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segunda-feira, 18 de março de 2013

Riquezas

Publicado no Diário Popular de 17 de abril de 2013


Fui cortar o cabelo. Abri a carteira para pagar o serviço do barbeiro e lá estavam um ou outro cartão de crédito bloqueado, alguns cartões de visita, uma aposta da mega-sena do ano passado e outros papeizinhos sem importância. Dos cinco pilas – que é o que vale o corte de cabelo de um careca feito eu – nem sinal. Mas sou cliente antigo, pago na próxima.

     Voltando pra casa, com pressa de domingo, embora fosse sábado, ia pensando na miserabilidade da minha carteira contraponteando com minha riqueza. Sim, porque tenho tesouros. Família, amigos, minhas filhas, Deus, tesouros que não cabem em baús, mas que acomodo com facilidade no peito. E tenho, também, os que guardo em caixinhas escondidas no fundo do guarda-roupas, atrás das vestes de inverno para que fiquem bem aquecidos. Uma dessas caixas eu chamo de máquina do tempo. É abri-la e viajar por caminhos cheios de boas lembranças. Nela guardo cartas do tempo em que os carteiros ainda entregavam boas notícias, além de contas e revistas para assinantes. Até pensei em fazer dela uma Cápsula do Tempo, aqueles recipientes carregados com os mais variados objetos que as pessoas enterram para abrirem vinte cinco anos, ou mais, depois. Mas, não! Gosto de visitar o passado de vez em quando.

     Você, jovem leitor, que domina a internet, que tecla na velocidade de uma transmissão de dados, que abre a caixa de mensagens antes mesmo de sair da cama, você possivelmente desconhece a ansiosa emoção de esperar pelo carteiro, de abrir a caixinha do correio (não o eletrônico), de abrir um envelope de cartas tal qual uma criança abre um invólucro de figurinhas para preencher seu álbum (também fui desse tempo). E escrever para um amigo, de punho e caneta? A preocupação em não errar (não tinha o recurso da sublinha vermelha do Word), passar a limpo para corrigir rasuras, e depois despedir-se escrevendo “desculpe a letra”, como se letra feia precisasse ser desculpada. Letra feia a gente aceita. Ilegível, não.

     Quando o remetente usava muita cola a carta grudava no envelope. Na hora de abrir, um bom pedaço da missiva resultava perdido. Arquivo corrompido. O vírus de antigamente.  Tenho uma ou duas assim na minha caixinha, mas nem por isso tem menos valor.

Cartas de irmãos, amigos, ex-namoradas, parentes e até de desconhecidos como o menino Lucas, participante de um projeto chamado “Esperando o Carteiro”, desenvolvido por uma escola pública de Goiás, onde a gente “adota” um aluno para trocar correspondências à moda antiga. A ideia é estimular a escrita, comunicação, interação e a valorização dos Correios em plena era dos velozes e-mails. Aceitei com muito carinho o convite para participar do programa, que me foi feito por uma amiga que conheci na comunidade Livro Errante, um grupo que faz circular livros entre seus usuários através dos Correios.

   Falando nisso, peço licença. Chegou o carteiro trazendo um livro autografado, presente do autor, mais um item para a estante de minhas inumeráveis riquezas.  

2 comentários:

  1. Caro amigo blogueiro,

    Amei a pauta do texto. Também sinto falta de receber cartas de amigos e parentes. Infelizmente, ou felizmente, recebo apenas ainda esporádicas cartas da querida madrinha, que ama escrever e sempre me envia fotos atualizadas. No restante, minha caixa de correios se resume em folhetos de propaganda e boletos bancários. Mas confesso que nunca fui uma boa remetente, cuidava mais em não deixar de responder o que recebia. Quanto ao restante das "riquezas", as guardo com afinco melhor no peito e na memória, onde nem o tempo, nem a distância têm força para dizimar. Grande abraço!

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  2. Verdade, amiga blogueira. Só lamento que a enchente de 92 levou uma caixa cheia de cartas. Pena. MAs concordo contigo, a memória é o melhor lugar para guardar riquezas. Abraço.

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