Pesquisar neste blog

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Esperança

Jou Silveira

            A janela da sala não parava de bater, era uma tarde de muito vento, de muitas lembranças, pensava Tereza. Uma casa de praia fora de estação sempre traz recordações, e já fazia alguns anos das melhores. Verão, casa cheia, conversas intermináveis, noites tão pequenas para tantos assuntos, planos e mais planos, e a sensação de que o mundo iria parar por ali. Tinha que dar um jeito naquela janela, mas tinha receio, pois parecia que era ela que trazia as recordações. Quando seus pais faleceram, deixaram, além da casa na praia, uma renda que garantiria seu sustento sempre e, como não casara e nem tivera filhos, dinheiro não lhe faltava, mas tampouco servia para satisfazer sua maior necessidade, recuperar sua vida.
            Depois de incontáveis viagens ao exterior, cursos dos mais variados, desde “Culinária para principiantes” ao doutorado em Filosofia, resolveu recolher-se na casa da praia para escrever suas memórias e, por consequência, encontrar um novo começo. Já estava passando dos 50 anos, era preciso aproveitar nem que fosse o 2° tempo.
************
            Júlia tinha esgotado o estoque de paciência com sua vida no interior, que ela achava sem graça. Tudo se resumia em algum trabalho (era professora), pouco dinheiro, alguma bebida a mais no final de semana, e uma insatisfação que lhe torturava amargamente. Morava com os pais, que sustentavam a casa, e dispunha de tempo, de um amaldiçoado tempo, e era preciso fazer alguma coisa com ele. Fizera 32 anos e sair da casa dos pais era uma condição.
            Alugou um apartamento, trocou de emprego (continuava no Magistério), e teve um filho.
**********
            O livro estava indo bem para Tereza, o prazo que a editora havia estabelecido estava dentro de seu cronograma, e aparecia, todas as vezes em que ela começava a escrever, uma alegria juvenil, um colorido parecido com os dos verões de seu passado.
            Na feira de hortifrutigranjeiros, que ia todos os sábados pela manhã, Tereza fez amizade com Olga, um pouco mais velha que ela, e que também morava só desde que sua filha casara. Do ex-marido não tinha notícias desde que se separara, anos atrás. Tereza tornou-se amiga inseparável de Olga, acompanhando a amiga em todas as oportunidades possíveis.
            Certa noite, quando conversavam sobre o livro, lembrou que ele ainda não tinha título, o que fez com que Olga, sabedora do conteúdo, sugerisse o nome de “ESPERANÇA”, por que, segundo ela, ele havia resgatado Tereza.
************
            No novo emprego, Júlia conheceu Berenice, uma professora aposentada mas que insistia em continuar lecionando, viúva, e de uma candura que logo cativou Júlia.
            A vida era dura com Júlia, o relacionamento com o qual tivera seu filho não deu certo e ela tinha de enfrentar uma carga horária pesada para poder dar conta das despesas, e mesmo nas férias aproveitava para fazer um dinheiro extra ministrando aulas particulares. Muitas vezes teve vontade de abandonar tudo e voltar para a casa de seus pais, mas sempre tentava mais uma vez.
            Final do ano, férias, Júlia já prospectava  alunos, quando Berenice a convidou para passar alguns dias em sua casa na praia. Por que não?, pensou Júlia, afinal alguns dias serviriam para refletir sobre sua possível última tentativa.
            Instalada com o filho em um quarto grande com banheiro, no segundo andar (a casa tinha oito quartos), não resistiu a uma inquietante dúvida, desceu as escadas e encontrou Berenice preparando um lanche para todos. Após algumas trivialidades, Júlia pergunta como, sendo professora a vida inteira, Berenice conseguira adquirir um imóvel daqueles, que além de muito grande, era maravilhoso, com jardim, piscina, e todo o conforto que alguém poderia imaginar. Berenice então contou que herdara de sua mãe, mas que essa também não conseguiria adquirir, pois também fora professora. Sua mãe tinha herdado de uma amiga, que perdera seus pais e seus quatro irmãos em um acidente  e nunca casara nem tivera filhos. Berenice disse também que as duas haviam sido amigas inseparáveis.
            Comovida, Júlia fala para Berenice que está cansada da viagem e que iria recolher-se. Ao deitar, percebe, na estante de livros do quarto, um volume em destaque. Levanta, caminha até a estante, apanha o volume e lê na capa dura, escrito em letras douradas: “ESPERANÇA”. Abre a primeira página, e a dedicatória diz:
PARA MINHA QUERIDA AMIGA OLGA, COM QUEM REENCONTREI A VIDA. TEREZA.
Quando amanheceu, Júlia fechou o livro E estava pronta para tentar novamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário