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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Nascimento e Morte de um Surfista

Publicado no Diário Popular de 27 de fevereiro de 2013
Publicado no Jornal Cruzeiro do Vale em 13 de fevereiro de 2015


(Para Chebra)



Quando vi Tilman na TV, arrasando em cima de um skate, lembrei da minha época de skatista. O detalhe, insignificante, é que Tilman é um simpático bulldog, e eu um ser, até onde eu sei, racional.

        Pois bem, já faz muito tempo desde que subi em um skate. No exato instante em que eu coloquei os dois pés em cima dele, uma força extraordinária e invisível o arrancou de baixo de mim, me cuspindo no chão de cimento. Minha época de skatista durou três segundos.


Esta não foi a única tentativa de me inserir no meio desportivo radical. Uma vez eu surfei. Bem, exagero. Eu tentei surfar.  

     Foi na praia da Guarda do Embaú, convite de um amigo para passar um fim de semana. Na sexta-feira, na chegada, um churrasco de boas vindas. Depois de muitas conversas e muitos goles de cerveja, fomos dormir já na madrugada de sábado. Disposto a não perder as coisas boas da vida litorânea, levantei cedo para aproveitar o dia. Sete horas e lá estava eu, único desperto na casa – todos dormiam. De repente eu o vi, quietinho, empertigado num cantinho da sala, o Road Runner, a prancha do filho do meu amigo anfitrião. Assim era chamada porque tinha o Papa-Léguas estampado no bottom.
         Bermudão colorido, chinelos de dedo, nu da cintura para cima e prancha debaixo do braço lá fui eu para as areias do Atlântico. Na praia, apenas surfistas madrugadores como eu (madrugador, não surfista). Deitei o equipamento na areia, sentei do lado abraçando as próprias pernas e fiquei observando, estudando. Durante quase uma hora percebi que o movimento era simples: remar com os braços até ultrapassar a rebentação, esperar sentado a onde certa, subir de pé sobre a prancha e deslizar de volta para a praia. Barbada. Depois de “bracear” até a rebentação, sentia como se tijolos maciços estivessem pendurados nos braços. Sentei na prancha e fiquei espiando meus colegas enquanto recuperava o fôlego. O único barulho que se ouvia era o das ondas. Os outros surfistas pareciam não me notar. Ninguém falava, concentração total. Então veio a primeira. Ninguém foi. Veio a segunda e nada. Na terceira eu pesquei uma agitação coletiva e pensei: é essa. Como que regidos por um maestro, nos preparamos. Eu ia surfar pela primeira vez. Na hora certa, tomei impulso e fiquei de pé sobre a prancha. Então uma força extraordinária e invisível a arrancou de baixo de mim, me cuspindo no mar. Senti um puxão no pé, a prancha presa no meu tornozelo pelo leash. Procurei o chão e não encontrei. Agarrei-me à prancha e consegui apoiar o peito sobre ela. Com dificuldade, tomei impulso e uma dor aguda atingiu meu peito. Meus pelos foram lixados pela parafina, e quando caí de novo a água salgada foi como mertiolate em ferida aberta. Ia morrer afogado. Um surfista que vinha voltando viu meu desespero e me ajudou a subir na prancha. – Primeira vez, brother? Só consegui confirmar com a cabeça, enquanto tentava esconder a vergonha e o tórax depilado. Com o fio de força que me restava, remei para a praia e fui para casa jogar videogame.


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