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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Memórias de Corredor 7 - Furadeiras e Sonda de Alívio


Chegamos ao hospital numa tarde fria e ensolarada de junho. A primeira vista, não me pareceu em nada com um hospital. O corredor onde eu ficaria por dois meses era bem iluminado pelo sol que entrava por janelas do tipo escotilha, em esquadria de alumínio, que iam de ponta a ponta do corredor. Não tinha movimento de macas, nem de enfermeiros, nem de nada. Calmo e silencioso. O quarto era igualmente arejado, com janelas semelhantes às do corredor. Tinha ar-condicionado, uma novidade pra mim. De resto, era igual aos outros: cama hospitalar, sofá para o acompanhante, uma poltrona, banheirinho, mesinha pra refeição e um pequeno guarda-roupa. Instalamos-nos, eu pronto para a cirurgia na manhã seguinte.
    A sala de cirurgia também tinha bastante luz natural. O anestesista escolheu a raquidiana – ou a epidural, não sei bem ao certo -  então eu ficaria acordado durante o procedimento. Para a equipe, era como se estivessem fazendo algo normal como consertar um aparador de grama. Todos conversavam entre si e comigo. Houve um momento de tensão quando a furadeira travou e não quis desligar. Ouvi o médico dizer que por pouco não furou uma artéria. Depois a furadeira substituta se negou a trabalhar e foi preciso convocar uma terceira. Parece que eles têm um estoque de ferramentas de carpintaria no hospital. Após quase três horas de cirurgia, o médico levantou minha perna para que eu pudesse ver o serviço acabado. Do joelho até o pé era só ferro, porcas e parafusos. Depois dormi.
   A sala de recuperação era vazia como parecia ser o resto do hospital. Apenas eu e outro paciente esperávamos para ir para o quarto. Quando chegou a minha vez, duas enfermeiras vieram me buscar, as únicas duas do turno naquele andar. Familiares e amigos já esperavam no quarto. Então começou o sufoco. Por causa do soro, logo minha bexiga ficou cheia, e quem diz que eu conseguia urinar, anestesiado que estava?! Força daqui, força dali, e nada, apenas uns puns barulhentos que, de minha parte, eu nem sabia se eram meus, pois não sentia nada da cintura para baixo. Solução: sonda de alívio.
   As duas enfermeiras que me trouxeram para o quarto vieram fazer a aplicação. Pediram que todos saíssem e se puseram a trabalhar. Pareciam que estavam com mais vergonha do que eu. Aliás, se tem algo que perdi nessa coisa toda foi, além do baço e parte do fígado, a vergonha. Uma delas advertiu: se tu rir ou fizer cara de quem está gostando, eu vou embora. Rir do quê?! Duas mulheres enfiando um canudo na tua uretra não é uma coisa muito engraçada. Em compensação, o alívio foi incrível, pude sentir direitinho a bexiga esvaziando. Mais um pouco e acho que teria estourado; sairia urina pela boca, olhos e ouvidos, uma cena horrível de se imaginar.
   Mas fiquei bem, era apenas o começo, o primeiro de 60 dias no Miguel Pilcher.





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