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quarta-feira, 8 de maio de 2013

História de Pescador



Publicado no Diário Popular de 8 de maio de 2013
Fui recentemente contratado para assistente de criação em uma agência de publicidade e, por praxe, o Chefe sempre chama os novatos para pescar, para se conhecerem mutuamente e quebrar o gelo. Às seis horas de domingo eu já estava de banho e café tomados aguardando sua chegada.
Vesti botas de couro surradas com o cano por cima de uma calça jeans mais velha ainda. Uma camiseta e um colete estilo safári e, na cabeça, um boné de propaganda. No espelho um autêntico pescador me fitava, pensei. Mas o Chefe, ao chegar, sugeriu que eu trocasse de roupa. Uma bermuda, camiseta e tênis estavam de bom tamanho. Podia manter o boné para me proteger do sol.
O barco, naturalmente, já estava na lagoa. Enquanto carregávamos nossas bagagens para dentro da embarcação, o Chefe mostrava:
- Este é o d’Oro Tea, Assistente. Têm 11 metros de comprimento e capacidade para dez pessoas. Por toda a volta do barco você encontrará espera para varas. O que achou?
- Incrível! Nunca tinha estado em um barco como esse – na verdade nunca estive em barco nenhum, mas não disse a ele.
Depois de um curso rápido sobre como usar as carretilhas, entramos na lagoa. A manhã foi calma, de muita conversa e nenhum peixe. O Chefe achou melhor preparar o almoço e ponderou: se continuar assim, melhor voltarmos cedo. Preparou macarrão, com muito molho vermelho. Antes da primeira garfada já senti o que estava por vir, pois meus olhos já ardiam por antecipação. Pimenta das mais ardidas! E muita! Suportei bravamente duas garfadas até que uma vara, que estava na espera, vergou um pouco e o chefe correu para verificar. Era minha chance.  Virei-me para a amurada e despejei meu almoço na lagoa. O Chefe, vendo meu prato vazio, fez sinal de aprovação e foi servir mais sem me dar tempo de recusar. Mas era distraído, o Chefe, e consegui me livrar do macarrão novamente sem que ele percebesse.
Mais tarde, louça lavada, preparávamos pra retornar quando algo aconteceu. As duas varas chiaram violentamente e as linhas dispararam. Depressa tiramos os equipamentos das esperas e já trazíamos dois lindos tambaquis para cima. Daí em diante trabalhamos por uns noventa minutos sem descanso e logo tínhamos uma grande quantidade de peixes à bordo. Em minutos o Chefe começou a limpar os peixes para acondicioná-los em caixas com gelo. Lavou bem o peixe, cortou a cabeça, o rabo e as nadadeiras com grande agilidade. Com igual destreza abriu a barriga do bicho. Retirou as vísceras de dentro do tambaqui e então eu vi, com um frio no estômago. Massa com pimenta. O Chefe, sempre em silêncio, limpou outro, outro, e mais outro. Em todos eles continha um pouco do meu almoço. Lá se vai meu emprego, pensei. Mas, não. Estou na agência até hoje e o Chefe jamais tocou no assunto comigo nem com ninguém. Gostava muito de pescar, mas detestava histórias de pescador.



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