Olha, está chegando um todo queimado. Vem ver, está chegando um com uma faca na testa (como se eu pudesse ir ver). Aí vem um baleado. – era assim o tempo todo. Nas noites de Natal e Ano Novo o movimento de ambulâncias era enorme. No carnaval, então, bateu todos os recordes. A maioria dos que chegavam era de acidentados, pessoas que abusaram da combinação álcool-direção. Durante a madrugada inteira ambulâncias entravam e saiam do pátio da emergência, o mesmo pátio por onde entrei há quase três meses atrás.
A infecção não cedia apesar da bomba de antibióticos. Alguns enfermeiros aconselhavam a mudar de hospital, ir para o interior onde os riscos de infecção seriam menores. O conselho era repetido pelas freiras que estavam sempre por ali confortando os pacientes, mas eu e minha família achávamos que ainda não era o momento de deixar o grande hospital.
Passou o carnaval, vieram as aulas e, com elas, os estudantes de medicina. Todas as manhãs eu era acordado por dois ou três estudantes que entravam no meu quarto sem bater, acendiam a luz e furungavam meu curativo. Falavam entre si alguma coisa que eu, sonolento, pouco entendia e iam embora, deixando o curativo todo bagunçado. Numa dessas visitas vespertinas um deles falou: - Vejam, esqueceram uma gaze dentro da perna. A gaze a que o jovem futuro médico se referia era o fragmento ósseo que começava a ser expulso pelo organismo por causa da osteomielite. Era possível ver uns dois centímetros de tecido ósseo. Convivi com esse osso a céu aberto ainda por alguns dias, antes que uma nova cirurgia fosse marcada. Foi, então, realizada uma rotação de tecido para cobrir o fragmento, e no dia 3 de março de 1994, noventa e seis dias depois da internação, eu fui pra casa com minha infecção hospitalar não diagnosticada.
 Eu, menos 15 kg  e o enfermeiro Kungfu

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O SAPATO VERMELHO (Memórias do Bar do Beto)


(Jou Silveira) 
            A música marcava um compasso fúnebre quando Marcelo sacudiu os ombros, como que para tirar o pó do esquecimento, levantou e caminhou em direção à porta do bar. Precisava encontrar a mulher que dormira com ele, que invadira sua solidão, e ele lembra que havia gostado, embora não recorde de seu rosto claramente, roupa ou endereço, apenas de um indefectível sapato vermelho.
            Há muito tempo a ideia de viver sozinho lhe parecia simpática. Nos primeiros meses, estranhou um pouco o silêncio, mas, que diabos, esteve boa parte de sua vida atrás dele e, agora que conseguira,  estranhava, não era justo. Logo se acostumou.
            Nenhum cheiro diferente, nenhuma roupa descontroladamente fora do lugar, nenhum CD desaparecido, domínio total. E agora, por culpa de uma bebedeira, aparecera essa bandida de sapato vermelho e bagunçara tudo. Não encontrara mais o CD do Belchior, a pasta de dentes tinha sido apertada no meio, o cheiro era maravilhosamente sufocante, e nunca mais foi vista uma cueca azul com listras.
            Isso fez com que, na primeira manhã, algo ficasse decidido. Se encontrasse novamente essa pervertida, iria deixar de lado essa frescura de solidão e nunca mais iria deixá-la escapar.
            Alice tinha acordado às 15h, tinha certeza disso, pois fora despertada pelo relógio de cabeceira. Era um dia comum e não conseguia entender porque tinha se deixado levar pela conversa do cara que sentou a seu lado na noite anterior. Tudo bem que tivesse bebido, mas daí a ir para a cama com ele era um pouco demais. Não lembrava o nome do sujeito, mas tinha uma vaga lembrança do endereço, sabia que ficava entre Ipanema e a Cidade Baixa.
            Tinha que parar de beber, pensou, mas as noites insones e a solidão a empurravam para rua, para os bares, sempre na esperança de encontrar um companheiro, um amante, alguém para preencher o vazio que ficara com a partida do ex, que foi a única pessoa, que ela tinha conhecimento, que tinha saído para comprar cigarros e nunca mais voltara, e já fazia bastante tempo, pois ela lembrava que a marca dos cigarros era ELLA.
            Mas o pior de tudo era a memória, que estava começando a pregar peças. Embora já tivesse procurado até uma vidente, famosa como o Negrinho do Pastoreio, por encontrar coisas perdidas, não conseguira saber, até aqueles dias, como um CD do Belchior e uma cueca azul com listras tinham aparecido dentro de sua bolsa.

         Depois de alguns anos trabalhando como enfermeira no Hospital Cristo Redentor (tinha se formado na URFGS e esse fora seu primeiro e único emprego), Alice recebeu um convite para trabalhar em uma ONG em Belém. Um tanto desiludida pelos desencontros da vida, decidiu aceitar, afinal, nunca gostara do inverno no sul.
            Próximo passo, fazer as malas, mas, depois de tanto tempo, era preciso se desfazer de algumas coisas, móveis (não valia a pena levar), roupas, enfim, era preciso levar só o essencial para começar novamente. Separou tudo, colocou a roupa no carro e seguiu em direção à Instituição de Caridade Cosa Nostra, no Lami, para fazer a doação.
            Marcelo, que já estava no quinto relacionamento e ainda não encontrara a mulher ideal, trabalhava como biólogo na PUC, e aceitara o convite para passar um período de estudos na Antártida, na Base Comandante Ferraz. Mas antes tinha que dar um jeito nos cães: tinha cinco, quatro dos relacionamentos anteriores, que foram devolvidos com coleira e tudo, e o do atual tinha que sumir também.
            Colocou a cachorrada no carro e foi em direção à Tristeza, onde um amigo tinha uma clínica veterinária e ficaria com os cães, só não imaginava que seria por tempo indeterminado.
            Avenida Padre Cacique, tardinha, trânsito muito louco, e um dos cães resolve estranhar. Entre latidos, mordidas, rosnados, o Marcelo, tentando apartar, vira para trás, e o carro da frente para. Depois da batida, tinha cachorro até no cinzeiro, e ele desce para negociar. O motorista do carro da frente, atordoado, demora um pouco, e eis que coloca o pé para fora, e lá está o saudoso sapato vermelho. O coração parecia que ia saltar pela boca, caminhou devagar, ajudou a motorista a descer e perguntou seu nome. Alice, respondeu um pouco nervosa ainda, e ele então disse: Esses seus sapatos estiveram por anos nos meus sonhos. Ela então perguntou o seu nome e falou: Então eu tenho algo que te pertence, porque eu só usei esses sapatos uma única vez, e estava levando para doá-los. Entregou, em um pacote, o CD do Belchior e a cueca azul com listras, e falou também: Eu sempre acreditei que encontraria o dono, nem que fosse em Belém do Pará.
            Alice não foi para Belém, e a Base Comandante Ferraz incendiou misteriosamente.
            Desde aquele dia, todas as quartas-feiras, eles se encontram no Bar do Beto, para um chope, fritas, e falar de sapatos, cuecas e CD’S.



sábado, 1 de setembro de 2012

Ganhe Ingressos Para o Matrix Pub



Venha curtir a noite e que ela oferece de melhor no Matrix Pub!
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Amigo(a) Seguidor(a):
Obrigado por acompanhar o blog. Você  está concorrendo a dois ingressos para a mais nova casa de festas de Pedro Osório e Cerrito, um para você e outro para seu acompanhante. Os sorteios (dois) serão feitos através de sites especializados de Sorteio Online. Cada seguidor receberá um número para concorrer, por ordem de adesão. Não poderão participar pessoas com o sobrenome Raatz, Pons, Alam e Satte.
As inscrições encerram-se no dia 22 de setembro, e o sorteio será realizado no dia 23 de setembro. Os ganhadores receberão dois ingressos cada para a noite de 28 de setembro, para assistir o show da banda Aihpod.

Boa sorte para
01 – Adalberto Batista Silva.
02 - Daniela Bernardi
03 - Família Caldeira Ribeiro
04 - João Carlos Rosenthal 
05 - Laura Paranhos
06 - Regina Lima
07 - Taciane Brussa
08 - Glaci Moraes Machado 
09 - Lisiane Costa
10 - Lavínia Valin
11 - Celso Luis Martins
12 - Mauricio Mortagua
13 - Daniel Fraga
14 - Claudio André Oliveira
15 - Tati Aldrighi