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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Pegou em Cheio

Publicado no Diário Popular em 21 de fevereiro de 2013


Toda manhã era a mesma coisa: acordava minutos antes de o relógio despertar e ficava imóvel em sua cama de solteiro. Nunca dera sorte com as mulheres, de modo que achava tolice ter uma cama de casal. Além do mais, um leito de solteiro ocupava menos espaço em sua quitinete, assim poderia acomodar melhor sua bicicleta, um sofá puído, a velha poltrona de papai, um aparelho de som do tipo “três em um”, um guarda-roupa de duas portas e uma mesinha de canto. Era seu patrimônio.

     Antes de levantar para o café com bolachinhas de água e sal ficava fitando a mancha de infiltração no teto e pensando em suas possibilidades, e o suicídio sempre lhe vinha à mente como uma delas. Nada de cordas ou arma de fogo. Veneno também estava fora de questão. Seria algo original.

    Assinaria TV a cabo. Quase todas davam três meses a preços promocionais. Bastariam. Compraria o canal que transmite o BBB 24 horas e ficaria assistindo. Talvez usasse de subterfúgios para se manter acordados. BBB na telha. Quem sabe uma pane neurológica, um curto circuito no cérebro, um colapso nervoso e fim. Aliás, sempre simpatizou com a palavra “colapso”. Colapso, Calypso. Não o ritmo caribenho, mas a banda. Outra alternativa. Comprar todos os cds da Calypso, se encerrar na quitinete e ficar ouvindo no volume máximo e no modo “repeat”. Quem sabe fosse vítima de um calypso nervoso. Ôpa! De um colapso. Lembrou, então, dos vizinhos. Gostava de alguns deles, como a Simpática dona Dinoca. Sempre lhe trazia um pedaço de bolo fumegante, quando ela fazia algum. Pensando melhor, a única moradora do prédio que se importava com ele era a dona Dinoca, mas a coitadinha nada tinha que ver com suas mazelas, não gostaria de importunar seu sossego com a gritaria da Joelma.

     Lembrou-se de um filme que assistira uma vez. Despedida em Las Vegas. Na fita, um cara, alcoólatra, decide dirigir até Las Vegas e, lá, beber até morrer. O problema é que não tinha carro, e se tivesse provavelmente não teria dinheiro pra ir até São Lourenço, o que dirá a Vegas. E depois, não era muito dado à bebida. Embora fosse uma boa ideia, descartou-a. Talvez se bebesse duas Bavárias...

Estava nesses pensamentos recorrentes quando o celular acusou mensagem recebida. Só uma pessoa lhe mandava mensagem. Corrigindo: nem pessoa era. Era mensagem automática lhe informando dos resultados da loteria, seu único divertimento, se é que podia chamar assim o hábito de arriscar em jogos de azar. Ainda na estreita cama, esticou o braço, apanhou o aparelho e apertou uma tecla. Leu e releu várias vezes. Nem precisou verificar o bilhete, jogava sempre nas mesmas dezenas. Coração aos pulos, juntou a roupa do chão e se vestiu aos trancos, lavou o rosto aos barrancos e desceu dois lances de escadas em tempo recorde. Bolachinha água e sal nunca mais. Las Vegas ia ser pequena pra ele. Compraria um presente pra dona Dinoca. Pensava na futura namorada ao atravessar, longe do chão, a movimentada avenida. Nem viu de onde saiu o caminhão. Pegou em cheio.




 


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