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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Memorias de Corredor 9 - O Fim do Começo



Ao fim de dois meses fui pra casa com esperanças renovadas. Uma taça de tetracampeão mundial na mão, um gesso branquinho na perna e uma filha na barriga. Modo de dizer, porque, graças a Deus, a Brenda teve um desenvolvimento normal, como todos os bebês, no ventre da mãe. Ah! Levei também novos e bons amigos. Algumas enfermeiras chegaram mesmo a me visitar em casa, dias depois. E, claro, o doutor João Ivan, que até hoje cuida de minhas sequelas como um grande médico e um grande amigo, meu e da minha família.
Falando em amigos, eles sempre estiveram me acompanhando nesses dois meses de internação. O Junior, inclusive.

Junior chegava cedinho, junto com o sol e antes do café da manhã. Vinha fardado, estava no quartel.  Chimarrão e prosa pela manhã. Almoçávamos juntos. Mais prosa a tarde. Jantávamos também juntos. Então, já no toque de recolher, ele pedia: - posso dormir aqui? Claro, tem o sofá do acompanhante e essa cama aqui dá pra dois, minha namorada pode dormir aqui, a gente se aperta, só chegar o gesso bem pra cá, empurra o soro aqui, cuidado com a agulha... pronto. Cabe todo mundo nesse quarto, é coração de mãe.
Junior ainda ficava no dia seguinte, só indo embora à noitinha. Grande amigo, o Junior, desses amigos de sempre. Preferiu ficar me acompanhando a ficar no quartel prestando o serviço militar obrigatório, de onde fugia de vez em quando.
Levo alguma saudade desse horpital. Tranquilo e silencioso. Por alguns períodos eu era o único “morador” do corredor. Até telefone na recepção eu atendi. Podia muletear pelo corredor só de pijama sem risco de encontrar ninguém pelo caminho. Fui pra casa sabendo que voltaria, para este ou para outro hospital. A luta estava apenas começando. E durante a batalha, ainda conheci o Hospital de Clínicas, a Beneficência Portuguesa e a Santa Casa, este último há cerca de dois meses, para onde devo voltar, se tudo correr como o planejado, no ano que vem.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Gato Escaldado

Publicado no Diário Popular do dia 21 de novembro de 2012

O rio que antigamente cortava uma cidade, hoje separa duas. Um lado da margem se emancipou do outro, anos atrás. Contudo, o fato é que aquele rio é uma dádiva da natureza, um presente de Deus. No forte do calor, os campings ficam lotados de barracas, muitas delas pertencentes a visitantes, famílias de outras cidades que aproveitam os finais de semana para passear e se refrescar nas águas calmas e límpidas do rio doce. A praia, como muitos a chamam, torna a estação do sol mais alegre, e seus quarenta graus centígrados suportáveis.
Quem poderia imaginar, sentado em sua cadeira de alumínio, com água correndo pelos tornozelos e lambaris cutucando nos pés, que aquele fio de rio, algum dia, invadiu as duas cidades deixando milhares de desabrigados? Quem apostaria ser possível aquele arroio, como outros o chamam, destruir casas, desmanchar ruas e derrubar pontes, isolando quinze mil pessoas do resto do estado? Ouvi falar de três grandes cheias: 1959, 1983 e 1992. Esta última, dizem, foi a maior. Eu morava, na época, em Porto Alegre, mas assim que as águas baixaram eu vim ajudar na limpeza. A cena era de guerra. As ruas se transformaram em imensos varais de roupas; as calçadas, depósitos de móveis, colchões e entulhos; as paredes de todas as casas eram de uma cor só: lama. Quem viveu isso na pele conhece bem os traumas que ficam mesmo depois do leito voltar ao seu curso normal. Hoje, dois dias de chuva ininterrupta deixam as ruas nervosas, com pessoas subindo e descendo para o camping para observar a evolução das águas, medindo com pauzinhos e pedrinhas o aumento do nível do rio. 
Contam que, em uma dessas ameaças, Hermeto e Inácio, amigos de pescarias, de causos e de copos, aproveitando a ausência das esposas, resolveram assar um naco de leitão. Era o terceiro dia de chuva, e como o clima estava pra manga comprida, compraram um garrafão de vinho. Barriga e cabeça cheias, deitaram para um cochilo, ambos dividindo a cama de casal – a única na casa.
- Melhor a gente ficar acordado, vai que o rio sobe e nos pega dormindo – alertou Inácio.
- Que subir que nada – resmungou Hermeto, - a água ainda lá embaixo. Dorme tranquilo que, qualquer coisa, eu te chamo. Dizendo isso, ferrou no sono, roncando alto.
Para Inácio não foi tão simples. As paredes do quarto logo começaram a rodar feito carrossel, a cama girava violentamente. Resolveu usar o antigo truque de botar o pé no chão para ver se o quarto parava de rodopiar. Assim que o fez, sentiu o pé mergulhar na água, molhando até a barra da calça. – Hermeto! Acorda, homem, que o rio está passando  embaixo da cama. E saiu em disparada porta afora. Já na rua, nem sinal de água. Aliás, nem chovia mais e o sol já dava os ares da graça.
Até hoje o pessoal ri muito dessa história, conhecida como “o dia em que Inácio meteu o pé num penico cheio de xixi.”


  

  



  

domingo, 11 de novembro de 2012

O (des)Serviço do Fone 135

Publicado no Diário Popular do dia 7 de novembro.



Meu amigo Pedro sofre de gonartrose, um problema que degenera, sem volta, a cartilagem que protege a articulação do joelho, no caso dele. Sequela de acidente. Quando caminha mais de três quadras, a dor severa que sente o obriga a tomar uma condução pra retornar ao ponto de origem. Isso o impediu de trabalhar, representante comercial que era. Embora usasse carro em suas atividades, era um desce e sobe do veículo, com caixas de amostras de mercadorias, que só fez piorar seu estado.
Parou de trabalhar e procurou um médico. Necessitaria de uma cirurgia. Aconselhado, ligou para o 135 e marcou uma perícia médica, que foi agendada para 40 dias depois.
No dia marcado, lá estava ele, depois de viajar 60 quilômetros, cedinho da manhã. Após esperar por cerca de três horas, foi atendido. A médica, perita, leu o laudo do cirurgião e disse, deixando perplexo meu amigo, que era insuficiente, pois o documento só continha o código CID. Nem perderia tempo vendo as radiografias, pois precisava de mais detalhes do médico dele. Pedro achou estranho, pensou que ela é que fosse a perita.

Para evitar novo constrangimento, resolveu voltar após a cirurgia, aí, quem sabe, com a perna retalhada e engessada, fosse mais fácil receber o benefício que era seu por direito. Conseguiu remarcar para vinte dias após a operação.  Viajou novamente os 60 quilômetros e chegou na agência da Previdência cedinho. Nem esperou. A médica perita ficara doente e seu atendimento fora transferido para quatro dias depois. O tal dia amanheceu sob forte chuva, e meu amigo ponderou que viajar nestas condições seria imprudente. Ligou para o 135 para, quem sabe, remarcar para logo. A atendente, solícita, disse que ele só poderia remarcar uma única vez. - Tudo bem, disse Pedro.  Então a moça simpática remarcou para o dia 24 (cinquenta dias após a primeira perícia). - Ih, moça, dia 24 eu não posso viajar, então vou hoje mesmo, com chuva e tudo. - Desculpe, - devolveu a moça, – a perícia já foi remarcada. Pra desmarcar só indo na agência e pedir o cancelamento. Depois disso o senhor liga novamente para o 135 e marca nova perícia.
Pedro, então, para não perder mais tempo, fez uma procuração, conforme orientação da moça do 135, autorizando sua mãe a cancelar a consulta na agência. A mãe de Pedro, então, fez os 60 quilômetros de ônibus, ainda sob chuva, para cumprir o combinado. Lá chegando, foi informada de que houve algum engano, que não era possível cancelar a perícia, alguém do 135 tinha se equivocado. O correto era esperar passar o dia 24 para depois ligar novamente e remarcar nova perícia, que, com alguma sorte, seria realizada lá por dezembro. Até lá, se Deus quiser, meu amigo já estará sem o gesso, e o Estado poderá usar o benefício do pobre Pedro para algum outro investimento qualquer (Pedro voltou à agência de Pelota por mais duas vezes, e, até agora, não conseguiu remarcar a perícia).

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Memórias de Corredor 8 - O Dreno

Passei importantes eventos no hospital durante a primeira internação: Natal, Ano Novo e Carnaval. Assisti a conquista da Libertadores da América e do Mundial de Clubes pelo São Paulo. Foram meses cheios, naqueles quartos do hospital.
Na segunda internação eu vi na tv, inteirinha, a Copa do Mundo, a Copa do Tetra. Durante os jogos meu quarto era um miniestádio. Umas quinze pessoas se amontoavam como podiam para assistir aos jogos da Seleção. Tinha pipoca, carapinha, cachorro-quente, refrigerantes... Vez por outra uma enfermeira passava correndo pelo corredor com uma bandeira do Brasil em punho, gritando Brasil, Brasil. Uma festa.
Mas também tive momentos não tão comemoráveis. Depois da primeira cirurgia a perna inchou terrivelmente e foi preciso colocar um dreno. A sangue frio, no quarto mesmo. O médico injetou um anestésico tipo xilocaína e meteu o bisturi. Até aí tudo bem, um picãozinho. O problema era que o dreno tinha que chegar até o osso, e aí começou o martírio. O meu martírio. Com uma tesoura, dessas cirúrgicas, o médico cavoucou até o fundo do osso e girava para abrir um buraco largo para que não obstruísse o dreno depois de colocado. Tipo como quando você vai abrir um buraco na areia da praia para botar o guarda sol e fica girando o porrete para que ele entre bem fundo na areia. Depois de preparado o terreno, é a vez de colocar o tubinho. Ele, então, segurou o dreno na ponta daquela tesoura maldita e novamente enterra sua lâmina nas minhas carnes, empurrando aquele canudo de borracha até o osso. Xilocaína foi só pro psicológico. Depois de terminado o procedimento, o doutor me olha e diz: “Muito marmanjo (eu tinha 22 anos) não aguenta isso aqui sem abrir o berreiro”. Não sei se ele viu uma lágrima solitária e cheia de dor que descia por meu rosto.
Mas o dreno não resolveu. Tive que voltar para o bloco para retirar o fixador externo e extrair um pouco mais de osso infeccionado. Ah! Não comentei antes, mas, no acidente, eu rompi o tendão do braço direito, e lá em Porto Alegre o ortopedista tinha dito que o rompimento fora parcial e que o tendão tinha sido costurado. Baita mentira. O tendão encolheu tanto que e eu perdi o movimento da mão direita. Total. Então, quando eu estava no bloco para a retirada do fixador, casualmente o doutor Miguel Santos, especializado em microcirurgia, passava por ali. O Dr. João Ivan pediu que ele desse uma olhada no meu braço. Como eu já estava anestesiado, não custava nada abrir o meu braço para dar uma espiada na situação, afinal um corte a mais ou a menos não faria diferença.
Dias depois eu voltaria ao bloco para a cirurgia que me devolveu o movimento da mão direita: retirada de tendão da perna esquerda – a boa - para ser implantado no braço direito. Recuperei uns 85% dos movimentos da mão, suficientes para tocar violão e segurar um copo de chope.