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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O Harém

Publicado no Diário Popular de 12 de setembro de 2013


Murahdino era um sultão rico, influente, poderoso e respeitado como deve ser todo sultão. Vivia confortavelmente instalado em Ghaznad, na região do Ganges, e seus domínios se estendiam até a Mesopotâmia. Considerado homem justo e bom pelos que o rodeavam, Murahdino gozava de boa reputação entre o califado, inclusive participava das partidas de futebol e churrasquinho de fim de semana no palacete do califa. No começo levava a família inteira – nove mulheres e dezessete filhos, mas depois organizou uma escala, pois sempre chegava depois que a costela era servida e acabava perdendo o melhor da festa, porque, como você sabe, mulheres, às vezes, demoram a se aprontar.

      No princípio, Murahdino, ou Murah, como era chamado pelos amigos, foi muito, mas muito feliz. Marido atencioso e pai ardoroso, procurava corresponder às expectativas de suas esposas e filhos. Verdade que não era fácil. Manter um harém exigia muita dedicação, além de dispendioso. Nos últimos dias, porém, o sultão andava cansado. Os negócios iam muito bem, devo dizer, mas em muitas noites chegava extenuado em casa, desejando apenas ler um jornal ou ouvir as notícias da última rodada do campeonato pelo rádio, mas era impossível. Seus filhos jogavam bola no salão principal e a algazarra se mesclava com o volume da TV onde suas nove esposas assistiam a novela das oito. Sentar-se na varanda era impensável, pois o frio da noite, lá fora, era de renguear camelo.

Sim! Chegara a hora de romper com as tradições. Murah já vinha pensando nisso há algum tempo. Além do mais, matrimônio poligâmico já estava ficando démodé. A maioria dos homens de sua classe já vivia com uma única esposa. Alguns até reprovavam seu harém, se bem que outros ainda sentiam uma ponta de inveja. E se dispensasse umas duas ou três? - Não!, aconselhavam – fique com uma apenas e serás infinitamente feliz. Terás tempo para o futebol, pescarias, curtir seu cinema em casa, essas coisas.

    (sete das nove esposas de Murahdino. Uma bateu a foto e a outra está fazendo bolo)
Resolveu dissolver o harém. Mas a quem tomaria para si como única esposa? Gostava de todas, admirava a todas. Cada uma tem sua peculiaridade, seus encantos. Pensou em fazer umas provas escritas, uns testezinhos. Quem sabe escolheria no palitinho? Pensou melhor e considerou a ideia tola. Resolveu simplificar e escolheu a mais jovem. Às outras oito deu apartamento de luxo, criadagem (incluindo alguns eunucos) e pensão vitalícia para elas e para os filhos. Não foi o bastante. Consideraram-se traídas. Contrataram o mais famoso escritório de advocacia da região e Murah viu seu patrimônio dilapidar-se com velocidade de uma tempestade de areia. Hoje vive sozinho em uma pequena aldeia com o mínimo que lhe restou. Recebe ajuda de uns poucos amigos e dos filhos. E, à noite, seus soluços levados pela brisa do deserto são ouvidos longe: saudades da tradição e de seu harém.

 (google imagens)

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