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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Criança Grande


Publicado no Diário Popular do dia 10 de outubro

Minha mãe me telefona e pede que eu vá até sua casa, pois tem algo que gostaria de me entregar. Sei que ela foi até Jaguarão, visitar uma tia querida. Não se contendo, atravessou a histórica ponte Barão de Mauá para comprar um doce de leite qualquer para o seu café da manhã, e deve ter comprado algo pra mim. No momento em que desligo o telefone juro ter ouvido um taptaptap, como faz um pezinho batendo: taptaptap. Penso que ouvi também palmas e risos alegres, mas não tenho certeza.
   Termino algumas tarefas simples, mas inadiáveis, e saio de casa. Vou caminhando, pois meus pais moram apenas a algumas quadras, e andar me faz bem. Passo em frente à casa do vizinho e vejo seus filhos jogando bola de gude no pátio. Sorrio pra mim mesmo, surpreso. Achei que ninguém mais jogasse bolinhas de gude, brincadeira tão comum na “minha época”. Pelo caminho encontro amigos - cidade pequena, sabe como é. Paro para conversar com alguns, apenas cumprimento outros, e vou andando. Vez por outro tenho a impressão de ouvir risos e olho pra trás, talvez as crianças do vizinho estejam me seguindo. Não vendo ninguém sigo, impassível, minha caminhada - hoje é feriado!
   Passo no bar do Jayme onde há 15 anos eu entrava, diariamente, para comprar cigarros, hábito que, pelo bem da saúde, eu abandonei; porém conservo o de tomar um cafezinho sem pressa no balcão e conversar com meu velho amigo. Algumas crianças brincam com um jogo de tabuleiro em uma das mesas. Escuto de novo o mesmo taptaptap que ouvi em casa. Mais risos abafados. Olho para a mesa onde estão as crianças, mas os ruídos não vêm dela. Estão concentradas, embora estejam se divertindo muito. Termino meu café, peço pra pendurar e vou embora.
    Vou andando, absorto em meus pensamentos de feriado quando sou surpreendido por dois garotinhos que cruzam, céleres em suas bicicletas, fazendo um som que não imaginava mais ouvir na minha vida. Eles fixaram tampas de margarina com prendedores de roupas nas rodas traseiras, para fingir barulho de motor.
    A escola ao lado da casa dos meus pais mantém o pátio aberto durante os finais de semana e feriados para as crianças poderem brincar em segurança. Andes de virar a equina já posso ver o colorido das pandorgas e a algazarra do jogo de bola. O pátio está quase cheio.
   Minha mãe me recebe com um fumegante bolo de laranja e uma xícara de chá. Sentamos no sofá e ela me conta notícias da tia de Jaguarão e outras amenidades. Quando me entrega o que trouxe pra mim da fronteira ouço novamente os gritinhos de alegria e o bater de pés. Então o vejo. Sentado lá num cantinho da minha jovem alma de quarenta e tantos anos um garotinho de cabelos dourados e olhos castanhos. Reconheço imediatamente a criança que fui um dia, e então deixo que ele venha receber o presente, iluminando o mundo com seu sorriso. Minha mãe me abraça e, divertida, diz: Feliz Dia da Criança. E vamos embora, eu e a criança que agora sou novamente. 

2 comentários:

  1. "Iluminando o mundo com o seu sorriso..." É deste sorrir que me refiro muitas vezes, estamos tão preocupados em como expressar as reações certas que nos esquecemos de manifestar o que realmente importa, a simplicidade humilde que há no sorriso da nossa esquecida, mas eterna criança. "Gostei do texto, texto bonito!" Sucesso!!!

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  2. Obrigado, blogueira. Obrigado pela visita. E Feliz Dia da Criança pra nós.

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