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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Criatividade (ou a falta de)



 Publicado no Diário Popular de 10 de outubro de 2013
Em um desses churrasquinhos de sábado à noite, entre a linguicinha com farofa e o entrecot grelhado, surgiu o assunto sobre a situação da música atual. Música brasileira, mais precisamente. Especulávamos sobre o processo criativo dos compositores. A questão girava em torno de uma dúvida: por que artistas como Zé Ramalho, Caetano, Djavan, Gil e outros dessa linhagem, incluindo bandas de rock da época, não emplacam um novo sucesso há muito tempo? Por que os shows dessa turma são montados sobre hits antigos, trabalhos lançados décadas atrás, embora com roupagem nova, unpluggeds e tals? Nas próprias trilhas musicais das novelas se observa a inclusão de muitas canções antigas, e festa “anos 80” é sucesso em todo o país.

Meu irmão Jayme arriscou que o motivo é que, talvez, a criatividade para compor canções de sucesso se evapore aos 30 anos de idade, versão corroborada, em parte, por Jou Silveira. Jou é da opinião de que a criatividade tem um pico, o ápice criativo. Acontece quando a verve está no máximo e que, passado esse momento, a queda é inevitável. Tristeza não tem fim, criatividade sim.

Eu viajei na costela e apontei que hoje o mundo é um lugar melhor (mais fácil) para viver se comparado às décadas de ‘70 e ‘80, e que os principais motivadores para se fazer música, atualmente, são fama e dinheiro. Todos me olharam como se eu fosse um ET. Levei vaia coletiva, mas não me intimidei e prossegui: Caetano, Chico e cia tinham algo a dizer, usavam de suas músicas para darem um recado, mandar uma mensagem à sua plateia, queriam apenas ser ouvidos e compreendidos. Bumbuns descendo até o chão, na boquinha da garrafa, água de coco ou chocolate, tanto faz, a regra hoje é vender, vender, vender, e eles querem mais. Não precisam mais das éfe-êmes para terem os seus quinze minutos ou quatro meses de fama. Use a Internet, a rede é o caminho. É o fim do Jabá! É música para rebolar, para festa, não pra ouvir.  


Meus argumentos foram refutados por unanimidade. Até tiraram a minha cerveja e mudaram de assunto. Porém, em uma coisa todos concordamos: a inspiração não dura para sempre. Até considero a veia criativa mais latente até os 30 anos de idade, mas apenas para compositores, pois com a literatura a coisa é diferente. A experiência e o amadurecimento tornam o autor mais criativo e interessante, a meu ver; o que não significa que não tenhamos jovens talentos literatos. Temos, sim, e penso que serão melhores ainda com o passar das letras. A Feira do Livro de Pelotas está chegando, é só conferir. Quanto à música, é como diz um amigo (o mesmo que diz que gosto não se discute, se lamenta): não existe música velha, o que tem é música ruim. 

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