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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Silêncio!



Publicado no Diário Popular de 21 de novembro de 2013


Em determinado momento no livro de F. Scott Fitzgerald, um repórter pergunta a Jay Gatsby se ele tem algo a dizer.

“- Algo a dizer a respeito de quê? – indaga Gatsby.”

“- Bem... Qualquer declaração que o senhor queira fazer.”

Nascido Jimmy Gatz, (O Grande) Gatsby teve uma infância miserável. Cresceu na época em que a América passava por grandes transformações e transformou-se com ela. Lutou na 1ª Grande guerra. Esteve na faculdade (ficou cinco meses), enriqueceu por linhas tortas e ascendeu socialmente. Naquele dia, quando da visita do tal jornalista, Gatsby nada disse.

Beto, um brasileiro, também viu seu país se modificar. Nasceu na ditadura e cresceu com a democracia. Foi a todos os especialistas e o diagnóstico era sempre o mesmo: cordas vocais, língua, sistema da fala, tudo normal. Boca, garganta e nariz perfeitos e sem o mínimo traço de lesão. No entanto, Beto não fala. Nunca falou.

Tampouco é surdo. Comunica-se com primor. Entende tudo que lhe é dito e responde com gestos simples, claros e eficientes. Frequentou escola e, diferentemente de Gatsby, diplomou-se na faculdade. Toca violão por hobby. Os mais chegados brincam dizendo que Beto é apenas um cara quietão, na dele. Até que algo surpreendente aconteceu.

Estavam no bar de sempre, Beto e uns amigos, bebendo e assistindo ao jogo de seu time que, apesar de bem colocado na tabela, não vencia a vários jogos. A classificação estava escorrendo por entre os dedos. Quando o treinador chamou um atleta do banco de suplentes, todos no bar ouviram:

- Mas é burro esse cara!

Silêncio na mesa. Silêncio no bar. Todos os rostos voltados para Beto. O que você disse?!

- Burro! Burro! Vamos ganhar é nunca, desse jeito.

O bar explodiu. Celulares aparecerem em todos os cantos. Alguns tirando fotos ou filmando, outros ligando para amigos e familiares. Risos e choros. Chegou mais gente. Todos queriam ouvir o Beto falar. Ninguém mais assistia ao jogo. E Beto falou sobre várias coisas. Música, culinária, cinema. Conversou em inglês fluente com dois turistas que andavam por ali. Versou sobre economia, astrologia e metafísica. Então alguém perguntou: - E o Brasil?

Pela segunda vez, naquela tarde, se fez silêncio no bar. Beto expeliu todo o ar do pulmão, levantou-se, andou até a porta, observou longamente o domingo ensolarado, virou-se para os interlocutores e começou a falar. Mas ninguém ouviu. Suas palavras foram abafadas por estampidos, gritos e sirenes que viam da rua. Perseguição policial. Bala perdida. Como Gatsby, morreu com um tiro nas costas sem uma última palavra.


                                                 Google Imagens
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2 comentários:

  1. Trágico! Gostaria de saber o que se passava na cabeça de Beto a respeito do Brasil...

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  2. Pelo jeito, muita coisa se passava pela cabeça desse cara!!! Já não passa mais!

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