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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Mal Acostumado


Publicado no Diário Popular de 6 de Fevereiro de 2013

Já estamos acostumados. Acostumamo-nos fácil com as coisas, com as situações. Eu mesmo! Já me acostumei com o banco quebrado do meu carro. Ando pela cidade todo torto, feito gurizão fazendo marra ao volante, meio de lado, encostado na porta. E essa algia no joelho?! Parece que sempre esteve por ali, doendo, incomodando. Mas não reclamo, já estou acostumado.

     Houve um tempo em que as coisas não eram bem assim. Não apenas comigo, mas com a maioria das pessoas. Era difícil se acostumar com certas situações. Quase impossível. Não estávamos habituados, por exemplo, com corrupção desenfreada e vergonhosa. Nem com pedágios abusivos, absurdamente caros. Tampouco éramos, em outros tempos, acostumados com alagamentos semanais, criminosos sendo soltos da cadeia sem cumprir pena, “assaltos” nas bombas de gasolina, mortes em corredores de hospitais, alunos desrespeitando  e até batendo em professores, “ficha suja” ocupando cargos eletivos, chacina no trânsito. Em outras épocas pintaríamos os rostos, empunharíamos sinetas e cartazes, faríamos passeatas, iríamos às ruas e exigiríamos um basta. Hoje protestamos apenas em campos de futebol, e não é contra o corte de cabelo ridículo que o craque insiste em manter na cabeça e que muitos torcedores copiam.

       Sempre ouvi dizer que nos acostumamos fácil com o que é bom. Naturalmente. Porém, começamos perigosamente a nos acostumarmos com situações que seriam impensáveis em outros tempos. Vivemos a época do “normismo”, onde tudo, ou quase tudo, é normal. É normal vermos homens e mulheres com pouco ou nenhuma roupa na novela das sete. É normal vermos homens e mulheres dormindo na calçada sob o rigoroso inverno gaúcho. É normal apanhar o panfleto que nos entregam no Calçadão para logo depois jogarmos no chão, longe da lixeira. É normal esperarmos horas, dias e, muitas vezes, meses por uma consulta médica.

   Dia desses fui ao banco. Mais de trinta pessoas esperando atendimento – muitos em pé – que estava sendo feito por dois caixas. Em quarenta minutos três pessoas foram atendidas no caixa especial, sendo que uma delas furou a fila (devia achar normal). Durante esse tempo o guichê para atendimento normal atendeu uma pessoa, o mesmo cliente que ali estava no momento em que entrei no banco. Um senhor do meu lado disse que não estava acostumado com essas circunstâncias e foi procurar o gerente. Pensei que fosse um turista estrangeiro, porque brasileiro já está acostumado com fila em banco. Mas não. Era, sim, uma dessas raras pessoas que ainda têm o poder da indignação e que lutam por seus direitos. Voltou, o senhor, minutos depois, com a informação de que o gerente nada podia fazer, pois estava sem pessoal. Alguns de férias, outros remanejados para agências do litoral, outro doente. Mas valeu a tentativa e ficou o exemplo. Saí do banco noventa minutos depois, sem ser atendido, e fui consertar o banco do meu carro.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O Melhor do Outro



Publicado no Diário Popular de 27 de março de 2013

Por conta do trabalho, algo na esfera pública federal, a Namorada viajava com frequência. Era sair pela porta levando sua mala que logo Ele sacava o celular do bolso e ligava para a Amiga: chope. A Namorada conhecia a Amiga, já tinham saído juntos, os três, na companhia de outros tantos, para cervejinhas e conversinhas, mas não imaginava – e nem poderia – que Ele e a Amiga mantinham uma relação mais íntima a cada viagem sua. Não era uma relação de intimidades de cama e chuveiro, pois a verdade era que nunca encostaram um no outro dessa forma, mas dessas intimidades de contar segredos, de conversas claras em noites em claro, discutindo literatura, música, pintores, peças, rindo e bebendo madrugadas adentro. Iam juntos ao cinema, livrarias, saraus, bares cults e teatro nonsense.
      - Sinto-me sua amante, - disse certa noite a Amiga, em meio a discussões sobre Madame Bovary, - porque como toda a amante, eu fico com o melhor do outro.
Numa noite foram pegos. A Colega da Namorada os viu em uma mesa de bar, na calçada apinhada de mesinhas e burburinhos. Estavam, os dois, em animada conversa. A colega contou para a Namorada quando teve oportunidade, enfiando o assunto em meio a outros, como que casualmente:
        - Ah! Encontrei-o, com uma amiga, no barzinho. Bonitinha. Conhece-a?
     Depois foram vistos mais uma, duas, outras tantas vezes. Inventou viagem e esperou a noite cair. De dentro do táxi, sob um poste sem luz, viu tudo. Uma mesa cheia de garrafas e risadas. Pessoas passavam, paravam para conversar e seguiam caminho. E os dois sempre ali, caras e bocas. Depois, já bêbados e conta paga, atravessaram a rua e subiram para o apartamento da Amiga. Do taxi a Namorada não pode ver que ele dormira no sofá e a Amiga no quarto sem nem beijo de boa noite. Tampouco acreditou quando Ele contou no outro dia, na porta de casa, com suas coisas aos seus pés.
       Já faz dois anos que Ele mora com a Amiga. Não dorme mais no sofá, tem um quarto só seu. Alugaram um apartamento maior no mesmo bairro, perto dos bares preferidos. Às vezes saem com outras pessoas, nada muito sério. Com exceção de um beijo furtivo e despretensioso quando, de rosto colado, liam juntos um Jorge Amado, jamais tiveram outras intimidades que não as de contar segredos, de conversas claras em noites em claro, de ficar horas discutindo literatura, música, pintores, peças, e se embebedando madrugada adentro. Dias atrás, tomando um café na Praça da Feira do Livro, ela disse:
       - Estava enganada.
       - Sobre o quê?
       - Sobre a amante.
       - O que tem a amante?
       - Ela não fica com o melhor do outro.
       - E quem fica?
       - Os amigos. Os amigos ficam com o melhor.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ano Novo, Fila Velha



Dois de janeiro, segundo dia do ano. Dia de pós-festas, pós-comilanças e pós-beberanças. E dia de começar dieta e de renovar sonhos. Dia de ir ao banco. O Banco dos Gaúchos, no  meu caso.

Conforme impresso em meu ticket de atendimento (senha) eu entrei no banco as 14:10h. Na agência, uns trinta clientes esperavam atendimento, que estava sendo feito por dois caixas, um para atendimento especial e outro para atendimento normal. 14:50h e apenas três pessoas foram atendidas no caixa especial, sendo que uma delas furou a fila. No caixa normal, a mesma cliente que estava sendo atendida na hora em que entrei no banco ainda estava no balcão (a cliente era uma “conveniada”, lojas que prestam serviços bancários para desafogar as filas nas agências). Um senhor que estava sentado ao meu lado enxergou o gerente por ali e foi falar com ele. Pediu para abrir o terceiro caixa, pois queria jantar em casa ainda ao final do dia. Foi informado pelo homem do banco que não havia pessoal disponível. Muitos estavam de férias, alguns foram trabalhar nas praias, e o que deveria estar no terceiro caixa estava doente. O senhor ainda reclamou ao gerente que parceiros conveniados deveriam ter atendimento separado, em outro setor da agência, e não nos caixas de atendimento ao público. Não tinham.

Foi então que, entre reclamações por toda parte, alguém mencionou que distante 50 metros da agência havia uma lotérica que aceitava depósitos e pagamentos. Perfeito pra mim. Corri pra rua e logo avistei uma pequena fila - não mais que cinco ou seis pessoas. Quando faltavam três clientes para chegar a minha vez, bum!, o crédito da conveniada explodiu e o caixa fechou quase que no meu nariz. Pensei em voltar para o banco, pois teria tempo de sobra até que me chamassem, mas era tarde demais para voltar, o relógio mostrava 15:01h, e os bancos fecham às três da tarde na minha cidade. A solução foi andar mais algumas quadras até chegar a outra loja que prestasse o serviço. Saí batendo muleta. Aliás, ando temporariamente de muletas, o que me credencia a usar o caixa especial, porém não faço isso, não vejo necessidade, afinal todos esperam sentados em confortáveis bancos.


A lei da espera mínima é mais uma das tantas leis que não servem pra nada nesse país. Com as maravilhas da tecnologia e automação, os bancos utilizam o mínimo de pessoas nos caixas físicos. No entanto, o que ainda se vê é um tanto de desrespeito ao cliente. Em dias críticos (início de mês) as pessoas precisam deixar seu trabalho para ir ao banco e muitas vezes perdem uma tarde inteira porque simplesmente falta pessoal nas agências.

Quanto a mim, consegui fazer quase tudo o que eu precisava depois de longa espera. Quase tudo, pois um dos pagamentos só poderia ser feito no Banco do Brasil, mas aí já era quase noite e eu tinha que voltar pra casa.