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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Táxi!


(Publicado no Diário Popular de 15 de agosto de 2013)
Há tempos que o táxi saiu das ruas para conquistar outros espaços (até mesmo porque os espaços nas ruas estão cada vez menores). Táxi do Gugu, Táxi do Luciano Huck, até programas de entrevista dentro de um. Conheci um taxista na capital que assinava uma coluna no jornal, onde narrava suas aventuras como “chofer de praça”. Táxi é também divã, é confessionário. É corda bamba, fio da navalha. E pode ser anjo da guarda.

       Meu amigo João Alfredo pilota um táxi em Rio Grande. Prevenido, instalou um leitor de cartões de crédito em seu bólido, e foi justamente por estar equipado com este item que um colega pediu que ele fosse buscar alguns passageiros na saída de uma festa, pois a maquineta era exigência das clientes, três jovens garotas. Duas sentaram-se no banco de trás e a outra na frente. Uma das meninas informou o endereço e João partiu. Apertou, discretamente, um botão para abrir uma fresta no vidro da passageira, pois a menina tinha exagerado na bebida e um ar gelado poderia ajudar. Aliás, sóbria, mesmo, só uma delas aparentava estar, e foi justamente essa quem começou uma acalorada discussão com a menina da frente. Logo a contenda foi disseminada dentro do carro, de tal vulto que João precisou intervir temendo o pior, como puxões de cabelo, unhadas ou, deusolivre, vômito no estofado. Finalmente o carro estaciona no endereço certo e a dupla que estava no banco de trás desce sem se despedir da amiga e sem pagar a corrida. João virou-se para a outra, uma menina tão bonita quanto embriagada, e disse: “Moça, tu vais ficar aqui com elas ou queres que te deixe em outro lugar?” “Não”, sibilou a moça. “Então me diga para onde queres que eu te leve.” “Quero ficar no centro, na praça”, balbuciou. João argumentou que o sol ainda iria demorar a aparecer e ela andar naquele estado e sozinha na praça não era boa ideia. Então ela pediu para ser deixada na Tiradentes, e dormiu.

        Quando chegaram ao local João a acordou. Ela, então, sorri para ele e pergunta se o baile estava bom. “Que baile?” perguntou João. “O baile! Nós não estamos juntos?” Meu amigo, querendo resolver logo a situação, disse: “Meu anjo, nós não estamos juntos, nós nem nos conhecemos. Só estou contigo até agora porque tuas amigas foram embora e eu fiquei preocupado contigo”. A menina, então, deita a cabecinha tonta no ombro de seu motorista e diz: “Então me conta por que eu estou nesse carro contigo?” Foi a gota. João a pegou pelos ombros e sacudiu um pouco pra ela entrar em sintonia e disse: “Garota, sou teu taxista e só quero te deixar em casa em segurança. Por favor, me ajude a fazer o meu trabalho”. Para seu alívio, estavam perto. A guria, já quase recuperada, abraçou João, lhe deu três beijinhos e desceu. Ele ainda esperou que ela entrasse em casa. Sabe que ela dificilmente irá se lembrar da noite em que foi abandonada por suas amigas e amparada por um estranho, um motorista de táxi que, naquela noite, não recebeu pela corrida.


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