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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Memórias de Corredor 8 - O Dreno

Passei importantes eventos no hospital durante a primeira internação: Natal, Ano Novo e Carnaval. Assisti a conquista da Libertadores da América e do Mundial de Clubes pelo São Paulo. Foram meses cheios, naqueles quartos do hospital.
Na segunda internação eu vi na tv, inteirinha, a Copa do Mundo, a Copa do Tetra. Durante os jogos meu quarto era um miniestádio. Umas quinze pessoas se amontoavam como podiam para assistir aos jogos da Seleção. Tinha pipoca, carapinha, cachorro-quente, refrigerantes... Vez por outra uma enfermeira passava correndo pelo corredor com uma bandeira do Brasil em punho, gritando Brasil, Brasil. Uma festa.
Mas também tive momentos não tão comemoráveis. Depois da primeira cirurgia a perna inchou terrivelmente e foi preciso colocar um dreno. A sangue frio, no quarto mesmo. O médico injetou um anestésico tipo xilocaína e meteu o bisturi. Até aí tudo bem, um picãozinho. O problema era que o dreno tinha que chegar até o osso, e aí começou o martírio. O meu martírio. Com uma tesoura, dessas cirúrgicas, o médico cavoucou até o fundo do osso e girava para abrir um buraco largo para que não obstruísse o dreno depois de colocado. Tipo como quando você vai abrir um buraco na areia da praia para botar o guarda sol e fica girando o porrete para que ele entre bem fundo na areia. Depois de preparado o terreno, é a vez de colocar o tubinho. Ele, então, segurou o dreno na ponta daquela tesoura maldita e novamente enterra sua lâmina nas minhas carnes, empurrando aquele canudo de borracha até o osso. Xilocaína foi só pro psicológico. Depois de terminado o procedimento, o doutor me olha e diz: “Muito marmanjo (eu tinha 22 anos) não aguenta isso aqui sem abrir o berreiro”. Não sei se ele viu uma lágrima solitária e cheia de dor que descia por meu rosto.
Mas o dreno não resolveu. Tive que voltar para o bloco para retirar o fixador externo e extrair um pouco mais de osso infeccionado. Ah! Não comentei antes, mas, no acidente, eu rompi o tendão do braço direito, e lá em Porto Alegre o ortopedista tinha dito que o rompimento fora parcial e que o tendão tinha sido costurado. Baita mentira. O tendão encolheu tanto que e eu perdi o movimento da mão direita. Total. Então, quando eu estava no bloco para a retirada do fixador, casualmente o doutor Miguel Santos, especializado em microcirurgia, passava por ali. O Dr. João Ivan pediu que ele desse uma olhada no meu braço. Como eu já estava anestesiado, não custava nada abrir o meu braço para dar uma espiada na situação, afinal um corte a mais ou a menos não faria diferença.
Dias depois eu voltaria ao bloco para a cirurgia que me devolveu o movimento da mão direita: retirada de tendão da perna esquerda – a boa - para ser implantado no braço direito. Recuperei uns 85% dos movimentos da mão, suficientes para tocar violão e segurar um copo de chope.

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