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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Gato Escaldado

Publicado no Diário Popular do dia 21 de novembro de 2012

O rio que antigamente cortava uma cidade, hoje separa duas. Um lado da margem se emancipou do outro, anos atrás. Contudo, o fato é que aquele rio é uma dádiva da natureza, um presente de Deus. No forte do calor, os campings ficam lotados de barracas, muitas delas pertencentes a visitantes, famílias de outras cidades que aproveitam os finais de semana para passear e se refrescar nas águas calmas e límpidas do rio doce. A praia, como muitos a chamam, torna a estação do sol mais alegre, e seus quarenta graus centígrados suportáveis.
Quem poderia imaginar, sentado em sua cadeira de alumínio, com água correndo pelos tornozelos e lambaris cutucando nos pés, que aquele fio de rio, algum dia, invadiu as duas cidades deixando milhares de desabrigados? Quem apostaria ser possível aquele arroio, como outros o chamam, destruir casas, desmanchar ruas e derrubar pontes, isolando quinze mil pessoas do resto do estado? Ouvi falar de três grandes cheias: 1959, 1983 e 1992. Esta última, dizem, foi a maior. Eu morava, na época, em Porto Alegre, mas assim que as águas baixaram eu vim ajudar na limpeza. A cena era de guerra. As ruas se transformaram em imensos varais de roupas; as calçadas, depósitos de móveis, colchões e entulhos; as paredes de todas as casas eram de uma cor só: lama. Quem viveu isso na pele conhece bem os traumas que ficam mesmo depois do leito voltar ao seu curso normal. Hoje, dois dias de chuva ininterrupta deixam as ruas nervosas, com pessoas subindo e descendo para o camping para observar a evolução das águas, medindo com pauzinhos e pedrinhas o aumento do nível do rio. 
Contam que, em uma dessas ameaças, Hermeto e Inácio, amigos de pescarias, de causos e de copos, aproveitando a ausência das esposas, resolveram assar um naco de leitão. Era o terceiro dia de chuva, e como o clima estava pra manga comprida, compraram um garrafão de vinho. Barriga e cabeça cheias, deitaram para um cochilo, ambos dividindo a cama de casal – a única na casa.
- Melhor a gente ficar acordado, vai que o rio sobe e nos pega dormindo – alertou Inácio.
- Que subir que nada – resmungou Hermeto, - a água ainda lá embaixo. Dorme tranquilo que, qualquer coisa, eu te chamo. Dizendo isso, ferrou no sono, roncando alto.
Para Inácio não foi tão simples. As paredes do quarto logo começaram a rodar feito carrossel, a cama girava violentamente. Resolveu usar o antigo truque de botar o pé no chão para ver se o quarto parava de rodopiar. Assim que o fez, sentiu o pé mergulhar na água, molhando até a barra da calça. – Hermeto! Acorda, homem, que o rio está passando  embaixo da cama. E saiu em disparada porta afora. Já na rua, nem sinal de água. Aliás, nem chovia mais e o sol já dava os ares da graça.
Até hoje o pessoal ri muito dessa história, conhecida como “o dia em que Inácio meteu o pé num penico cheio de xixi.”


  

  



  

4 comentários:

  1. EU VIVI AS DUAS ÚLTIMAS POR AHI. MAS O CAUSO FOI MUITO BEM CONTADO E EU NEM SABIA DESTA ESTÓRIA .! VALEU MAURÍCIO. PARABÉNS .!

    EU MORAVA NA ENTRADA DA OLARIA E COMPREI O TERRENO DO TEU AVÔ O SAUDOSO JAYME PONS .!

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  2. Pois é, Heleno... eu, na verdade, não estava aqui nas duas cheias. Em 83 eu estava viajando pra Osório, e em 92 eu morava em Porto Alegre. Lembro da casa de vocês, ao lado da escola, pra onde se mudou o cãozinho Bilu. Às vezes falo com o Maurício no Face e ele manda notícias de vocês.
    UM abraço pra todos.

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  3. Muito bom reviver "os causos" da minha querida terrinha, através das tuas palavras Mauricio!!

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    1. Obrigado, meu amigo (ou minha amiga). Pedro Osório guarda grandes histórias como essa.

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