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terça-feira, 11 de setembro de 2012

Memórias de Corredor 4 - O Mistério da Gaze Esquecida


Finalmente foi feita a cirurgia na perna para retirada da tração e colocação da placa fixadora. A tíbia foi quebrada em três partes, e o fragmento do meio, em forma de triângulo, havia girado no próprio eixo.
Com a operação em si correu tudo bem. Acordei na sala de recuperação com a perna engessada (depois vi que era apenas uma tala de gesso), e logo me mandaram para o quarto, o terceiro, mais amplo e espaçoso. Logo comecei a sentir muita dor e chamava a enfermeira a cada minuto para me sedar. Primeiro morfina, depois um patético Dôrico.
Após o terceiro dia a dor diminuiu bastante e a tala foi retirada. Havia uns trinta pontos, mas os do meio não fecharam e logo uma fonte de nojeira se formou: pus e sangue jorravam por onde os pontos permitiam. Os enfermeiros limpavam, desinfetavam, colocavam açúcar cristal ou mascavo, até que depois de alguns dias o corte cicatrizou, porém um buraco no meio ficou aberto. A fonte de infecção continuava em pleno funcionamento, como um gêiser em atividade.
O movimento no quarto seguia. A janela era aberta para o pátio da emergência e os acontecimentos me eram narrados por meu primo, Paulo Pons: - Olha, está chegando um todo queimado. Vem ver, está chegando um com uma faca na testa (como se eu pudesse ir ver). Aí vem um baleado. – era assim o tempo todo. Nas noites de Natal e Ano Novo o movimento de ambulâncias era enorme. No carnaval, então, bateu todos os recordes. A maioria dos que chegavam era de acidentados, pessoas que abusaram da combinação álcool-direção. Durante a madrugada inteira ambulâncias entravam e saiam do pátio da emergência, o mesmo pátio por onde entrei há quase três meses atrás.
A infecção não cedia apesar da bomba de antibióticos. Alguns enfermeiros aconselhavam a mudar de hospital, ir para o interior onde os riscos de infecção seriam menores. O conselho era repetido pelas freiras que estavam sempre por ali confortando os pacientes, mas eu e minha família achávamos que ainda não era o momento de deixar o grande hospital.
Passou o carnaval, vieram as aulas e, com elas, os estudantes de medicina. Todas as manhãs eu era acordado por dois ou três estudantes que entravam no meu quarto sem bater, acendiam a luz e furungavam meu curativo. Falavam entre si alguma coisa que eu, sonolento, pouco entendia e iam embora, deixando o curativo todo bagunçado. Numa dessas visitas vespertinas um deles falou: - Vejam, esqueceram uma gaze dentro da perna. A gaze a que o jovem futuro médico se referia era o fragmento ósseo que começava a ser expulso pelo organismo por causa da osteomielite. Era possível ver uns dois centímetros de tecido ósseo. Convivi com esse osso a céu aberto ainda por alguns dias, antes que uma nova cirurgia fosse marcada. Foi, então, realizada uma rotação de tecido para cobrir o fragmento, e no dia 3 de março de 1994, noventa e seis dias depois da internação, eu fui pra casa com minha infecção hospitalar não diagnosticada.
 Eu, menos 15 kg  e o enfermeiro Kungfu

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