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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Achado, Não Roubado

 Publicado no Diário Popular em 31 de agosto de 2013

Nossa casa, no Cassino, ficava na esquina da Avenida Atlântica com a Montevidéu. Íamos e voltamos da praia a pé. Naquela época as questões ambientais não tinham o foco de hoje. A prefeitura podia passar as máquinas e abrir ruas por entre as dunas. A rua Montevidéu terminava dentro do mar.

        Era uma casa grande, a nossa. Instalada num terreno todo gramado, com algumas árvores e um jardim florido. Havia outras duas construções no mesmo endereço, também da família. Às vezes uma delas era alugada, mas sempre passávamos os verões juntos: pais, avós, tios e primos, muitos primos, muitas crianças.  Quem passasse por ali no fim da tarde veria a gurizada correndo pelo jardim, jogando bola ou até acampando.

        Pois, bem. Certa tarde, retornando da praia, eu, um primo e um guri de Rosário cuja família veraneava em uma das casas da família deixamos os adultos se distanciarem - como fazíamos sempre – e acabamos ficando para trás. Subimos nas dunas atrás de aventura quando nos deparamos com um desses carrinhos de vendedor ambulante. Era bem grande, refrigerado, equipado com uma pia com torneirinha e tudo. Nas laterais havia a pintura de uma importante marca de refrigerantes. A duna o estava engolindo, a areia já cobria toda a roda e mais um pouco. Fizemos rápida reunião e decidimos, por unanimidade, levá-lo para casa. Cavamos com as mãos até libertá-lo, e com muito esforço conseguimos descê-lo do cômoro e empurrá-lo para casa. Foi tarefa árdua, pois tínhamos entre doze e quatorze anos e carrocinha, apesar de equipada com dois pneus grandes, tinha uma roda pequena que se enterrava na areia dificultando nossa empreitada.

          Instalamos o carrinho no jardim e logo virou playground dos pequenos. Escalavam, escondiam-se nos compartimentos, brincavam de forte apache. Dois dias depois, sentado na área da casa com meu almoço no colo (casa cheia, mesa idem) observei quando parou um carro na esquina. Após alguns instantes ele se foi para retornar em seguida acompanhado pelo fusquinha da Polícia Civil. Dois ou três homens desceram e pediram que chamasse o dono da casa. Já prevendo o motivo daquela visita, chamei alguém e fiquei quietinho dentro de casa. Os homens ainda deixaram que meu pai terminasse o almoço antes de se dirigir à DP do Cassino para dar explicações. O tal carrinho tinha dono e fora dado como roubado. Eu era um criminoso!

       Desfeito o mal entendido, o comerciante levou o carrinho para sua casa. Ficamos sabendo que, para não ter que empurrá-lo todos os dias, o dono da carrocinha a deixava escondida nas dunas, enterrada e acorrentada. Mas, juro! Não havia corrente nenhuma. E se houvesse, onde ele a prenderia? Num ramo de vegetação? No entanto, aprendi a lição. E reflito: a redução da maioridade penal é realmente um assunto delicado, porém alguma coisa precisa ser feita para crimes como assassinato e estupro. Três anos de reclusão para quem comete esse tipo de crime, mesmo que com dezesseis anos de idade, é um disparate.

                A casa hoje, sem gramado, sem jardim, sem crianças brincando (foto Google Maps).

                                                                                            Google Imagens

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Lar São Francisco



Publicado no Diário Popular de 17 de julho
O Lar São Francisco de Assis, em Pedro Osório, será homenageado com o Troféu Programa Sem Censura em um evento na cidade. Fui até o Lar, como é carinhosamente chamado pela comunidade, para tirar algumas fotos que serão usadas na noite do jantar. Cheguei no meio da tarde, de modo que encontrei parte de seus vinte e seis inquilinos sentada na área externa tomando o sol de inverno que, como todos sabem, auxilia no fortalecimento dos ossos e espanta o frio.

      Minha avó, Jacy Pons, quando primeira dama, por várias vezes me levou para tocar acordeão para os velhinhos do asilo (assim era chamado nos anos 80 - Asilo). Eu e mais uns amigos, com alguns instrumentos, sentávamos junto a eles e fazíamos suas tardes um pouco mais sonoras. Talvez muitos dos residentes daquela época já tenham falecido, se não todos. Minha avó já nos deixou há alguns anos e eu já não toco mais acordeão.

     Mas as fotos. Quando cheguei ao portão de ferro com a máquina fotográfica na mão percebi que todas as atenções se voltaram para mim. Olhavam, curiosos, esse visitante que nunca tinham visto, ou, se o viram algum dia, certamente já esqueceram. Pedi à gentil funcionária da casa autorização para fazer algumas fotografias das instalações. Depois de fotografar refeitório, cozinha, sala de estar e dormitórios, fui retratar os moradores. Pedi licença e comecei a clicar. Vários me sorriram. Outros apenas olharam entediados e alguns nem me deram atenção. Um senhor brincou: - Cuidado, vai estragar a máquina. Outro perguntou, divertido, se era para o jornal. Porém, o comentário que mais me tocou foi o de uma velhinha, cabelos branquinhos feito algodão, sentada entre duas outras senhoras em um banco encostado à parede onde refletiam alguns raios de sol. A idosa chamou a funcionária que me recebera e falou um pouco desapontada: - Eu pensei que ele fosse o Fulano, mas não é, né? A moça me explicou que Fulano era o filho daquela senhora. Perguntei se ele morava na cidade. – Nossa!- respondeu a jovem, - Faz muito tempo que ele não aparece. Desejei neste momento que, em vez da câmera fotográfica, eu estivesse portando meu violão.
      Despedi-me prometendo voltar em breve. A maioria me deu tchau, mas alguns nem me viram sair, e desconfio que nem tivessem me visto chegar, abstraídos que estavam, mergulhados em seus pensamentos, vasculhando em suas memórias sabe-se lá que lembranças de outros tempos. Percebi que nem sempre foram assim, velhos. Em algum dia nessa vida eles foram como eu, como você, como nossos filhos. Foram crianças e foram adolescentes. Foram jovens. Alguns deles que estão na casa de repouso têm familiares que lhes visitam. A maioria tem apenas uns aos outros. E existem os que são como essa mulher que espera pela visita do filho. Nutrem, além da saudade, muita esperança. Graças a Deus, todos eles têm o Lar São Francisco de Assis. 


Disse que voltava. Voltei e trouxe um gaiteiro, meu pai Darlan Pons..