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sábado, 22 de setembro de 2012

Memórias de Corredor 5 - Volta pra Casa


Foram noventa e seis dias no hospital Cristo Redentor. Lá eu passei Natal, Reveillon, Carnaval e trabalho. Passei de um quarto para outro, passei por mãos de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos. Bem, psicóloga, na verdade.
     Não lembro o nome dela, mas era bem bonita. Recém-formada, creio, pois aparentava ter pouco mais do que meus 21 anos. Gostava do momento em que ela chegava. Entrava, mandava todos saírem e sentava pertinho da minha cama. Sempre perfumada. Incitava-me a falar. E eu falava, falava e falava. Ela então se despedia com um “amanhã eu volto”. Voltava. Então eu falava e falava. Ela ouvia e eu falava. Era só. Não sei se eu precisava desse expediente, em que poderia me ajudar, mas ah!, era bonita a psicóloga, e era bom ficar perto dela.
     O acompanhamento psicológico era oferecido pelo hospital e pago pelo SUS, assim como todo o resto. Apesar das raras visitas do médico, nunca faltou medicamentos de ponta, exames laboratoriais e radiológicos, fisioterapeutas, o carinho dos enfermeiros e enfermeiras, e alimentação adequada. Tudo pelo SUS.
     Falando em alimentação, comida de hospital é boa por um ou       dois dias, depois complica. Almoço às 11h e jantar às 18h é pra acabar com a alegria de qualquer comensal que preze sua gula. Noventa e seis dias numa dieta dessas e eu teria perdido bem mais dos que os quinze quilos contabilizados. Mas eis que surge minha salvadora, a mulher que tornou essa minha estada no hospital menos penosa. A pelotense Fátima Al-Alam era, na época, responsável pelo departamento de assistência social e também pelo setor de nutrição da cozinha hospitalar. Fatima foi uma verdadeira amiga, mais um anjo dentre outros tantos anjos da guarda que encontrei por lá.
Além dos episódios já contados nesta série de memórias, muitas outras lembranças ainda guardo bem nítidas. Os gritos do paciente dependente químico e do barulho que faziam os objetos que ele jogava no chão por causa da crise de abstinência; o suicida que fracassou em seu objetivo de acabar com a própria vida com um tiro no abdômen; lembro da enfermeira que queria me dar banho; e lembro também do enfermeiro que também queria; lembro também dos pacientes que passavam pelo corredor algemados na maca sob a guarda de um policial. E lembro do dia em que dei alta.
       Um dia antes de vir para casa, uma enfermeira apareceu com um aparato que simulava um par de muletas. Depois de 95 dias na horizontal eu tinha que dar uma treinada. Apaguei agarrado naquele treco, um desmaio de dez segundos, se muito. No dia esperado, meu amigo Sandro Borges chegou com a ambulância cedida pela prefeitura, uma Veraneio branquinha e possante, e o tio Mario e o Mario Luiz foram de Voyajão para ajudar com a bagagem.  O motorista da ambulância era o João Barulho, velho amigo da família. Na saída, muitos enfermeiros vieram se despedir, inclusive a Fátima. Vim deitadão na maca, lá atrás, a Veraneio gingando de faceira, e eu mais faceiro ainda - é sempre bom retornar pra casa. Mal podia imaginar eu, naquela festa toda, que ainda voltaria a viver longos dias dentro de um hospital.
Primeiro dia em casa

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