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terça-feira, 16 de abril de 2013

Caserna


Publicado no Diário Popular de 26 de setembro de 2013

O quartel é também um manancial de boas histórias. Eu servi às armas, Exército Brasileiro, Infantaria. No meu tempo se usava a farda verde-oliva, diferente da camuflada que é usada hoje. Tínhamos que besuntar gandola e calça com uma goma feita de farinha e água aplicada com ferro quente para lhe dar um aspecto de “armadura”. Tínhamos que engomar a farda, e a não observação desse processo, tão importante quanto a manutenção do armamento, poderia causar embaraços para o soldado.  
Prestei serviço militar no início dos anos 90, século passado. Hernandez também. Sujeito engraçado, superbacana, pra usar uma expressão das antigas. Comprou na loja do quartel um calção com duas listras brancas nas laterais, de uso exclusivo dos oficiais, apenas para correr na avenida e impressionar as gurias. Certa manhã, de guarda, Hernandez apontou o fuzil para o corneteiro que dava o toque da alvorada e ordenou que fosse soprar o instrumento em outo lugar porque o barulho estava lhe incomodando. O corneteiro, soldado antigo e da mesma companhia do desvairado, não discutiu e se mandou para o outro flanco. Vai saber?!
Havia também o Santos, que detestava tirar guarda. Odiava tanto que chegou ou extremo de dar um tiro no próprio pé para escapar da obrigação. O projetil (uma das coisas que aprendemos logo que chegamos ao quartel é que munição não é bala, mas projetil) entrou por cima e saiu por baixo, atravessando pé e coturno. Escapou da guarda, mas não de completar o ano de serviço, boa parte dele na enfermaria.
Silva era um soldado taciturno, na dele, quietão. Gordo e alto. Tirava guarda com o fuzil carregado, mas era, como dizem, uma mãe. Certa madrugada, na guarita, Silva foi surpreendido pelo oficial de dia que fazia a ronda. Senha e contrassenha trocadas, o tenente solicitou que Silva lhe entregasse o FAL – Fuzil de Armamento Leve, o que, prontamente, fez. Depois ficou ali, vendo o oficial se afastar levando consigo o seu armamento. Ficou o restante da “hora” sem fuzil.  Depois desse incidente Silva passou a tirar o serviço com o trabuco carregado. Talvez fosse atirar no sujeito que tentasse lhe arrancar a arma de novo. Vai saber?!
Eugênio era motorista, como eu. Graxeiro, assim éramos chamados. Numa manhã, ao voltar de um serviço, estacionou o caminhão Engesa na ladeira para facilitar o arranque mais tarde. Esqueceu-se, porém, ao descer do pesado veículo, de puxar o freio de mão. Eugênio ainda teve tempo de ver o caminhão descendo sem controle até derrubar um paredão e parar de vez dentro da biblioteca.
Se o espaço desta coluna me permitisse, teria ainda muitas histórias para contar dos tempos de farda, do aprendizado, das lições de companheirismo e civismo. Porém, quanto a mim, não tenho nenhuma passagem digna de registro. Depois de doze detenções eu me tornei um soldado exemplar.


 Graxeiros


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