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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Caça-talentos


 Publicado no Diário Popular de 7 de novembro de 2013

A jovem levou o novo namorado para apresenta-lo aos pais.

- O que você faz, rapaz? – pergunta o pai, sisudo.

- Sou escritor.

- Não, não. Quis dizer em que você trabalha?

- Mais foie gras, meu filho? – socorre, a mãe.

- Então? – insistindo.

- Ah, pai, deixa ele.

Mais tarde, na sala, o pai fuma um charuto enquanto seu novo genro bebe uma cerveja. As mulheres arrumam a cozinha.

- Devo ter lido algum livro que você escreveu?

- Estou trabalhando no meu primeiro romance, então creio que a resposta seja não.

- Posso saber um pouco dessa história maravilhosa de sua estreia como romancista?

- Claro – responde o visitante esvaziando seu copo e enchendo-o novamente. – É a história de um jovem escritor que, apesar de muito talentoso, não tem onde cair vivo até conhecer uma jovem de família muito rica. Eles casam. Todo o fim de semana o rapaz almoça na casa dos sogros e, furtivamente, coloca uma dose mínima de veneno na bebida deles, inclusive na da esposa, culminando, depois de algum tempo, na morte de toda a família. Ele herda a fortuna e, sob um pseudônimo, escreve um romance narrando tal ardileza. O livro, o único de sua carreira, se transforma rapidamente em um best-seller deixando-o ainda mais rico. Ele, então, passa a viver anonimamente em uma ilha sem nunca mais precisar trabalhar.

- Fredôôô! - grita a namorada da cozinha.

- Ele quem começou - devolve o garoto.

O pai não faz por mal; gosta de se divertir com os rápidos romances da filha. O primeiro foi um tatuador famoso na cidade. Depois apareceu um malabarista seguido de um pintor, um ator, um mágico e um cantor - o antecessor do escritor - que no jantar de apresentação o pai fez cantar a noite toda. Filmou e postou no Youtube. Era uma quase obsessão: chatear os namorados da filha.

Como se esperava, o caso com o escritor passou e apareceu outro. Esse era diferente, jurou a menina. Estava apaixonada como nunca. Cogitou casamento. Marcaram o tradicional jantar.

- Então, o que você faz? – quis saber o pai.

- Sou médico residente no Hospital do Coração. Vou me especializar em cardiologia pediátrica – responde o jovem, solene.

- Mas vem cá - atalha o pai esperançoso, – quem sabe você toca algum instrumento, canta, poetiza? Nada? Nem uns versinhos você escreve?

Trancou-se no escritório durante o resto da noite. 

 Google Imagens

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