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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O SAPATO VERMELHO (Memórias do Bar do Beto)


(Jou Silveira) 
            A música marcava um compasso fúnebre quando Marcelo sacudiu os ombros, como que para tirar o pó do esquecimento, levantou e caminhou em direção à porta do bar. Precisava encontrar a mulher que dormira com ele, que invadira sua solidão, e ele lembra que havia gostado, embora não recorde de seu rosto claramente, roupa ou endereço, apenas de um indefectível sapato vermelho.
            Há muito tempo a ideia de viver sozinho lhe parecia simpática. Nos primeiros meses, estranhou um pouco o silêncio, mas, que diabos, esteve boa parte de sua vida atrás dele e, agora que conseguira,  estranhava, não era justo. Logo se acostumou.
            Nenhum cheiro diferente, nenhuma roupa descontroladamente fora do lugar, nenhum CD desaparecido, domínio total. E agora, por culpa de uma bebedeira, aparecera essa bandida de sapato vermelho e bagunçara tudo. Não encontrara mais o CD do Belchior, a pasta de dentes tinha sido apertada no meio, o cheiro era maravilhosamente sufocante, e nunca mais foi vista uma cueca azul com listras.
            Isso fez com que, na primeira manhã, algo ficasse decidido. Se encontrasse novamente essa pervertida, iria deixar de lado essa frescura de solidão e nunca mais iria deixá-la escapar.
            Alice tinha acordado às 15h, tinha certeza disso, pois fora despertada pelo relógio de cabeceira. Era um dia comum e não conseguia entender porque tinha se deixado levar pela conversa do cara que sentou a seu lado na noite anterior. Tudo bem que tivesse bebido, mas daí a ir para a cama com ele era um pouco demais. Não lembrava o nome do sujeito, mas tinha uma vaga lembrança do endereço, sabia que ficava entre Ipanema e a Cidade Baixa.
            Tinha que parar de beber, pensou, mas as noites insones e a solidão a empurravam para rua, para os bares, sempre na esperança de encontrar um companheiro, um amante, alguém para preencher o vazio que ficara com a partida do ex, que foi a única pessoa, que ela tinha conhecimento, que tinha saído para comprar cigarros e nunca mais voltara, e já fazia bastante tempo, pois ela lembrava que a marca dos cigarros era ELLA.
            Mas o pior de tudo era a memória, que estava começando a pregar peças. Embora já tivesse procurado até uma vidente, famosa como o Negrinho do Pastoreio, por encontrar coisas perdidas, não conseguira saber, até aqueles dias, como um CD do Belchior e uma cueca azul com listras tinham aparecido dentro de sua bolsa.

         Depois de alguns anos trabalhando como enfermeira no Hospital Cristo Redentor (tinha se formado na URFGS e esse fora seu primeiro e único emprego), Alice recebeu um convite para trabalhar em uma ONG em Belém. Um tanto desiludida pelos desencontros da vida, decidiu aceitar, afinal, nunca gostara do inverno no sul.
            Próximo passo, fazer as malas, mas, depois de tanto tempo, era preciso se desfazer de algumas coisas, móveis (não valia a pena levar), roupas, enfim, era preciso levar só o essencial para começar novamente. Separou tudo, colocou a roupa no carro e seguiu em direção à Instituição de Caridade Cosa Nostra, no Lami, para fazer a doação.
            Marcelo, que já estava no quinto relacionamento e ainda não encontrara a mulher ideal, trabalhava como biólogo na PUC, e aceitara o convite para passar um período de estudos na Antártida, na Base Comandante Ferraz. Mas antes tinha que dar um jeito nos cães: tinha cinco, quatro dos relacionamentos anteriores, que foram devolvidos com coleira e tudo, e o do atual tinha que sumir também.
            Colocou a cachorrada no carro e foi em direção à Tristeza, onde um amigo tinha uma clínica veterinária e ficaria com os cães, só não imaginava que seria por tempo indeterminado.
            Avenida Padre Cacique, tardinha, trânsito muito louco, e um dos cães resolve estranhar. Entre latidos, mordidas, rosnados, o Marcelo, tentando apartar, vira para trás, e o carro da frente para. Depois da batida, tinha cachorro até no cinzeiro, e ele desce para negociar. O motorista do carro da frente, atordoado, demora um pouco, e eis que coloca o pé para fora, e lá está o saudoso sapato vermelho. O coração parecia que ia saltar pela boca, caminhou devagar, ajudou a motorista a descer e perguntou seu nome. Alice, respondeu um pouco nervosa ainda, e ele então disse: Esses seus sapatos estiveram por anos nos meus sonhos. Ela então perguntou o seu nome e falou: Então eu tenho algo que te pertence, porque eu só usei esses sapatos uma única vez, e estava levando para doá-los. Entregou, em um pacote, o CD do Belchior e a cueca azul com listras, e falou também: Eu sempre acreditei que encontraria o dono, nem que fosse em Belém do Pará.
            Alice não foi para Belém, e a Base Comandante Ferraz incendiou misteriosamente.
            Desde aquele dia, todas as quartas-feiras, eles se encontram no Bar do Beto, para um chope, fritas, e falar de sapatos, cuecas e CD’S.



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