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segunda-feira, 27 de maio de 2013

O Futuro da Música (ou a música do futuro)



Guardo uma imagem minha, mandinho, bem nítida no HD das memórias indeléveis. Devia ter uns cinco, seis anos: eu miúdo, deitado em minha cama, coberto até o pescoço, um toca-fitas sobre o peito, desses, ou melhor, daqueles, do tamanho de um tijolo maciço e que a gente chamava de “gravador”. O k-7 tocava Eu Quero Apenas, do Rei, e Sossego, do Tim Maia. Certamente a fita continha mais músicas, mas só lembro dessas duas. Também tínhamos um desses toca-discos tipo maletinha, com o alto-falante na tampa e que podíamos levar pra todos os lados. Os vinis que rodavam na maleta mágica eram os do meu pai. Entre os vários, lembro-me do Altemar Dutra, Nelson Rodrigues, Trio Los Panchos, Sucessos Românticos Italianos, Paulinho da Viola, Beatles e o já citado Roberto Carlos. Bastante eclético, o meu pai.
      Quando entrei na adolescência já tínhamos na sala um daqueles potentes aparelhos 3 em 1, sucesso da época. Eram os anos 80, quando surgiram as primeiras bandas de rock no cenário nacional. Blitz, Ultraje a Rigor, Titãs do Iê-Iê (depois só Titãs), Barão Vermelho, Legião Urbana e Capital Inicial (essas duas originárias de uma única banda chamada Aborto Elétrico) invadiram as FMs. Mas eu viajava mesmo era no som dos gringos.
      Colava os tímpanos no volume máximo do Gradiente para ouvir o piano de Rick Davies com a Supertramp, a psicodélica bateria de Neil Peart, do Rush e os vocais do Queen. Pink Floyd, Led Zeppelin, Dire Straits, The Police eram as naves em que eu embarcava para viajar pelo cosmos sem sair do carpete. No escuro da sala dos meus pais eu deixava aqueles sons todos entrarem. Que me carregassem para onde estivessem indo. Às vezes para o palco; noutras para a plateia; para o mar, céu, passado, presente e futuro. Viajava legal.
      Vieram os anos 90 e como eles os primeiros grupos de pagode. Raça Negra, Razão Brasileira e Grupo Raça são alguns dos pioneiros. Depois até os dinossauros Demônios da Garoa pagodearam. Anos depois, quando o movimento dava sinais de esmorecimento, o ritmo se reinventou e surgiu o pagode universitário, som da maioria das festas que hoje divide espaço com o, também universitário, sertanejo. A viagem, porém, não é mais como antes.
      Frases de Bob Marley, John Lennon, Chaplin, Guevara, que em outros tempos estamparam camisetas, estão perdendo a vez para “Frases do Pagode” nas redes sociais. Cidades do interior estão carentes de espaços (e de público) para apresentações de bandas de rock. Pelotas e Porto Alegre, abençoadas sejam, ainda são cidades privilegiadas pela variedade de estilos e oferta de espaços. Contudo, os shows nacionais contratados para a 21ªFenadoce ilustram bem o que digo. Das quatro apresentações musicais agendadas, três são de samba e pagode. De pop (rock?) só o Lulu, que viu a vida melhor no futuro. É a ordem do dia. Som de festa. Pagode, sertanejo e funk - este último já ganhando sua versão universitária. Quem não curte dá o lado. Quem gosta compartilha. E salve Lollapalooza. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Mas, Bah!

(publicado no Diário Popular de 22 de maio)

Quiosque à beira-mar, praia de Copacabana, RJ:
     - Então, meu brother, como é a vida lá no sul?
- Bah! É tri, mas já estava morrendo de saudade dessa prainha aqui, das mulatas, do samba, do Maráca.
- Bah!? Que isso, Marcão? Que negócio é esse de bah?!
- Ah, brow, tô só tirando onda com você, rapá.
- Sei, tá bom. Mas diz aí, o pessoal lá da empresa já está acostumado com seu método dureza de trabalhar?
- Guri! Você sabe, sou dureza mesmo, duro como salame da colônia. Lá na empresa já sou mais conhecido do que parteira em campanha. Cheguei quietinho como guri cagado, mas logo fiquei mais ligado do que rádio de presidiário. Hoje eu sei de tudo o que se passa na empresa. De tudo! Sou mais informado do que gerente de funerária. Ô garçom, dá pra trocar esse copo aqui? Tá mais gorduroso que telefone de açougueiro.
- E as gaúchas, são bonitas como dizem? Garanto que o velho Marcos já arrumou uma namorada pelotense, heim!?
- Que namorada que nada. Com tanta mulher bonita que tem vou querer me amarrar? Eu não. Quero ficar solto como peido em bombacha. Esses dias mesmo fui com uns colegas num bar lá na Gonça e de cara uma prenda se vazou pra mim. Bonita como laranja de amostra. Eu tô ali, na minha, saracoteando mais do que bolacha em boca de banguela. Quando fui tirar água do joelho eu a vi na fila do banheiro, uma fila comprida como xingada de gago. Fui indo, devagarzito tipo enterro de viúva rica, sabe? Não sabe? Bem, a gauchada sabe. Lá dentro estava quente como frigideira sem cabo, mas tô ali, faceiro como mosca em tampa de xarope. De repente, brother, chega um grandão, feio como indigestão de torresmo. Era o namorado da mina. Deitei o cabelo, acordo cedo pra lida.
- Caraca! E seu chefe lá na empresa? Vocês se deram bem?
- O cara é sério como defunto e grosso como parafuso de trator. Mas a gente se acerta. Mas e tu, tchê!? Vamos falar um pouco de ti. Engordou um pouquinho desde a última vez em que nos vimos.
- Pois é, acho que é esse açaí. Fiquei viciado.
- Estou vendo, tu tá mais pesado do que sono de surdo.
- Verdade. Me conta, você chegou a telefonar pro Mineiro, aquele meu amigo? Ele disse que poderia te ajudar em qualquer coisa que fosse preciso.
  - Barbaridade, brow, liguei pro piá. Sinceramente, o sujeito é teu amigo, mas é chato como chinelo de gordo e apressado feito cavalo de carteiro, sempre na correria. Mora lá há pouco mais de três anos é já fala todo que nem gaúcho?! Eu, heim! Bem capaz! Ô garçom, traz outro copo que esse aqui tá mais nojento do que mocotó de ontem. E me vê uma Polar. Que Polar? Cerveja, tchê, não conhece? Tá em falta? Então me aquenta a água pro mate. Mas e tu, tchê brother, o que me contas aqui do Rio maravilhoso? A la pucha! Isso aqui sim é vida. Mas bah!,tchê!

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Entrevista com João Alfredo




João Alfredo Teixeira da Cunha saiu de Pedro Osório no ano de 1994 em busca de oportunidades que a cidade não lhe oferecia. Há 19 anos em Rio Grande, casado há 15 com Rosemeri Lackammann Silveira, o pai da Thamires é um amante do futebol. Fundou em Pedro Osório o Nacional, juntamente com Fabiano Ritta, e desde então nunca deixou de trabalhar com o esporte. Foi colega de Fernandão, Jardel, Roger, Mabília e Alex Xavier em um curso de treinador de futebol profissional e hoje comanda uma page no Facebook onde o assunto principal, é claro, é o futebol (www.facebook.com/DeCaraPraBater).



Maurício Pons - João Alfredo, conta um pouco sobre a sua página no Facebook, De Cara Para Bater.

João Alfredo - A Page de Cara Pra Bater, foi um projeto que nasceu meio que por acaso. No começo era apenas um passatempo.  A página, apesar do pouco tempo de criação, a cada dia ganha mais seguidores. Muitos profissionais da imprensa de Rio Grande a prestigiam. Em apenas uma matéria que postei, antes do jogo entre Brasil de Pelotas e São Paulo de Rio Grande, foram mais de 4.000 visualizações. Já estamos montando uma equipe para, em breve, lançar um site que receberá o mesmo nome: De Cara Para Bater.



MP – Como começou o teu envolvimento com o esporte?

JA – Começou ainda quando eu morava em Pedro Osório. Criei, junto com outros atletas, o Nacional, para participar dos campeonatos locais. Foi com o Nacional que tomei gosto pelo esporte e de me envolver mais efetivamente. Até hoje tenho um carinho muito grande por aquele time e por aquela gurizada que trabalhou comigo na época. Tanto que fundei um time aqui em RG com o mesmo nome, o Nacional de Rio Grande, um time que ganhou tudo o que disputou nos três anos de atividade nas categorias de base. 




MP – Como foi que surgiu a oportunidade de treinar o juniores do São Paulo?

JA – Foi devido ao sucesso do Nacional, que me deu visibilidade graças ao trabalho desenvolvido. O interessante foi que o Nacional começou como um projeto social, mas deu tão certo e os resultados foram tão expressivos que se tornou um time campeão.

        Estive dirigindo o São Paulo em três oportunidades, todas como treinador da base. Mas em 2002 fui contratado pelo Riograndense como treinador do time profissional. Gostaram do meu trabalho, tanto que em 2004, quando o clube disputou a segundona, fui convidado a voltar. Era a oportunidade que eu esperava. Participei das contratações, montamos um grupo bom. Porém, tive problemas com algumas pessoas que haviam chegado ao clube. Depois de fazer toda a pré-temporada, deixei a equipe. Em 2008 fui novamente procurado por um dirigente a pedido do presidente do clube para disputar um citadino de profissionais. Infelizmente não deu para conciliar com a outra atividade que eu tinha na época.



MP - Por que clubes de Pelotas e Rio Grande não conseguem montar uma equipe forte, como tem em outras cidades do interior, como na região serrana, por exemplo?

JA – Falta estrutura para nossos clubes. Fora o E.C. Pelotas que conta com um belo estádio além de um CT (Parque Lobão), todos os outros ainda carecem de uma estrutura que o futebol, nos dias de hoje, exige. Tomo como exemplo o  Lajeadense, de excelente campanha neste Gauchão. É um clube que conta com um ótimo estádio, com toda uma infraestrutura profissional que permite aos jogadores e comissão técnica trabalharem com eficiência, sem estar muito atrás da dupla Gre-Nal, guardadas, é claro, as proporções de dimensão de clube.

Falta também um maior investimento nas categorias de base. Clubes como o Brasil PE e o São Paulo RG estão estagnados no tempo. O clube precisa realizar projetos para ser um time forte daqui a cinco, dez anos. O imediatismo dos clubes da região atrapalha um possível sucesso.



MP - Pedro Osório e Cerrito vivem momentos de incertezas no esporte. As prefeituras encontram muitas dificuldades em promover competições esportivas nos dois municípios. Como os órgãos públicos tratam o esporte aí em Rio Grande?

JA - São realidades diferentes. O que as pessoas têm que ter em mente é que não é só com realização de competições que se faz futebol. Não vejo em Pedro Osório e Cerrito uma entidade que represente os clubes. Os clubes não podem pensar individualmente, é necessário organizar uma liga que fale em nome de todos os clubes amadores, dos dois municípios. Quando há representatividade, tu tens mais força pra cobrar e realizar coisas que, sozinho, é impossível.  Mesmo no caso de ser futebol amador, deve-se trabalhar com projeto e trato profissionais.  Outra coisa: A criação de um Conselho Municipal de Esportes é fundamental. As leis de incentivo ao esporte estão aí, mas pra buscar esses recursos tem que haver uma união de todos os setores. A Liga e o Conselho, se criados, serão dois pilares fundamentais pra se buscar recursos e administrar o futebol com gestão profissional.

Aqui em Rio Grande, no governo Fabio Branco, foi construído Quadras Poliesportivas cobertas em todas as escolas da rede municipal. Houve também apoio da prefeitura aos campeonatos amadores. Já o atual prefeito, Alexandre Lindenmyer, quando era presidente do S.C. Rio Grande, buscou no governo federal patrocínio para a implantação do Centro de Referência Esportiva, inaugurado em março. O projeto é desenvolvido pela Fundação Sócio Cultural Esportivo do Rio Grande (Funserg) e têm o patrocínio do Programa Petrobras Esporte & Cidadania. O projeto atende 600 alunos da rede pública de ensino, dos sete aos dezessete anos e de ambos os sexos, através de atividades esportivas de basquete, futebol, vôlei, taekwondo, boxe e natação, bem como aulas de reforço escolar. É o maior centro de formação esportiva educacional da região.




MP – E os projetos para o futebol amador da zona sul?

JA – O futebol amador em nossa região vive momentos de ostracismo e isolamento há muitos anos.  Temos clubes amadores de tradição, alguns com  cem anos de atividade. Cito exemplos: o Liberal, de São José do Norte; o Rio Branco, de Santa Vitória; Inter e Arroio Grande, de Arroio Grande;  Ferroviário e Piratini, de Pedro Osório; Canguçuense e Cruzeiro, de Canguçu;  Grêmio Lourenciano e muitos outros fizeram história no futebol. Agora imagine todos esses clubes competindo em um torneio oficial? Seria uma oportunidade das cidades fazerem intercâmbio cultural e de promoverem o turismo entre elas. Pensando nisso, recentemente entreguei ao secretário de esportes de Rio Grande o esboço de um projeto que promoverá o resgate desses clubes através da criação de uma Liga de Futebol Amador da Região Sul. Todas as cidades que integram a AZONASUL seriam representadas por um membro no conselho de gestão da Liga. Isso fortaleceria os campeonatos municipais das cidades participantes. Cada cidade teria um representante no campeonato regional, no caso, o campeão da competição municipal. Caberia às prefeituras fornecerem a logística necessária para apoiar seus representantes.



MP – Já foi feito o contato com os municípios da região?

JA - O prefeito de Rio Grande já aprovou, quando falei a ele do projeto, e, como ele, o prefeito de Pelotas também se mostrou  favorável a uma competição que resgate os clubes amadores da região.  Sei que o prefeito Cesar Brito é o atual Presidente da AZONASUL. Uma reunião com o prefeito de Pedro Osório já está na minha agenda.


MP – Voltando aos profissionais. O jornalista de Rio Grande Rafael Diverio aponta essa mescla de experiência com juventude a grande arma do São Paulo RG. O Goleiro Luciano tem 42, e os zagueiros Carlão e Wagner apenas 22. A dupla Aylon, um dos destaques com 20 anos, e Ale Menezes, com 35, tem balançado as redes pelo interior. Sangue novo e experiência é uma fórmula eficaz?

JA - Costumo dizer que uma moeda de ouro no fundo do mar não tem valor nenhum até que a retirem de lá. Assim é a experiência. Ela, quando compartilhada, principalmente com os mais jovens, acrescenta muito na formação de um grupo. No futebol, quando isso acontece é sinônimo de sucesso.



MP – Quem tu vês como os grandes destaques nessa fase final do primeiro turno campeonato gaúcho da série A2?

JA – Os já citados Aylon e Alê Meneses que marcaram a maioria dos gols do São Paulo até aqui. Luciano, goleiro do São Paulo, que com 42 anos vive uma fase extraordinária no fim da carreira. E Eder Machado, do Brasil de Pelotas. Seus gols têm sido decisivos para a equipe.



MP – O crescimento acelerado da cidade Rio Grande pode influenciar o futebol local?

JA - Rio Grande vive hoje um cenário diferente de quando cheguei aqui. O Polo Naval impulsionou a economia do município, a cidade cresce de forma assustadora. Há um crescimento significativo em todos os setores. Construção civil, mercado imobiliário, hoteleiro, e comércio de uma forma geral, são os que mais crescem. Por outro lado: Os preços dos imóveis dispararam. O trânsito está horrível, e os índices de violência aumentaram. Mas também surgem mais e melhores oportunidades, e os clubes daqui tem que se organizarem para aproveitá-las. Mas tem que haver uma mudança na forma de gestão. Aqui ainda existe o imediatismo no futebol, e hoje em dia é fundamental um bom planejamento para o futuro.



MP – Neste momento tu estás longe dos gramados. Quais são os planos para o futuro?

JA - Minha volta ao futebol depende muito de uma proposta sólida, pois meus compromissos familiares não me permitem aventuras. Minha vida aqui sempre esteve ligada às pessoas: como desportista, sindicalista e, atualmente, como presidente do bairro onde moro. Nas duas últimas eleições recebi convites pra concorrer a vereador. Na primeira não aceitei. Já na última, estava tudo certo para concorrer pelo PCdoB, partido o qual sou filiado. No entanto, uma anemia grave que contraí na época me tirou da disputa. Futuramente, se o futebol não me quiser mais (risos), a política poderá ser meu destino.



MP – João Alfredo, muito obrigado pela entrevista e sucesso em seus projetos.

JA – Eu que agradeço ao blog pela oportunidade de poder contar parte da minha trajetória no futebol e de também falar um pouco de mim, já que há bastante tempo estou longe de Pedro Osório, onde tenho muitos amigos e pessoas pelas quais tenho o maior carinho. Obrigado.
João Alfredo, sua filha Thamires e a esposa Rosemeri




quarta-feira, 8 de maio de 2013

História de Pescador



Publicado no Diário Popular de 8 de maio de 2013
Fui recentemente contratado para assistente de criação em uma agência de publicidade e, por praxe, o Chefe sempre chama os novatos para pescar, para se conhecerem mutuamente e quebrar o gelo. Às seis horas de domingo eu já estava de banho e café tomados aguardando sua chegada.
Vesti botas de couro surradas com o cano por cima de uma calça jeans mais velha ainda. Uma camiseta e um colete estilo safári e, na cabeça, um boné de propaganda. No espelho um autêntico pescador me fitava, pensei. Mas o Chefe, ao chegar, sugeriu que eu trocasse de roupa. Uma bermuda, camiseta e tênis estavam de bom tamanho. Podia manter o boné para me proteger do sol.
O barco, naturalmente, já estava na lagoa. Enquanto carregávamos nossas bagagens para dentro da embarcação, o Chefe mostrava:
- Este é o d’Oro Tea, Assistente. Têm 11 metros de comprimento e capacidade para dez pessoas. Por toda a volta do barco você encontrará espera para varas. O que achou?
- Incrível! Nunca tinha estado em um barco como esse – na verdade nunca estive em barco nenhum, mas não disse a ele.
Depois de um curso rápido sobre como usar as carretilhas, entramos na lagoa. A manhã foi calma, de muita conversa e nenhum peixe. O Chefe achou melhor preparar o almoço e ponderou: se continuar assim, melhor voltarmos cedo. Preparou macarrão, com muito molho vermelho. Antes da primeira garfada já senti o que estava por vir, pois meus olhos já ardiam por antecipação. Pimenta das mais ardidas! E muita! Suportei bravamente duas garfadas até que uma vara, que estava na espera, vergou um pouco e o chefe correu para verificar. Era minha chance.  Virei-me para a amurada e despejei meu almoço na lagoa. O Chefe, vendo meu prato vazio, fez sinal de aprovação e foi servir mais sem me dar tempo de recusar. Mas era distraído, o Chefe, e consegui me livrar do macarrão novamente sem que ele percebesse.
Mais tarde, louça lavada, preparávamos pra retornar quando algo aconteceu. As duas varas chiaram violentamente e as linhas dispararam. Depressa tiramos os equipamentos das esperas e já trazíamos dois lindos tambaquis para cima. Daí em diante trabalhamos por uns noventa minutos sem descanso e logo tínhamos uma grande quantidade de peixes à bordo. Em minutos o Chefe começou a limpar os peixes para acondicioná-los em caixas com gelo. Lavou bem o peixe, cortou a cabeça, o rabo e as nadadeiras com grande agilidade. Com igual destreza abriu a barriga do bicho. Retirou as vísceras de dentro do tambaqui e então eu vi, com um frio no estômago. Massa com pimenta. O Chefe, sempre em silêncio, limpou outro, outro, e mais outro. Em todos eles continha um pouco do meu almoço. Lá se vai meu emprego, pensei. Mas, não. Estou na agência até hoje e o Chefe jamais tocou no assunto comigo nem com ninguém. Gostava muito de pescar, mas detestava histórias de pescador.