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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Laranjas e Invernos

Publicado no Diário Popular em 22 de setembro de 2012
 (Jou  Silveira)
Parecia que o oriente e o ocidente se cruzariam, quando o cavalo arrancou, na resposta da espora. A manhã fazia força para nascer naquele início de inverno, parecia que nada queria trocar de lugar, os acordados e os dormidos. Quando o sol chegou, surpreendeu os pensamentos já iniciados, sonhadores. Quando ficamos sós por algum tempo, é possível praticar nossa capacidade de resolver problemas; os do mundo, não os nossos, pois esses são queridos e nos ajudam a passar o tempo quando bate a insônia.
Ricardo já estava cansado daquela lida, tinha prometido ao coronel Arzelindo organizar as coisas na estância depois da última compra de gado que ele fizera, mas já fazia algum tempo que não ia para casa, a saudade estava apertando. Ricardo tinha se formado em agronomia, mas sua queda sempre tinha sido pela pecuária, e não resistiu quando esse amigo de seu pai pediu ajuda.
O dia já ia a galope, os rins a doer, quando encontrou um peão, que parecia antigo como a própria estância. Sisudo, mas otimista, falou que o inverno seria rigoroso naquele ano, e que muitos não chegariam ao final da estação (e como é triste uma despedida no inverno), e que muitos nem começariam, por falta de atitude, mas que alguns, se apressassem o passo, poderiam colher algumas laranjas, pois, segundo falou, poderiam ser as mais doces de muitos invernos.
Próximo à estância existe uma pequena cidade, com tudo que se precisa, ou quase tudo, segundo o coronel: farmácia, padaria, hospital, ferragem, e um clube social entre tantos outros atrativos, e nesse clube haveria um baile, no final de semana.
A viagem para casa era um pouco distante para só um fim de semana, e o trabalho já estava quase concluído, então Ricardo resolveu, não só ficar, como também ir ao baile.
O coronel tinha um filho que morava na capital e que eventualmente vinha na fazenda, mas que mantinha um guarda roupa impecável por ser deputado e que, para não ser surpreendido por algum imprevisto, tinha que estar sempre preparado. A escolha de Ricardo foi discreta, um terno azul marinho clássico, e os sapatos, bem, teria que dar um trato nas botas, a sorte é que o homem era do seu tamanho.
A cidade, enfeitada, encantou Ricardo, uma comunidade tão pequena e aquela profusão de luzes e gente era lindo. Logo que o coronel apresentou Ricardo para algumas autoridades, retirou-se, já se sentia cansado para essas coisas dizia ele.
Logo que entrou no clube, foi direto a copa: um uisquinho pra dar uma relaxada, pensou, e ao sorver o primeiro gole trocou olhares com alguém que não poderia ser desse mundo, tal fora o impacto que sofrera. Não pensou duas vezes: ”já que estou aonde o diabo perdeu as botas, não custa dar um abraço nele”, e foi ao encontro daquela mulher.
Poucas palavras. Além de lhe oferecer uma bebida, uma dança, e talvez um beijo, já estava apaixonado. Nunca tinha sentido nada igual, suores, palpitações, e então perguntou seu nome: Laura, ela disse, e beijou-lhe o rosto. Quando recuperou os sentidos lembrou de perguntar as coisas básicas, se era da cidade, se seus pais estavam no baile, se tinha namorado, enfim, qualquer coisa para chamar sua atenção.
Laura era diáfana, algo aparentemente intangível, linda de morrer e distante como o Cairo. A primeira idéia que passou por sua cabeça foi a mudança imediata, com tudo o que tinha , para a estância, iria tentar um secretariado em tempo integral com o coronel para poder  ficar próximo desse desafio.
Depois de algumas danças, carinhos promissores, e algumas idas ao toillete, Laura fala que está com sede, e um pouco de frio, ao que, prontamente, Ricardo cobre seus ombros com seu casaco. Ao sair para buscar uma bebida, pergunta se ela não gostaria de entrar, já que estavam na sacada do clube, e estava ficando mais frio, ao que Laura disse: em breve nos encontraremos.
Ao retornar, não encontrou mais Laura, procurou por todos os cantos do clube e nada, perguntou para algumas pessoas e nada, ninguém tinha visto alguém parecido. Derrotado e frustrado, voltou para a estância.
Café da manhã, e o Ricardo, depois de uma noite e tanto, pergunta para o coronel se ele conhece alguém na comunidade com o nome de Laura, com a idade parecida com a dele, o qual responde que conhecia sim, mas que de ter sido contado há muito tempo. Tratava-se de uma menina, com a idade dele, que era neta de um amigo de seu pai, e que tinha falecido de desgosto por ter sido abandonada por um namorado, e que segundo dizem, era um viajante, uma pessoa que estava de passagem e por quem ela se apaixonara.
O coronel Arzelindo é vivo até hoje, e não sabe por que o filho do amigo deu no pé tão ligeiro. “Deixou até o notibuque, nem sei o que faço com isso”, dizia ele.
E o Ricardo, dias depois de chegar em casa, recebeu pelo correio, uma encomenda. Despreocupado, sentado em frente à lareira, resolveu abrir. Era um pacote aparentemente comum, rasgou o papel, jogou no fogo, e quando percebeu, era o casaco do terno azul marinho, com um inconfundível cheiro de laranja.


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