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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O Melhor do Outro



Publicado no Diário Popular de 27 de março de 2013

Por conta do trabalho, algo na esfera pública federal, a Namorada viajava com frequência. Era sair pela porta levando sua mala que logo Ele sacava o celular do bolso e ligava para a Amiga: chope. A Namorada conhecia a Amiga, já tinham saído juntos, os três, na companhia de outros tantos, para cervejinhas e conversinhas, mas não imaginava – e nem poderia – que Ele e a Amiga mantinham uma relação mais íntima a cada viagem sua. Não era uma relação de intimidades de cama e chuveiro, pois a verdade era que nunca encostaram um no outro dessa forma, mas dessas intimidades de contar segredos, de conversas claras em noites em claro, discutindo literatura, música, pintores, peças, rindo e bebendo madrugadas adentro. Iam juntos ao cinema, livrarias, saraus, bares cults e teatro nonsense.
      - Sinto-me sua amante, - disse certa noite a Amiga, em meio a discussões sobre Madame Bovary, - porque como toda a amante, eu fico com o melhor do outro.
Numa noite foram pegos. A Colega da Namorada os viu em uma mesa de bar, na calçada apinhada de mesinhas e burburinhos. Estavam, os dois, em animada conversa. A colega contou para a Namorada quando teve oportunidade, enfiando o assunto em meio a outros, como que casualmente:
        - Ah! Encontrei-o, com uma amiga, no barzinho. Bonitinha. Conhece-a?
     Depois foram vistos mais uma, duas, outras tantas vezes. Inventou viagem e esperou a noite cair. De dentro do táxi, sob um poste sem luz, viu tudo. Uma mesa cheia de garrafas e risadas. Pessoas passavam, paravam para conversar e seguiam caminho. E os dois sempre ali, caras e bocas. Depois, já bêbados e conta paga, atravessaram a rua e subiram para o apartamento da Amiga. Do taxi a Namorada não pode ver que ele dormira no sofá e a Amiga no quarto sem nem beijo de boa noite. Tampouco acreditou quando Ele contou no outro dia, na porta de casa, com suas coisas aos seus pés.
       Já faz dois anos que Ele mora com a Amiga. Não dorme mais no sofá, tem um quarto só seu. Alugaram um apartamento maior no mesmo bairro, perto dos bares preferidos. Às vezes saem com outras pessoas, nada muito sério. Com exceção de um beijo furtivo e despretensioso quando, de rosto colado, liam juntos um Jorge Amado, jamais tiveram outras intimidades que não as de contar segredos, de conversas claras em noites em claro, de ficar horas discutindo literatura, música, pintores, peças, e se embebedando madrugada adentro. Dias atrás, tomando um café na Praça da Feira do Livro, ela disse:
       - Estava enganada.
       - Sobre o quê?
       - Sobre a amante.
       - O que tem a amante?
       - Ela não fica com o melhor do outro.
       - E quem fica?
       - Os amigos. Os amigos ficam com o melhor.


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